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Olhe Além | Entrevista com Maria Helena Franco


Por: Mônica Manir

Como a escola pode ultrapassar o luto e fortalecer alunos e professores?

Como a escola pode lidar com os que sobrevivem a atos violentos, segundo estudiosa do luto em crianças e jovens

Violência: Psicoterapeuta, Maria Helena tem experiência em desastres e emergências em escolas

“No Brasil, fala-se muito da morte”, destaca o antropólogo Roberto DaMatta no livro A Casa e a Rua. Talvez se fale menos ainda dos sobreviventes, o círculo de pessoas que cercava aquela que se foi. Nesse perímetro, involuntariamente, vêm se incluindo colegas de sala e professores - não apenas por causa de massacres no ambiente escolar, mas também devido à violência cotidiana que ronda determinadas regiões do país ou mesmo ao aumento no número de suicídios de jovens no Brasil. O luto ganhou espaço na escola, e não é fácil saber o que fazer com a dor de quem ficou.

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Fundadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (LELu), na PUC-SP, a psicoterapeuta Maria Helena Franco tem observado há cerca de 30 anos esse estado de perda em suas variadas expressões. Ela dá consultoria focada em morte e luto, e não se abstém de emergências e desastres, quando a tragédia pode ganhar contornos virais. Na entrevista a seguir, Franco dá alguns nortes sobre como a escola pode ultrapassar esse desafio e fortalecer a resiliência de alunos e professores.

NOVA ESCOLA Quando se fala em violência dentro de uma escola, o que impacta mais?
MARIA HELENA FRANCO A escola é um lugar que, a priori, oferece uma base segura. Lá as coisas são previsíveis, tem dia de atividade, horário de aula, regras. Tudo isso serve para a gente se sentir amparado naquele ambiente. Quando acontece um evento ameaçador à vida na escola, essa base segura desaparece. Então o impacto é muito maior.

NE Que suporte pode ser dado a essas instituições?
MHF Já tive experiência de trabalhar com escolas que viveram situações assim e foi importante atuar em vários ângulos. Um deles é o dos alunos, independente da idade, mas considerando essa variável. Outro âmbito é o dos educadores e outro, o dos pais, das famílias. Eu vejo esses âmbitos individualmente, mas também os vejo integrados em algum momento e sem uma sequência fixa, porque cada situação é de um jeito. Em Realengo foi uma coisa, em Suzano foi outra. Sim, teve tiroteio nas escolas, mas funcionou de jeitos diferentes. Temos de ser muito sensíveis à necessidade de cada momento. Em Suzano, muitos alunos sobreviveram, há uma questão séria aí, um trauma.

NE Como tratar um trauma?
MHF A pessoa registra o trauma pelos sentidos. Registra pelo que vê, escuta, cheira, sente de gosto. Tudo é sensorial. Se você perguntar para uma pessoa sobre um trauma como um ataque a tiros, ela vai dizer: “Eu ouvi o tiro, vi o sangue, saí correndo”. É um registro primitivo, pré-verbal. É fundamental ajudar a pessoa a se expressar de outro jeito, a chegar a uma forma cognitiva mais elaborada e dentro da resiliência, para que consiga construir aquele significado para ela. A resiliência é a capacidade de encarar uma coisa muito forte, que tira você do prumo, para que fique em pé novamente e num lugar que lhe dê segurança.

NE A senhora mencionou ter vivenciado uma situação do tipo em uma escola. Qual foi?
MHF Foi quando uma docente morreu na sala dos professores vítima do ataque de um ex-aluno. Isso ocorreu em uma escola pública de São Paulo. Os estudantes ficaram chocados e assustados por esse aluno ter convivido com eles, em nenhum momento acharam que ele fosse fazer isso. Teve ainda a perda da professora querida. Fizemos um trabalho com os alunos e outro com os colegas dela, que se perguntavam “E se fosse comigo?” Um terceiro patamar foi trabalhar com um nível mais diretivo da escola para lidar com isso. É um crime, um caso de polícia. Como atuar exemplarmente? Porque tudo que é feito a seguir é considerado. Como, por exemplo, melhorar a segurança? Como entender que foi um caso isolado e que nem todo mundo lida dessa maneira com as frustrações?

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NE Os sobreviventes têm particularidades de acordo com a situação?
MHF Sim, há graus aí. Tem aquele aluno que estava com febre e não foi à aula naquele dia. É um sobrevivente, mas de certa forma está protegido por não ter visto as cenas. Tem aquele que foi à aula, viu um amigo ser morto, mas não foi atingido. É outro nível de sobrevivência. Tem aquele cujo amigo foi morto e ele próprio foi ferido, chegou a ser hospitalizado, mas não morreu. Em comum, essas experiências abalam o que chamamos de “mundo presumido”, a forma de ver o mundo e de nos vermos nele. Você acha que a escola é um lugar seguro, vai lá para estudar, se desempenha mal ou bem em determinada disciplina, fica com os amigos, é legal. Isso é o mundo que você conhece. Uma violência desse porte chacoalha, tira tudo do lugar. Algumas certezas que você tem e a norteiam na vida, já não tem mais. Os sentimentos estão misturados: raiva, medo, tristeza. O que fazer com eles? Antes você sabia de quem podia gostar. Agora...

"Na escola, as coisas são previsíveis. Há dias para as atividades, horários e regras. Quando acontece um evento ameaçador à vida na escola, essa base segura desaparece e o impacto é muito maior". Foto: Renato Stockler

NE O processo de luto tem etapas claras?
MHF Eu não trabalho mais com etapas de luto porque virou algo categórico. Era uma fase “x” e sem margem. Aí vinha outra fase “y”, também sem margem. Mesmo que se relativizasse, essa categorização acabou se tornando uma coisa quase prescrita. Dizia-se: quando a pessoa não pensa mais naquela que perdeu, é porque conseguiu vencer o luto. Isso é uma forma de simplificar algo muito complexo. Prefiro um processo de encaminhamento no qual a gente alterna o movimento, como uma onda que vai pra lá e pra cá. Faço algo que me dá prazer, retomo uma atividade, mas volto à minha situação de perda quando vou mexer nos objetos da pessoa que morreu. Esse movimento não linear permite que a pessoa em luto construa significados, perceba o que é mais difícil e o que é mais fácil no processo.

NE Há pesquisas mostrando que pessoas que vivenciaram um massacre escolar desenvolveram transtorno de estresse pós-traumático ou se suicidaram depois. É algo conhecido pela senhora?
MHF Sim, estive em uma mesa de debates em que se discutiu isso por causa de eventos pós-Columbine (massacre no qual dois alunos assassinaram 12 colegas e um professor na Columbine High School, nos EUA, e depois se mataram em 1999). Falou-se da falta de um acompanhamento que garantisse a volta desse equilíbrio, um trabalho de longo prazo, que pode durar muitos anos.

NE Quanto a morte de um aluno por suicídio pode afetar o clima na escola e como administrar esse fato?
MHF Quando um aluno se mata fora de um ambiente escolar, é uma visibilidade que dá margem a muitos rumores. Foi dessa forma, foi de outra, foi por isso ou por aquilo. Se esse aluno tinha uma posição de líder, se era admirado de alguma forma, deve-se evitar enaltecê-lo porque há o risco de contágio. Já se o aluno tinha um problema psicológico grave, talvez valha abordar o suicídio como uma não solução, para que não fique o registro de “a vida é difícil, então é melhor eu me matar”. Seja qual for o contexto, melhor falar que é uma situação dolorosa, que a escola está condoída, mas fazer isso de uma forma discreta.

LEIA MAIS: Suicídio: o que a escola pode fazer?

NE Como manter a discrição quando imagens de massacres feitas pelo celular viralizam nas redes sociais, por exemplo?
MHF É um desafio. Esses vídeos repetidos indefinidamente aumentam muito o impacto da tragédia. No dia do massacre em Suzano, eu fui uma das que pediram no Facebook, no WhatsApp e nas demais redes sociais para que não se reproduzissem imagens de pessoas mortas. Eu pensava nas famílias atingidas. Ser notícia desse jeito...Ao mesmo tempo, a escola não pode ser ingênua. Não podemos esquecer que, no caso de um suicídio, um dos primeiros meios de divulgação do fato são os grupos de mães, que por vezes criam subgrupos para avaliar se é o caso ou não de abrir o assunto para a mídia. A escola precisa reforçar o seu canal de comunicação e dizer que aquele é o canal que está dando a informação correta e confirmada. No mínimo, essas ações servem para não abrir mais terreno para as fake news.

Para saber mais

Vida, Morte e Luto: Atualidades brasileiras
Karina Fukumitsu (Org.), Ed. Summus, 2018

A Intervenção Psicológica em Emergências: Fundamentos para a prática.
Maria Helena Franco, Ed. Summus, 2015

A Arte de Falar da Morte para Crianças.

Lucélia E. Paiva, Ed. Ideias e Letras, 2011

Fotos: Renato Stockler/NOVA ESCOLA