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Bem-estar do professor melhora o desempenho dos alunos

Conheça o trabalho de um pesquisador que desenvolveu um treinamento com foco no bem-estar de professores para propor um novo modelo de Educação

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
Alunos praticam meditação em sala de aula  Crédito: Getty Images

Os índices de depressão ao redor do mundo aumentaram de maneira alarmante nos últimos 50 anos. A média de idade do primeiro episódio depressivo migrou da fase adulta para o início da adolescência. Pesquisas, como a de McLeod & Fettes, Trajetórias de Fracasso: O percurso educacional de crianças com questões de saúde mental e de Steinberg, A idade da oportunidade: lições sobre as descobertas científicas da adolescência, indicam que comprometimentos na saúde emocional dos adolescentes contribuem para desempenho acadêmico mais baixo, maior porcentagem de faltas, diminuição do autocontrole e maior taxa de evasão escolar. Além disso, outros estudos como o de Nidichi e um grupo de pesquisadores sugerem que a promoção de bem-estar em idade escolar é um fator de proteção contra a depressão na juventude e auxilia no desenvolvimento da criatividade, estimula a coesão social e maior senso de cidadania até a idade adulta. Tais evidências sugerem a necessidade de um modelo educacional que enfatize o bem-estar emocional dos estudantes, priorizando na mesma medida o conteúdo acadêmico.

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Com base nesse cenário, o economista e psicólogo mexicano Alejandro Adler defende um novo paradigma para a Educação que contribua para o desenvolvimento integral do ser humano com base em estudos sobre a união entre bem-estar, educação, habilidades socioemocionais e políticas públicas com foco no professor. Para isso, ele desenvolveu uma pesquisa para a sua tese de doutorado na Universidade da Pensilvânia (Estados Unidos) propondo um modelo de Educação Positiva com ênfase no treinamento de professores em práticas de bem-estar que, consequentemente, têm impacto benéfico tanto na saúde emocional dos professores como na dos seus alunos. O trabalho de Adler, feito em escolas públicas do Butão, México e Peru, ao longo de três anos, teve amplo reconhecimento, se transformando inclusive em política pública educacional nesses países e tendo levado o pesquisador a atuar também como um dos membros do Comitê Internacional de Bem-Estar da ONU (Organização das Nações Unidas).

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Professora explica técnica de mindfulness a seus alunos na Educação Infantil   Crédito: Mindfulness.org

Com base na teoria de Martin Seligman, Adler desenvolveu um programa intensivo de 10 dias para o treinamento de professores com foco na promoção de bem-estar e na Educação Positiva, linha de pensamento baseada nos princípios da Psicologia Positiva. Tal modelo educacional, paralelamente ao aprendizado de conteúdos acadêmicos, enfatiza o uso das forças de caráter individuais, no trabalho das emoções positivas, e na motivação individual para reforçar o aprendizado. Somado a esses princípios, o cultivo e o aprendizado de práticas de bem-estar para alunos, professores e funcionários fazem parte de maneira intrínseca e instrumental do treinamento para, posteriormente, serem aplicadas no cotidiano escolar. Como exemplo, o currículo desenvolvido juntamente com o Ministério da Educação do Butão, país conhecido por medir o índice de Felicidade de sua população, incluiu dez habilidades “não-acadêmicas” no projeto pedagógico das escolas públicas. São elas:

  1. Mindfulness: prática de meditação cujo foco é a consciência dos próprios pensamentos, das emoções e do entorno;
  2. Empatia: ser capaz de identificar o que outras pessoas estão pensando ou sentindo;
  3. Autoconhecimento: saber reconhecer as próprias virtudes, limitações e objetivos;
  4. Manejo das emoções: identificar, compreender e ser capaz de manejar as próprias emoções;
  5. Comunicação: se comunicar de maneira ativa e construtiva;
  6. Relacionamento interpessoal:  desenvolver relacionamentos saudáveis com colegas e familiares;
  7. Pensamento criativo: desenvolver ideias inovadoras e aplicáveis;
  8. Pensamento crítico: contextualizar, aplicar, analisar, sintetizar e avaliar as informações disponíveis para estruturar as próprias crenças e ações;
  9. Tomada de decisão: escolher as melhores opções dentre as disponíveis;
  10. Resolução de problemas: acessar de maneira efetiva o que está disponível no ambiente para resolver questões práticas e teóricas.

Tais habilidades foram ensinadas aos professores ao longo do treinamento para que fossem incluídas nas disciplinas regulares ou ensinadas nas aulas do curso Treinamento de Habilidades para a Vida –  incluído na grade escolar.

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O principal aprendizado que o pesquisador enfatiza é que práticas de bem-estar na escola devem ser incluídas na cultura escolar e propor mudanças pedagógicas, respeitando os princípios de cada instituição e os valores que guiam suas práticas. Incluir essas práticas no Projeto Pedagógico, como demonstram resultados de pesquisas consistentes, melhora não só os resultados acadêmicos, mas também os índices de bem-estar e as habilidades socioemocionais de professores, funcionários e alunos.

 

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha como consultora de projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Mental da Nova Escola.

 

Referências Bibliográficas          

Adler, Alejandro (2016). Teaching Well-Being increases Academic Performance: Evidence From Bhutan, Mexico, and Peru. Publicly Accessible Penn Dissertations. 1572. http://repository.upenn.edu/edissertations/1572

Birmaher, B., Ryan, N. D., Williamson, D. E., Brent, D. A., Kaufman, J., Dahl, R. E., & Nelson, B. (1996). Childhood and adolescent depression: a review of the past 10 years. Part I. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 35(11), 1427-1439.

McLeod, J. D., & Fettes, D. L. (2007). Trajectories of failure: The educational careers of children with mental health problems. American Journal of Sociology, 113, 653-701.

Nidich, S., Mjasiri, S., Nidich, R., Rainforth, M., Grant, J., Valosek, L., … & Zigler, R. (2011). Academic achievement and transcendental meditation: A study with at- risk urban middle school students. Education, 131, 556-564.

Seligman, M. E. P., Ernst, R. M., Gillham, J., Reivich, K., & Linkins, M. (2009) Positive education: Positive psychology and classroom interventions. Oxford Review of Education, 35, 293–311.

Steinberg, L. (2014). Age of Opportunity: Lessons from the New Science of Adolescence. Houghton Mifflin Harcourt.

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