Inclusão plugada

Computadores e outros equipamentos apoiam o aprendizado dos alunos com deficiência

POR:
Elisa Meirelles, NOVA ESCOLA, Fernanda Salla
Rafael, seu amigo Pablo e o teclado virtual que colabora com sua comunicação. Fotos: Danny Yin
Rafael (à dir.), seu amigo Pablo e o teclado virtual que colabora com sua comunicação (abaixo): sempre com o computador, ele expressa suas ideias

No momento em que Pablo da Silva Soares, 11 anos, conheceu Rafael Lima da Silva, 13, em 2010, os dois estavam no 4º ano da EMEF José Mariano Beck, em Porto Alegre. Rafa, como é chamado, tem limitações em grau severo em decorrência da paralisia cerebral. Ele é cadeirante, movimenta os braços com dificuldade e, naquela ocasião, se comunicava apontando desenhos e letras em uma prancha. Pablo notou os aparatos, sentou ao lado dele e simplesmente perguntou: "Como você faz para falar?" Desde então, se tornaram melhores amigos.

Pouco depois do encontro, Rafael se beneficiou de novas tecnologias que chegaram à escola para facilitar o diálogo com colegas como Pablo e com os professores. Ele passou a usar um teclado virtual. Com um mouse adaptado, seleciona as letras na tela e escreve direto no laptop, que carrega para todos os lados. O programa tem um comando que, quando acionado, reproduz em som o que está escrito no monitor. "Com isso, Rafa pode, por exemplo, perguntar suas dúvidas. O mecanismo também permite que ele ouça o que foi escrito e aprimore a ortografia", conta Magali Dias de Souza, responsável pela Sala de Integração e Recurso (SIR) da escola, que introduziu o trabalho com esse material.

"O recurso o tirou da zona de conforto e ele passou a ter condições de fazer anotações e outras atividades sozinho", complementa Luciana Chaves Kroth Tadewald, ex-professora dele, que teve a ideia de usar o laptop em sala. Em parceria com Magali, ela chegou à estratégia atual, que Rafael levou para a escola nova, onde frequenta o 5º ano.

Equipamentos como os dele compõem a tecnologia assistiva (conheça mais sobre esse tema no quadro abaixo). O termo engloba qualquer recurso - digital ou não - que vise aumentar as capacidades funcionais de pessoas com deficiência. São apoios que podem colaborar com os 58.423 alunos com necessidades educacionais especiais (NEE) que, segundo o Censo Escolar 2011, estão em salas regulares no país.

Olhar cuidadoso
Diversidade é grande e professor pode buscar a ferramenta ideal até nos computadores regulares

A tecnologia asssistiva tem recebido atenção no Brasil. O governo federal promete investir 150 milhões de reais até 2014 em projetos na área. Em julho, foi inaugurado o Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva (CNRTA), em Campinas, a 96 quilômetros de São Paulo, voltado para o desenvolvimento de equipamentos. E o Ministério da Educação (MEC) já montou 37.801 salas de recursos multifuncionais em escolas públicas.

"Há diversas tecnologias que colaboram com os alunos com NEE, mas não existe um tipo de aparelho predefinido por deficiência", alerta Rodrigo Mendes, presidente do instituto que leva seu nome. Há, por exemplo, crianças com deficiência intelectual que se beneficiam de leitores de voz, muito usados por pessoas cegas.

Parece complicado, mas a solução pode estar bem na tela à sua frente. Em qualquer computador, é possível encontrar softwares com comandos de acessibilidade, como o teclado virtual e a lente de aumento. E uma ferramenta simples como um site de histórias em quadrinhos pode colaborar para aperfeiçoar a leitura e a escrita de estudantes surdos, por exemplo.

O atendimento deve evoluir

Adriana e Lucas: ele não se sentia parte do aprendizado, mas com o notebook passou a registrar os conteúdos. Foto: Danny Yin
Adriana e Lucas: ele não se sentia parte do aprendizado, mas com o notebook passou a registrar os conteúdos

"Os aparatos eletrônicos surgem para superar problemas que até pouco tempo atrás pareciam insuperáveis", avalia Rita Bersch, diretora da Assistiva Tecnologia e Educação, de Porto Alegre. E, mesmo após chegar a um modelo de atendimento que parece ideal, deve-se revê-lo sempre, pois as necessidades dos alunos podem mudar. "Os recursos usados no início da escolaridade são diferentes daqueles dos anos finais", exemplifica Elisa Tomoe Moriya Schlünzen, da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), campus de Presidente Prudente.

A evolução da própria criança ou de sua condição também requer novas estratégias. A docente Adriana Veríssimo Pereira Brandão, da EM José Miranda Sobrinho, em Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, viveu isso em sua prática. Em 2010, passou a atender Lucas Gonçalves, 13 anos, que já havia sido seu aluno na classe regular. O garoto tem distonia muscular progressiva generalizada. "Desde o 3º ano, ele apresentava problemas para registrar os conteúdos e atualmente não consegue mais escrever com o lápis e a caneta", explica a docente.

Diante da nova dificuldade, Adriana pesquisou outros mecanismos e concluiu que um notebook seria a melhor opção. Antes, um estagiário escrevia por Lucas. "Eu não fazia nada na aula. Era muito ruim ficar parado. Agora eu mesmo copio no computador, imprimo e colo no caderno", comemora o estudante. Ele vai para o Ensino Médio em 2013 e mudará de escola. Sua doença é progressiva, mas é impossível prever o que será afetado. Por isso, os novos professores precisarão acompanhá-lo de perto e fazer as adequações à medida que elas forem necessárias.

Recursos não garantem a inclusão

Kevin com a lupa em formato de mouse: ao passar o instrumento pelo texto, as letras aparecem ampliadas na tela. Isso facilita a leitura do menino, que possui deficiência visual. Foto: Danny Yin
Kevin com a lupa em formato de mouse: ao passar o instrumento pelo texto, as letras aparecem ampliadas na tela. Isso facilita a leitura do menino, que possui deficiência visual

Outro fator que impacta a contribuição da tecnologia para o desenvolvimento de um estudante é o desempenho, em conjunto, dos vários profissionais que o atendem. "Não cabe ao docente da sala de recursos ensinar conteúdos. Ele deve dar o suporte necessário para que os conhecimentos sejam desenvolvidos dentro da sala de aula regular", afirma Rita. O professor da turma, por sua vez, tem mais condições de identificar as necessidades ligadas às atividades propostas. Além disso, é preciso dialogar sempre com os profissionais de saúde que acompanham o caso, como faz Suy Miranda Mendes, professora da sala de recursos da EM Bento Machado Ribeiro, também em Betim. Ela atende Kevin Vitor Neri Nunes, 12 anos, aluno do 7º ano que tem apenas a visão periférica de um dos olhos. "Estamos sempre em contato com os médicos para saber como está a evolução e o que pode ser feito", conta. Kevin usa uma lupa eletrônica, semelhante a um mouse. Ele passa o aparelho sobre o texto, que é ampliado na tela de um monitor. Em outros momentos, escuta os textos com o fone acoplado ao notebook, que tem leitor de voz.

De certa forma, os educadores apresentados nessas páginas fizeram algo tão simples quanto a abordagem de Pablo com Rafa: eles olharam para seus alunos. Depois, identificaram a barreira a ser superada e se uniram a outros profissionais para buscar soluções. A tecnologia apoiou para que esse esforço surtisse efeito. Em termos de conteúdo, Rafael só tem uma pequena defasagem por causa de problemas de saúde, que o mantiveram afastado da escola, e Lucas e Kevin têm dificuldades comuns aos colegas de turma.

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