MEC: relembre as polêmicas e disputas de Ricardo Vélez Rodríguez

Declarações polêmicas, reações negativas, exonerações e memes: veja como foi a passagem de Ricardo Vélez pelo MEC

POR:
Camila Cecílio
O então ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez: polêmicas e desautorizações marcaram gestão tumultuada à frente do MEC  Crédito: Luis Fortes/MEC

Menos de 100 dias. Esse foi o tempo em que Ricardo Vélez Rodríguez esteve à frente do Ministério da Educação. Colombiano naturalizado brasileiro, o professor-emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) foi indicado por Olavo de Carvalho, ideólogo com influência junto ao governo de Jair Bolsonaro, para assumir a pasta.

A passagem relâmpago de Vélez pelo MEC, no entanto, foi marcada por declarações polêmicas, reações negativas na mídia e nas redes sociais e uma grande dança das cadeiras, com 18 exonerações em apenas um mês.

 

JANEIRO

02/01 –  Posse e primeira onda de críticas
A passagem de Ricardo Vélez Rodríguez pelo Ministério da Educação começa, oficialmente, com a cerimônia de posse do ministro e seu secretariado. No mesmo dia, um aviso de alteração no edital do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) para 2020 causou a primeira onda de reações contra as ações do MEC. Com as novas regras, os livros didáticos para o Ensino Fundamental 2 não seriam mais obrigados a mencionar temas como o combate à violência contra a mulher e a valorização dos povos quilombolas, e poderiam inclusive conter erros de impressão e ortografia.

09/01 – Repercussão negativa faz MEC cancelar mudanças
A repercussão negativa ganhou força no dia 09 de janeiro, exatamente uma semana após a divulgação das novas regras. Com a hashtag #livrodidatico, o assunto ficou entre os mais comentados do Brasil. A onda de críticas fez o MEC divulgar uma nota por meio de sua assessoria dizendo que não se responsabilizava pela publicação do aviso de alteração e investigaria quem produziu e autorizou a medida, jogando a responsabilidade para a gestão anterior.

11/01 – Vélez exonera chefe de gabinete do FNDE
Os efeitos das críticas envolvendo o edital do PNLD 2020 levaram o ministro a demitir Rogério Fernando Lot, então chefe de gabinete do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação (FNDE).  Essa foi a primeira das tantas exonerações que marcaram a passagem de Vélez pelo MEC.

18/01 – Vélez ignora vencedor da eleição para direção do Ines
Ricardo Vélez ignorou a escolha de professores, funcionários e alunos do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) e nomeou Paulo André Martins de Bulhões, o segundo colocado eleição interna, como diretor-geral da instituição. Foi a primeira vez que o vencedor da eleição no Ines não é o nome escolhido pelo ministro da Educação.

28/01 – Vélez declara que "ideia de universidade para todos não existe"
"As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]”, defendeu Vélez em sua primeira entrevista após ter assumido o Ministério da Educação, ao jornal Valor Econômico. O ministro também declarou que “ideia de universidade para todos não existe”, o que repercutiu negativamente.

30/01 – Nota do MEC vira memes nas redes sociais
Um dia após a polêmica sobre a retirada de vídeos de pensadores considerados esquerdistas do canal do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), Ricardo Vélez Rodríguez negou, em suas redes sociais, que tenha autorizado a exclusão do conteúdo. Em nota, o MEC anuncia sindicância para apurar o caso e acusa o jornalista Anselmo Gois, autor do texto que denunciava a retirada dos vídeos, de ser treinado pela KGB. A reação do ministério virou piada nas redes sociais.

30/01 – Vélez pondera declaração dada sobre acesso à universidade
O ministro publicou um vídeo em sua conta no Twitter em que conta “a verdade” sobre a declaração de que defenderia a universidade somente para uma elite. “Nas entrevistas que faço, algumas pessoas me perguntam o que acho de universidade para todos. Do ponto de vista da capacidade, não é para todos, somente para pessoas que têm desejo de estudos superiores e que se habilitam para isso entram na universidade. Não é que eu não defenda a democracia na universidade. A universidade tem que ser democrática. Ou seja, todos aqueles que quiserem entrar estão em plena igualdade para poder competir pelo ingresso na universidade. Então, a coisa melhor para ingressar na faculdade, sabe qual é? Ensino Básico de qualidade, onde todo mundo se forma, todo mundo se habilita e todo mundo pode competir em pé de igualdade. Universidade para todos, nesse sentido vale”, disse no vídeo.

FEVEREIRO

02/02 - Ministro diz que “brasileiro viajando é um canibal”
Dois dias depois de publicar um vídeo em que pondera a declaração sobre acesso à universidade, Vélez se envolveu em mais uma polêmica e provocou reações enfurecidas nas redes sociais. Dessa vez, o ministro comentou sobre o comportamento dos brasileiros em viagem ao exterior. “O brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”, disse o ministro em entrevista publicada pela Veja.

05/02 - Vélez pede desculpas à mãe de Cazuza
Em sua conta no Twitter, o ministro relatou que pediu desculpas formalmente a Lucinha Araújo, mãe de Cazuza. Vélez atribuiu ao cantor e compositor, morto em 1990, a frase “liberdade é passar a mão no guarda”, que, na verdade, é de autoria de humoristas do extinto programa Casseta e Planeta. O pedido de desculpas veio depois de Lucinha assinar carta aberta ao ministro pedindo que se retratasse publicamente, do contrário tomaria providências jurídicas.

18/02 - Ministro grava vídeo e pede desculpas por declarações sobre brasileiros
Ainda sob os efeitos negativos da entrevista à Veja, o ministro publicou um vídeo em que se desculpa por ter chamado o comportamento de brasileiros em viagem ao exterior de “canibal”.  “Amo o Brasil e o nosso povo, de forma incondicional, desde a minha chegada aqui, em 1979 e, especialmente, desde a minha naturalização como brasileiro, em 1997. A entrevista à revista Veja colocou palavras minhas fora de contexto. Peço desculpas a quem tiver se sentido ofendido", disse em seu perfil no Twitter.

25/02 - MEC pede que escolas filmem alunos cantando Hino Nacional
O MEC enviou às escolas uma carta assinada pelo ministro Ricardo Vélez Rodríguez que conclamava as escolas a instituir uma assembleia com todos os alunos e funcionários para cantar o Hino Nacional. O que chamou atenção na carta de quatro linhas é que o ministro dizia que todos deveriam repetir o slogan de campanha de Jair Bolsonaro “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos” e incitava os gestores a filmar o evento, identificar as pessoas e enviar a um endereço eletrônico do ministério. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) deixa claro que não se pode filmar crianças e jovens sem autorização dos pais.  

26/02 - Ministro admite que errou ao mandar carta às escolas  
Com a repercussão negativa da carta na mídia e nas redes sociais, o ministro Ricardo Vélez Rodríguez admitiu ter errado ao pedir que as escolas filmassem os estudantes cantando o Hino Nacional e enviassem ao MEC. A declaração foi feita durante sua participação em audiência pública na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado.

28/02 - MEC envia terceiro comunicado às escolas
MEC enviou um terceiro comunicado às escolas suspendendo o pedido de filmagem dos alunos e envio do material gravado. “Em relação à mensagem anterior do Ministério da Educação (MEC), dirigida aos senhores e senhoras diretores e diretoras de escolas, por questões técnicas de armazenamento e de segurança, o ministro Ricardo Vélez Rodríguez decidiu suspender o pedido de filmagem e de envio dos vídeos por e-mail”, diz o texto.

MARÇO

11/03 - A grande dança das cadeiras
Março foi o mês em que o MEC anunciou uma grande dança das cadeiras. Apenas no dia 11 foram seis exonerações. Sobre o episódio, a assessoria do ministério afirmou em nota que “as movimentações de pessoal e de reorganização administrativa, levadas a efeito nos últimos dias, em nada representam arrefecimento no propósito de combater toda e qualquer forma de corrupção" e que "ademais, envolveram cargos e funções de confiança, de livre provimento e exoneração".

12/03 -  Sete pessoas exoneradas em um dia
Um dia após se tornar alvo de críticas de Olavo de Carvalho e seus seguidores por supostamente “influenciar” Ricardo Vélez Rodríguez a dar um caráter mais técnico à sua gestão, Luiz Antonio Tozi deixou a secretaria-executiva da pasta. Tozi ocupava o segundo cargo mais alto dentro do Ministério da Educação. Em apenas um dia foram sete exonerações. Quatro substitutos foram anunciados.

14/03 - Ricardo Vélez anuncia Iolene Lima como secretária-executiva
Depois de ter anunciado pelo Twitter o nome de Rubens Barreto da Silva para assumir a secretaria-executiva, Ricardo Vélez Rodríguez retornou à rede social para voltar atrás na decisão. Em sua conta, ele afirmou que o cargo de “braço-direito” do ministro seria de Iolene Lima, que era responsável pela direção de formação do MEC desde janeiro.

26/03 - Ministro revoga portaria do Saeb 2019
Após a saída do presidente do Inep e da secretária da Educação Básica, Vélez determinou que as orientações sobre a avaliação externa perdessem seu efeito legal. O texto publicado, entretanto, não trazia qualquer explicação para a nova decisão nem dá novas diretrizes para que a avaliação seja realizada neste ano.

Dia 27/03 - Vélez diz que MEC é “um abacaxi”
Convidado a falar sobre as ações do MEC na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, o ministro Ricardo Vélez Rodríguez deu diversas declarações polêmicas que fizeram com que a hashtag #PabloEscobar chegasse ao trending topic do Twitter no Brasil. Entre as falas, Vélez disse que “comandar o MEC é um abacaxi” e usou a figura do traficante colombiano Pablo Escobar para discutir soluções para diminuir a violência no país.

No mesmo dia, o ministro foi criticado por Marcus Vinicius Rodrigues, demitido da presidência do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Em entrevista ao Globo, ele disse que sua demissão foi injusta e “um ato de incompetência gerencial de um ministro que não tem poder de gestão, não tem controle emocional para dirigir a Educação do Brasil”.

Dia 27/03 - Diretor de avaliação da Educação Básica pede demissão do Inep
O economista e engenheiro Paulo César Teixeira deixou o cargo na Diretoria de Avaliação da Educação Básica (Daeb) em solidariedade ao colega Marcus Vinicius Rodrigues, exonerado um dia antes. A diretoria que ele comandava era responsável por avaliações como o Enem e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).

ABRIL

04/04 - Assessor especial de Vélez e chefe de gabinete são demitidos
A exemplo do que aconteceu em março, o mês de abril começou com mais mudanças no alto escalão do MEC. O assessor especial Bruno Meirelles Garschagen, considerado braço direito do ministro Ricardo Vélez Rodríguez, foi demitido, assim como a chefe de gabinete Josie Priscila Pereira de Jesus.

08/04 - Bolsonaro anuncia saída de Vélez Rodríguez pelo Twitter 
O presidente Jair Bolsonaro publicou post no qual anunciava a exoneração de Ricardo Vélez Rodríguez do MEC e a nomeação do economista Abraham Weintraub para ocupar a vaga na pasta"Comunico a todos a indicação do Professor Abraham Weintraub ao cargo de Ministro da Educação. Abraham é doutor, professor universitário e possui ampla experiência em gestão e o conhecimento necessário para a pasta. Aproveito para agradecer ao Prof. Velez pelos serviços prestados", escreveu no Twitter

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