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Por que as crianças fazem tantas perguntas (e como lidar com elas)?

Fazer perguntas demonstra curiosidade com o mundo e inteligência, que merecem uma resposta à altura

POR:
Nairim Bernardo
Crédito: Getty Images

Quantas perguntas uma criança faz diariamente? Vinte, cinquenta, duzentas? Segundo um estudo liderado por pesquisadores britânicos com crianças de dois a 10 anos de idade, uma criança faz, em média, 73 perguntas por dia. Se há espaço para discutir esse número, a segunda conclusão não encontra argumentos: mães são as mais questionadas, seguidas por professoras. As crianças não esperam aprender apenas o que os adultos à sua volta estão dispostos a ensinar; elas fazem perguntas e investigam à sua maneira. O que faz uma enorme diferença nesse processo é o modo como os adultos veem essa criança e lidam com seus questionamentos.

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O psicólogo e pesquisador Jean Piaget, um dos maiores estudiosos sobre como as crianças pensam, dividiu o desenvolvimento humano em quatro etapas, sendo as primeiras o período sensório-motor e a segunda o período pré-operatório. O primeiro vai do nascimento aos dois anos e é nesse momento que os bebês percebem o mundo e interagem com ele através de coordenação motora primária. A capacidade de abstração e representação ainda não está desenvolvida, ou seja, é preciso um contato direto com o objeto para saber que ele existe.

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“Até antes de começar a falar, as crianças demonstram um interesse muito grande em tudo o que está ao redor delas e querem compreender como o mundo funciona”, explica Silvia Helena Vieira Cruz, doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará. Segundo ela, mesmo as crianças muito pequenas “fazem perguntas” sem necessariamente usar a linguagem verbal. “Quando um bebê que não tem nem um ano balança um objeto, ouve o som, balança outro e ouve novamente e passa aos próximos objetos, ele está perguntando se todos os objetos têm som”, diz.  

Causa e consequência

No período pré-operatório, a partir dos dois anos, a criança começa a fazer perguntas usando o conhecimento da fala. Inicia-se o desenvolvimento de noções de causalidade e consequência, por exemplo. Então, a criança empregará essas percepções na construção das perguntas: “por que?” e “como?”. “A linguagem é uma nova ferramenta de exploração, e as crianças vão usá-la para auxiliar na exploração desse mundo. A linguagem verbal passa a fazer parte do pensamento da criança, e com isso ela começa a agir e a pensar de uma outra forma”, afirma Marisa Ferreira, coordenadora e docente na pós-graduação Gestão Pedagógica e Formação em Educação Infantil e coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Educação Infantil do Instituto Vera Cruz. Nessa fase também é comum o que Piaget chamou de egocentrismo, ou seja, os pensamentos e perguntas são feitos tendo a si mesmo como ponto de referência, no caso, a referência é a própria criança.

Durante o desenvolvimento infantil, o professor irá observar que cada um de seus alunos está em um processo de conhecimento particular: de si, do outro, das situações. E são justamente essas novas descobertas e a vontade e necessidade de descobrir e entender mais sobre tudo aquilo que estão vivendo que gera tantas perguntas. Segundo Marisa, os adultos precisam entender que a criança não vive em um mundo apartado do seu. “As perguntas não brotam do nada, elas são contextualizadas com as vivências. Então, precisamos pensar sobre o mundo que estamos construindo e apresentando para as crianças”, diz.

Nesse sentido, a escola pode orientar os pais e responsáveis no controle do tipo de programas de TV, filmes, jogos online ou plataformas são acessadas pela criança. Ao ter contato com conteúdos violentos, sexuais ou que incentivem o consumo, por exemplo, é inevitável que a criança faça perguntas, pois mesmo que ela ainda não consiga compreender aquela situação em toda a sua complexidade, também é atravessada de algum modo por ela. Mesmo os canais dedicados ao público infantil devem receber a atenção dos pais.

Perguntas mais interessantes

O professor, por seu lado, tem o papel de enriquecer o repertório da sua turma com conteúdo de qualidade e propostas instigantes. Quanto mais interessantes forem as propostas do professor, mais interessantes serão as perguntas que receberá das crianças. Para que isso aconteça, os educadores precisam primeiro enriquecer seu repertório pessoal e, assim como os pequenos, se portar como um “investigador do mundo”. Como a Educação é uma relação entre pessoas e relações são vias de mão dupla, a criança também trará para a sala de aula assuntos e situações que vive fora do espaço escolar. “Quanto mais a equipe investir em formações de contexto, que se preocupem em conhecer a comunidade escolar, poderá entender mais a fundo quem são seus alunos. Assim, os docentes estarão em melhores condições para mediar a ‘chuva de perguntas’”, aponta Marisa. Prestar atenção a essas questões das crianças permitirá não apenas conhecer os pequenos mais de perto, mas também trará possibilidades de diálogo e atividades que promovam engajamento. “A partir das perguntas podemos construir um currículo de Educação Infantil realmente conectado à realidade daquelas crianças”, diz a coordenadora.

Mas e quando o professor se vê diante de uma pergunta como “O que é a morte?” ou “De onde eu vim?”. O educador deve estar atento e até mesmo fazer perguntas para entender o que exatamente a criança quer saber. “Eu acho que há temas realmente delicados, mas na maioria das vezes são menos [delicados] do que os professores supõem. Às vezes, a criança só quer saber se veio da barriga da mãe ou do repolho, como ouviu alguém contar. Uma resposta simples basta, não precisa entrar em questões de reprodução humana”, explica a doutora Silvia. E complementa: “Precisamos lembrar que crianças pequenas não têm a capacidade de abstração e generalização muito grande. Então, é melhor a gente falar a partir do que ela conhece do que fazer grandes generalizações. Por exemplo, falar sobre Sistema Solar ou mesmo estações do ano é muito complicado porque exige um grande nível de abstração”.

Ela diz ainda que por mais que seja difícil para o professor, devido a pergunta ser inusitada ou muito difícil, deixar de responder pode ter péssimas consequências. “O ato de perguntar demonstra inteligência, atenção ao mundo e uma postura ativa no processo de apropriação do mundo em que se vive. Se a resposta é negada, estamos dizendo que essa postura não é interessante e que perguntas não são importantes. Caso o adulto não saiba a resposta, deve admitir e dizer que irá pesquisar ou mesmo sugerir que busquem juntos, o que também é muito formativo para as crianças. Vamos ensinar que é bom ser curioso e que isso leva a descobertas”. Diante das respostas encontradas, o adulto deve “traduzi-las” de modo que os pequenos possam compreender.

Outro ponto de atenção é ser cuidadoso com todos da turma para observar se alguém está passando por um momento mais quieto e isolado. O professor precisa, sem ser invasivo demais, conversar com aquela criança para entender o que está acontecendo e integrá-la aos colegas. “Os adultos que organizam o ambiente de Educação Infantil devem cuidar para que todos sintam-se a vontade e acolhidas para fazer seus questionamentos e investigações. Ou seja, promover efetivamente o que a Base Nacional Comum Curricular coloca como os Direitos de Aprendizagem: conviver,participar, explorar, expressar, conhecer-se e brincar”, completa a formadora Marisa. Se por outro lado, a criança apresentar uma mudança brusca de comportamento, mostrando-se retraída, aí vale conversar coms os pais ou responsáveis e se ainda assim os sinais persistirem, conversar com a coordenação e até com a direção para decidir que atitudes podem ser tomadas.