Indisciplina: "A meninada nunca para quieta!"

Docentes contam como lidam com pequenos desrespeitos que tiram qualquer um do sério

POR:
Paula Peres, Elisa Meirelles, NOVA ESCOLA
Raul Alves de Souza, professor da EMEB Maria Mercedes de Araújo, em Itatiba, SP. Foto: Manuela Novais. Ilustração: Olavo Costa
"Fiz um projeto de futebol em que a turma vivenciou a importância das regras e reviu os combinados de sala. Depois disso, as agressões verbais diminuíram bastante e todos aprenderam a esperar a vez de falar."
Raul Alves de Souza, professor da EMEB Maria Mercedes de Araújo, em Itatiba, SP

Andar pela sala, conversar enquanto o professor explica, usar celular em momentos indevidos, gritar e ser grosseiro com os colegas são exemplos de pequenas atitudes que atrapalham, e muito, a aprendizagem. Certamente, você já se deparou com esses problemas em classe. De acordo com a Pesquisa Internacional de Ensino e Aprendizagem (Talis) 2013, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os professores brasileiros passam 20% do tempo de aula lidando com a bagunça dos alunos, enquanto a média internacional é de 13%.

Mas o que fazer para melhorar o convívio em sala? Não há uma receita única, mas algumas práticas merecem atenção. Conflitos são importantes para o desenvolvimento da turma, sendo uma oportunidade para trabalhar regras e valores. Eles não devem ser remediados, mas discutidos.

Os problemas que ocorrem na escola podem ser divididos em dois grandes grupos: as manifestações perturbadoras e as de caráter violento. Os exemplos citados no começo deste texto fazem parte do primeiro, e são chamados de incivilidades, termo usado para nomear pequenos conflitos que desrespeitam as normas de boa convivência.

Adriana Ramos, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que as intervenções para lidar com as incivilidades têm de fazer parte do planejamento de gestores e docentes. "É preciso criar um ambiente cooperativo e amistoso", orienta.

Raul Alves de Souza, professor de Educação Física da EMEB Maria Mercedes de Araújo, em Itatiba, a 88 quilômetros de São Paulo, incluiu o tema nas aulas do 6º ano e obteve bons resultados. Os alunos estavam juntos desde o 1º, e a sala era conhecida por desrespeitar regras e conversar bastante. "Eles falavam muito durante as aulas, todos ao mesmo tempo, e com frequência gritavam palavrões uns com os outros."

Souza aproveitou que a turma gostava de futebol e organizou uma sequência didática sobre a história e o regulamento do esporte. "No início, deixei que jogassem sem nenhuma regra. Eles tiveram muita dificuldade e as partidas ficaram violentas." Ao longo das aulas, a turma foi convidada a acrescentar diretrizes que julgasse válidas. Souza conversou sobre o valor desses combinados dentro e fora do jogo. Propôs, então, que fizessem uma revisão das regras de sala. A turma pegou a lista acordada no início do ano e avaliou quais faziam sentido, as que deveriam ser incluídas e aquelas que não eram mais necessárias.

De acordo com Adriana, revisitar o regulamento é uma intervenção importante para mantê-lo válido e para minimizar as incivilidades. "Muitas escolas criam as regras na primeira semana de aulas e não voltam a elas. Isso não é suficiente para que sejam cumpridas", explica.

Na escola de Souza, os novos combinados passaram a valer primeiro nas aulas de Educação Física. Com o diálogo entre os professores, foram sendo incorporados por todos. Para Telma Vinha, docente da Unicamp e colunista de NOVA ESCOLA, essa conversa entre as disciplinas é também um ponto essencial. "Quando cada educador lida de um jeito com os problemas, uma imagem de incoerência é passada para os alunos."

Conflitos inesperados acontecem

Elenice Rodrigues Souza e Silva, professora da Escola Projeto Vida, em São Paulo. Foto: Manuela Novais. Ilustração: Olavo Costa
"Vi um aluno falando ao celular em sala, fiquei muito brava 
e comecei a discutir na frente da turma. Depois, percebi 
que a atitude foi errada. Conversamos, entendi as razões 
dele e buscamos uma solução."
Elenice Rodrigues Souza e Silva, professora da Escola 
Projeto Vida, em São Paulo

Mesmo fazendo ações preventivas, no entanto, conflitos surgem. Elenice Rodrigues Souza e Silva dava aulas de Língua Portuguesa para turmas de 9º ano da Escola Projeto Vida, em São Paulo, quando passou por duas situações emblemáticas.

A primeira está relacionada à utilização de celulares em classe. Depois de muitas tentativas de acordo com os alunos, a direção optou por proibir o uso dos aparelhos. Alguns estudantes passaram a brincar com a regra, fingindo que estavam ligando para que os professores dessem broncas. Um dia, Elenice pensou que um garoto estava simulando estar ao telefone. "Achei que fosse só uma provocação. Quando percebi que ele realmente estava falando, fiquei muito brava e ordenei que desligasse." O menino enfrentou a professora e disse que não faria isso. Os dois protagonizaram uma intensa discussão, com ameaças de advertência e gritos. "Ficou uma situação muito ruim. A sala dividida: alguns queriam que eu exercesse minha autoridade, outros defendiam o colega."

Quando os ânimos se acalmaram, a docente percebeu que a reação não tinha sido boa e procurou resolver a questão. "Conversamos em particular e falei quanto tinha sido ruim a situação para nós dois." Ele, então, explicou que atendeu porque era uma ligação da mãe dando instruções de como voltar para casa. Combinamos que a coordenação conversaria com a família para esclarecer as regras sobre o uso do telefone.

Telma indica que, se o problema é com um único aluno, deve ser resolvido individualmente, questionando-o sobre o que podem fazer de diferente da próxima vez. "Caso envolva mais de um estudante, vale elaborar com a turma um código de boa convivência", sugere. A história de fingir que está no celular para irritar a professora, por exemplo, poderia ser parte dessa conversa.

A experiência ajudou Elenice a avaliar sua prática. Em um novo conflito, ocorrido no outro 9º ano em que lecionava, ela reagiu de uma maneira que considerou melhor. Havia na sala um jovem com características antissociais, que ficava isolado. A moçada olhava o garoto com estranhamento, havia embates e os docentes sempre intervinham em prol dele. "Isso irritava a turma, que via nele um privilegiado", diz.

Um dia, o clima ficou muito ruim e Elenice decidiu prestar atenção no que os alunos diziam. Ela descobriu, então, que todos estavam revoltados com uma atitude que o jovem repetia com frequência. Ele era alto, míope e sentava na primeira carteira. Sempre que o incomodavam, arrumava a postura para atrapalhar a visão dos demais e impedir que enxergassem o quadro.

A docente resolveu fazer uma roda de conversa para que todos pudessem falar. A turma reclamou da atitude e o garoto se colocou pela primeira vez, dizendo que se entristecia com os olhares que recebia. A classe fez alguns acordos, Elenice ampliou as intervenções, passando a trabalhar filmes e livros sobre o respeito às individualidades, e a convivência melhorou. Ouvir os estudantes e buscar entender os conflitos é essencial. "Eles têm de perceber que alguém presta atenção aos seus incômodos", explica Telma.

Tags

Guias

Tags

Guias