Inclusão: o espaço dos auxiliares

Com vários formatos de trabalho, eles são fundamentais para muitos alunos com NEE

POR:
Camila Camilo

Para que a inclusão realmente aconteça, é importante garantir diversos recursos: a parceria entre o atendimento educacional especializado (AEE) e os docentes, o amparo das famílias e o investimento em acessibilidade. Em alguns casos, no entanto, é preciso um elemento a mais: o auxiliar. Trata-se de um profissional que acompanha o aluno diariamente, contribuindo na compreensão de suas características e eliminando barreiras que o impedem de se inserir na vida escolar. Assim, ele complementa o trabalho do educador responsável pela turma e o do AEE.

Nem todos que têm necessidades educacionais especiais (NEE) precisam de um auxiliar. Ele entra em cena quando há algum impedimento à inclusão. Em certos casos, a criança necessita alguém que a acompanhe em classe, flexibilizando as aulas. Em outros, requer ajuda em questões motoras, com exercícios específicos e adaptações para a escrita. Há ainda alunos que só conseguem frequentar a escola se têm apoio para locomoção, higiene e alimentação, e demandam uma pessoa capacitada para fazer esse atendimento da forma correta, evitando lesões e constrangimentos.

Para cada uma dessas situações, há um profissional que melhor atende às necessidades dos alunos - podendo ser um professor auxiliar, um especialista em inclusão, um estagiário de Pedagogia ou Psicologia, ou alguém da área de Saúde (leia os depoimentos nas próximas páginas).

As especificidades, no entanto, não estão claras na legislação sobre o tema - que é escassa. Rogério Diniz Junqueira, pesquisador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), explica que "não existem leis que indiquem a formação mínima ou as responsabilidades do auxiliar". Cada governo define se e em que circunstâncias o trabalhador será solicitado.

Em geral, as regras locais têm como orientação a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que afirma no artigo 58 que "haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de Educação Especial", sem citar como isso deve ser organizado.

Além da falta de leis nacionais claras, há um desconhecimento das regras locais por parte das escolas. "Nem todas as Secretarias possuem regulamentação ou serviço de apoio. Mesmo nos casos em que ele existe, só algumas instituições são beneficiadas porque muitos gestores não sabem como procurar ajuda ou requisitar alguém", afirma Daniela Alonso, psicopedagoga, consultora de projetos educacionais e especialista em inclusão.

Outro impedimento à contratação de auxiliares é a formação. É difícil encontrar pessoas capacitadas para atuar com várias deficiências, cada uma delas com manifestações próprias. Mesmo em cursos de pós-graduação ou extensão, há dúvidas sobre como qualificar para uma função tão ampla. É comum o auxiliar realizar cursos com foco em deficiência visual, por exemplo, e ser encaminhado para atender um estudante com deficiência intelectual ou múltipla.

Organizar a escola e atuar em parceria

Para lidar com um quadro tão complexo, é essencial que a escola forme uma rede de apoio. O primeiro passo é conhecer bem os alunos com NEE. As características deles vão ditar quais e quantos profissionais devem ser contratados. "Eles precisam ter um perfil de educador e têm de se esforçar para entender quais intervenções devem ser feitas e em que momento", ressalta a educadora Maria da Paz Gunga Castro, especialista em inclusão da Escola da Vila, em São Paulo.

O passo seguinte é identificar o que a Secretaria de Educação pode oferecer e checar a possibilidade de firmar parcerias com outras instituições, como as de Saúde e Assistência Social, que estão aptas a prestar serviços às escolas.

Contratado o auxiliar, é preciso incluí-lo na rotina escolar e garantir que ele participe das reuniões pedagógicas. Em contato com o restante da equipe, ele consegue ter um olhar geral sobre o trabalho pedagógico, o que ajuda quando está em sala de aula com o aluno. Ao mesmo tempo, ele compartilha com a equipe informações sobre o desenvolvimento da criança que acompanha. Muitas vezes, é nesse momento que os educadores conhecem melhor os estudantes com NEE.

A presença do auxiliar nas reuniões contribui também para evitar o isolamento dele em relação ao restante do grupo. O ideal é que esse profissional conte com o apoio dos colegas - em especial, do responsável pelo AEE - para formular as atividades e encontrar soluções eficientes para que cada aluno seja incluído e aprenda.

Por fim, é preciso ter claras as regras que pautam a relação entre auxiliar e aluno. Ele deve garantir condições para que a criança frequente as aulas e aprenda, mas tem de ajudá-la a desenvolver autonomia. "Esse profissional precisa se colocar à disposição do estudante para gerar segurança, mas é preciso distinguir quando ajudá-lo e quando deixar que tente fazer as atividades por si mesmo", explica Maria da Paz. A preocupação se torna ainda mais importante ao notar que, normalmente, as crianças estão habituadas a um cuidado intensivo em casa.

Outro aspecto importante é não ignorar o aluno. Às vezes, o auxiliar responde perguntas pela criança ou fala sobre ela, como se não estivesse presente. "O estudante precisa receber ajuda, mas sem dependência", diz a especialista.

É possível que, no meio do caminho, o profissional se depare com uma situação inesperada ou tenha de lidar com uma deficiência que desconhece. Nesse casos, ele deve buscar apoio na gestão escolar e procurar formação adequada.

Saúde e cuidado 

O espaço dos auxiliares. Patrícia Stavis
Guilherme e Adriana

Na EMEF Maria Lúcia dos Santos, em São Paulo, a coordenadora pedagógica, Mariza Beranger, solicitou o apoio da Secretaria de Educação para que os estudantes cadeirantes e com mobilidade reduzida tivessem ajuda para alimentação, higiene e locomoção. Foi quando Adriana Nascimento de Jesus chegou à escola. "Recebi formação da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, ligada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), para ocupar o cargo de auxiliar de vida escolar, profissional que acompanha os alunos", conta.

Adriana fica à disposição de quatro crianças no período da manhã. Ela transfere para a cadeira de rodas as que precisam, evitando lesões, orienta aquelas que têm dificuldades de mastigação e deglutição, e contribui com a higiene e os primeiros socorros.

A auxiliar participa das reuniões pedagógicas e compartilha o que sabe com a equipe. "Notei que o Guilherme Cândido, aluno do 3º ano com encefalopatia, quando quer negar algo, primeiro balança a cabeça de baixo para cima e, depois, da esquerda para a direita." Essa descoberta ajudou a melhorar a comunicação com o garoto.

Em busca da autonomia 

O espaço dos auxiliares. Lucas Tavares
Mariana e Carlos

Carlos Emanoel dos Santos, aluno do 2º ano, aprendeu a ler e escrever em braile na EM Professor Antônio Amaro, em Cataguases, a 304 quilômetros de Belo Horizonte. Ele conta com o auxílio da professora de apoio permanente Mariana Virginia de Resende, que, quando soube que atenderia um cego, buscou cursos de capacitação oferecidos pelo Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro.

Para garantir o aprendizado do estudante, a docente aposta no trabalho colaborativo. "Participo de todas as reuniões e mostro aos professores como planejar é importante. Eles me passam os textos de aula com antecedência para eu transcrevê -los em braile. Assim, o Carlos pode ler tudo junto com a turma", conta.

A atuação de Mariana se estende também para fora da classe. Ela colocou fitas com alto-relevo nas paredes da escola, na altura das mãos do garoto, e placas em braile mostrando onde está o banheiro, a biblioteca e outros lugares. "Além de dar a ele maior independência, nos preocupamos em fazer com que consiga se localizar e se sinta à vontade para circular pelos ambientes, como os demais."

Escola em sintonia

O espaço dos auxiliares. Marcelo Almeida
Letícia (à frente) e Carla

Carla Adriana Rodrigues lecionava para turmas de 1º ano da EM Professora Adelaide Thomé Chamma, em Ponta Grossa, a 119 quilômetros de Curitiba, quando foi convidada a assumir o cargo de professora de atendimento específico, nome dado na rede ao profissional que acompanha crianças com NEE na sala de aula. Ela aceitou o desafio e foi trabalhar com Letícia Louise, aluna que tem epilepsia não controlável, doença que compromete as habilidades motoras.

Atualmente, a docente está focada em adaptar atividades de alfabetização para a menina. "Letícia trabalha o mesmo tema que o resto da turma, mas realiza exercícios específicos, criados de acordo com suas potencialidades", explica.

Nem sempre as duas estão juntas. Na ausência da docente, a menina conta com o apoio dos outros estudantes. "Eu e a professora da turma orientamos o grupo para que soubesse como ajudar a colega caso ela tenha uma crise e nenhum adulto esteja por perto."

Para aprender cada vez mais, Carla recorre à rede. "A Secretaria realiza reuniões mensais e um seminário anual para que todos que trabalham com inclusão na cidade dividam experiências."

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