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Aprendizagem | Gestão


Por: Rosi Rico

Seis estratégias para fortalecer a relação com as famílias

O primeiro passo é repensar o que isso realmente significa e quais o papeis de cada uma das partes

O caminho entre escola e famílias, muitas vezes, parece formado por uma ponte feita com tecidos que vão se esgarçando com o peso que um lado transfere para o outro. No meio, a criança ou o adolescente, que deveriam poder andar em segurança entre as duas pontas, mas que correm o risco de ficar perdidos, sem alicerce. Como aproximar esses lados, criar e fortalecer uma parceria tão importante para o desenvolvimento dos alunos?

De acordo com Rosely Sayão, psicóloga e consultora educacional, a meta precisa ser construir uma relação justa, respeitosa, democrática e solidária. Não é fácil, mas começa por compreender o real significado dessas palavras e refletir sobre quais atitudes e estratégias a escola adota para concretizar cada uma delas.

Ser justa implica reconhecer responsabilidades e limites de cada um.“A educação familiar é importante, pois é onde se aprendem crenças e valores. E isso é do âmbito privado. Na escola, ocorre a aprendizagem relativa ao espaço público, à convivência com o coletivo”, diz Adriana Ramos, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Moral (Gepem) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do curso de pós-graduação sobre Relações Interpessoais na Escola do Instituto Vera Cruz.

É onde o aluno percebe, por exemplo, que as relações não são todas estáveis como as familiares. “Em casa, um irmão pode dizer que odeia o outro e nunca mais quer falar com ele, e no dia seguinte já estarem conversando. Mas este garoto pode ouvir a mesma coisa de um colega de classe e o amigo realmente não falar mais com ele”, completa. A escola é, portanto, o ambiente para o desenvolvimento não apenas intelectual, como também social, físico, emocional e cultural. Não dá para instruir sem educar.

Mas o que ocorre quando gestores e professores identificam famílias com dificuldades de transmitir a educação de valores, que se refere a comportamentos e atitudes? É a hora de a escola ser solidária. Um caminho é utilizar a característica formativa natural de uma instituição de ensino também com os responsáveis. “Não é fácil ser professor, mas também não é fácil ser pai e mãe. A questão parental é intuitiva, ninguém faz faculdade para isso. Já na escola estão os profissionais da educação. Então, vamos aproveitar este fato para ajudar”, diz Adriana. As ações podem ser coletivas. “A equipe escolar pode criar oportunidades para discutir como lidar dentro de casa com a rebeldia dos filhos ou como ter um debate franco, sem moralismo e tabus sobre drogas, entre outras questões. O importante é ouvir os pais e oferecer sugestões”, explica Áurea de Carvalho Costa, professora na área de política educacional na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

LEIA MAIS: Vamos reconstruir a parceria entre escola e famílias

A iniciativa pode ser feita em parceria com universidades, organizações educacionais ou pela própria comunidade, em formato que se encaixe com as necessidades e estruturas disponíveis, como oficinas, rodas de conversa e ciclos de debates. O Gepem e a Convivere, consultoria educacional da qual Adriana também participa, fazem este tipo de trabalho há anos em escolas públicas e privadas. Pela experiência, em geral, a adesão inicial é pequena e com presença dos responsáveis que já têm uma boa convivência com as crianças e os jovens. A tendência, porém, é de o público aumentar conforme a informação sobre como são os encontros circula na comunidade escolar.“Eles não podem ser prescritivos, ou seja, com receitas prontas. Nem acusatórios. Devem ser formativos, com propostas de refletir junto, de mostrar como a escola está trabalhando e oferecer orientações sobre o que os pais podem fazer também. Lembrando que a decisão de como levar a prática para a casa será deles”, explica Adriana. Neste contexto, deve-se dar oportunidades para as famílias escolherem os temas de discussão. Segundo a pesquisadora, os três mais pedidos são: como colocar limites em crianças e adolescentes, como lidar com celular e redes sociais e como orientar sobre sexo e consumo de álcool e drogas. “Os pais estão sedentos por informação. A escola tem de perseverar nessas iniciativas”, diz Adriana.

6 ESTRATÉGIAS POSSÍVEIS

Ações para construir uma relação forte e produtiva com as famílias

Conheça as famílias
Entender a realidade dos responsáveis pelos alunos é essencial para definir estratégias de aproximação e construção de parceria.

Criar espaços de diálogos
Os pais precisam saber que podem procurar a instituição.  Para isso, é preciso horários flexíveis e pessoas disponíveis.

Comunique-se de forma construtiva
É importante ouvir o que os responsáveis têm a dizer, validar os sentimentos deles em relação à escola e aos filhos e só depois fazer propostas para mudar ou melhorar.

Agende encontros individuais
As conversas sobre a criança ou o adolescente devem ser feitas só com os responsáveis, com atenção para não culpar as famílias por desempenho ou comportamento, mas sim, compartilhar a situação e discutir ações dos dois lados.

Construa uma escola democrática
É necessário criar e fortalecer as instâncias coletivas de discussão com as famílias, como conselho escolar, Associação de Pais e Mestres (APM), assembleias etc.

Qualifique as reuniões coletivas
Prepare um ambiente acolhedor e diversifique os encontros: apresentar a escola, explicar as concepções de ensino, expor as produções dos alunos etc. Envolva a família no planejamento das atividades e preveja momentos para sugestões e críticas.

Referências positivas

A proposta de convidar os responsáveis para discutir questões que envolvam a criação de crianças e adolescentes, debatendo posturas negativas sem individualizar os casos e mostrando opções de estilos parentais positivos é também uma maneira de evitar algo que ainda é muito comum nas escolas: chamar os pais para conversar apenas sobre dificuldades de aprendizagem ou de comportamento. Além de gerar frustração e afastar as famílias, isso afeta o estudante.

“Quando a fala é sempre sobre problemas e nunca há reconhecimento, a autoestima do aluno pode ser muito prejudicada e causar efeitos graves na saúde dele, chegando a reações violentas contra si e contra outros”, diz Caren Ruotti, do Núcleo de Estudos da Violência (NEV), da Universidade de São Paulo (USP).

Ainda que a escola consiga atrair a maioria das famílias para essas atividades coletivas, sempre haverá aqueles que não responderão ao chamado. Cabe aos gestores e professores tentar entender os motivos da ausência. Dificuldades de transpor- te, restrições de horário, crença de que a pouca escolaridade pode gerar constrangimentos e des- motivação por acreditar que o encontro será apenas para críticas podem ser obstáculos. Nesses casos, as soluções passam por organizar caronas, considerar horários alternativos e melhorar a comunicação sobre os objetivos e a pauta do convite. Há também a possibilidade de propor conversas individuais. O essencial é criar um ambiente acolhedor, ouvir os responsáveis, compreender a realidade deles – evitando julgamentos e acusações – para gerar combinados que possam ser cumpridos por todos.

Se mesmo após essas tentativas não houver aproximação e a equipe escolar perceber que há problemas afetando os alunos, a instituição não vai assumir o papel da família, mas também não dá para se isentar de responsabilidade, uma vez que os estudantes sem apoio em casa são os que mais precisam. Quando a criança ou o jovem percebem que há espaços de escuta, fica confortável para expor o que está ocorrendo. “Se não há um adulto que assuma a figura de autoridade positiva dentro de casa, eles vão procurar em outro lugar. É melhor que encontrem na escola. Caso contrário, a lacuna vai ser preenchida por alguém da sociedade. E isso pode significar youtubers famosos ou mesmo o dono de uma boca de fumo”, explica Adriana, do Gepem.

Assim, é necessário ter consciência de que todos da equipe escolar são modelos de comportamento para os estudantes.“Professores e gestores são referências. Eles também podem mostrar o que é respeito em espaços coletivos e colaborar para o desenvolvimento de competências socioemocionais”, diz Ana Carolina D’Agostini, psicóloga e pedagoga, consultora do projeto de Saúde Mental do Educador de NOVA ESCOLA.

O ambiente escolar também é educador. Por isso gestores e professores precisam ser coerentes e promover valores como tolerância e respeito às diferenças, além de construir uma gestão democrática, com participação ativa de todos, espaços de diálogo e sistemas de mediação de conflitos. “Quando o aluno se sente acolhido e pertencente, ele cria relações saudáveis. Assim, mesmo quando há conflitos, ele entende que há outras maneiras para resolvê-los que não pela violência”, diz Caren Ruotti.

A violência juvenil é multifatorial

Nem as famílias nem as escolas podem ser responsabilizadas

A tragédia em Suzano (SP) em março, onde dois jovens mataram e feriram várias pessoas dentro da EE Professor Raul Brasil, gerou inúmeros debates sobre suas causas, incluindo a pergunta sobre o quanto a ação dos atiradores poderia ser atribuída às famílias deles. Não há respostas simples quando o assunto é violência. Estudos sobre crimes similares ocorridos no Brasil e em outros países apontam múltiplos fatores: problemas psicológicos, relação entre rejeição social e agressividade, além do culto às armas. “Não conheço pesquisa específica sobre a influência das famílias em tragédias como essa”, diz Ana Carolina, especialista em saúde mental. “É uma questão complexa. Não podemos resumir a causa dessa violência a um único fator. A família é importante, como também a escola – o fato de escolherem este local indica que esses ambientes nem sempre são saudáveis – e o grupo de pares”, completa Caren, da USP. Há também as características da sociedade em que todos estão inseridos. Casos como o de Suzano são exceções, mas a violência na escola não. Daí ser essencial refletir e planejar ações preventivas. É preciso mudar concepções, como a de rotular como desestruturada a família que foge ao padrão e atribuir a isso problemas na trajetória escolar. “Independente da formação do núcleo familiar, o que devemos observar são os tipos de relações constituídas ali, se elas são positivas ou não para o desenvolvimento do aluno”, diz Caren. Quando forem negativas, gestores e professores devem se aproximar dos responsáveis e propor outras maneiras para se lidar com a criança ou o jovem. Há também o trabalho interno. O principal recurso da escola para combater a violência é incluir no currículo discussões sobre o tema e desenvolver mecanismos de mediação de conflitos e outras ações que estimulem o protagonismo estudantil e permitam gerenciar situações de maneira democrática. “Se os conflitos forem bem conduzidos, podem constituir-se em situações de aprendizagem melhorando a convivência. Do contrário, redundam em violência”, diz Angela Martins, da Fundação Carlos Chagas (FCC). “O que traz pacificação é a consciência da escola como lugar de todos. Isso precisa ser promovido intencionalmente”, completa Áurea, da Unesp. Cabe também reivindicar apoio externo: “Há pouco subsídio. Seria mais eficiente se tivéssemos programas formativos e preventivos para as escolas”, diz Maria Mansutti, diretora de tecnologias educacionais do Cenpec. “As escolas não podem ficar sozinhas”, completa.

Ilustrações: Priscila Barbosa