Anísio Teixeira, o guerreiro da sala de aula

Centenário do nascimento de Anísio Teixeira é boa ocasião para lembrar que as falhas educacionais são velhas conhecidas

POR:
Ricardo Prado
Foto: ITA (Instituto Anísio Teixeira)
Foto: ITA (Instituto Anísio Teixeira)

O quadro negro da educação brasileira poderia ser pior, se não tivéssemos tido um Anísio Teixeira (1900-1971) de olho no que acontecia em nossas escolas. E certamente não seria negro se mais idéias do educador baiano tivessem sido adotadas. Vale a pena examinar algumas. Elas parecem tão atuais que revelam duas constatações, uma sobre Anísio, outra sobre o país.

Sobre ele: pensava longe, e com uma rara alquimia capaz de unir talento administrativo a uma apurada capacidade de análise. "Foi um dos homens mais cultos deste país, mas ao mesmo tempo o menos exibicionista dos homens cultos deste país", declarou sobre ele o filólogo e escritor Antônio Houaiss. De fato, Anísio criava teses na trincheira acadêmica e, melhor, lutava para colocá-las em prática.

Resultado dessa atuação em duas frentes, a do serviço público e da universidade, é que ele teve papel decisivo na obrigatoriedade do ensino, na formação de professores, no fortalecimento de instituições de pesquisa como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (presidiu ambos), além de participar criticamente da elaboração da Lei de Diretrizes e Bases, promulgada em 1961. Mesmo identificando-a como "retrato das perplexidades e contradições do país", ele vibrava com pequenas vitórias, como a possibilidade de os Estados criarem sistemas educativos próprios.

A constatação que o centenário de seu nascimento suscita sobre o país é que faltou vontade política para reverter um sistema educacional que nasceu voltado para as elites econômicas. Anísio dissecou em seus livros o caráter excludente da educação brasileira e o gargalo representado pelo Ensino Médio. "Para ele, era ali que se formava a composição da elite intelectual pela base econômica e não por critérios de competência, evidenciando a fratura social do país", analisa o professor Carlos Jamil Cury, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. A atual explosão de matrículas neste ciclo e a própria reforma em curso parecem confirmar, décadas mais tarde, o acerto da análise original.

Máquina de democracia

Anísio defendia que a escola pública era a "máquina que prepara as democracias". Sendo assim, deveria centrar-se em três eixos para formar bons cidadãos: o jogo, o trabalho e o estudo. A tradução concreta de suas idéias foram as Escolas-Parque, criadas na Bahia em 1950, quando foi Secretário de Educação pela segunda vez (na primeira, aos 23 anos, foi chamado de "bebê" e "verdoso educador"). Eram escolas de tempo integral, embrião dos Cieps criados por Darcy Ribeiro na década de 80 sob confessa influência do mestre baiano.

Muitos anos antes de experiências pioneiras como as que aconteceram nas Escolas-Parque, houve um momento histórico para a educação brasileira. E lá estava Anísio, como um dos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932. No documento, fruto do panorama político representado pela ascensão da classe média a partir da Revolução de 30, são colocados princípios que, se hoje parecem líquidos e certos, não o eram naqueles anos, logo após o enterro da República Velha. São eles: obrigatoriedade do Ensino Básico, gratuidade, educação para ambos os sexos e ensino laico. Foi a primeira vez em nossa história que a educação passou a ser vista como um problema social.

Para enfrentar tanto atraso, o educador defendia uma nova postura na relação professor-aluno. Veja se sua opinião não parece saída dos Parâmetros Curriculares Nacionais: "O mestre deve confiar no aluno. Perca ele para sempre a idéia de que lhe cabe qualquer soberania sobre o pensamento do seu discípulo. Dê-lhe oportunidade para pensar e julgar por si".

Inspirado pelos princípios humanistas do filósofo norte-americano John Dewey (1859-1952), de quem foi aluno, amigo e tradutor, Anísio Teixeira trouxe para o Brasil a noção de que era preciso usar métodos ativos que ensinassem o aluno a "aprender a aprender" em um ambiente escolar democrático. Ele dizia que "as inteligências que se ajustam ao ensino formal são as de certo tipo médio, excessivamente passivo. Os verdadeiramente capazes são desencorajados, e a grande maioria dos de outros tipos de inteligência ? artística, plástica, prática ? é destruída". Muito tempo antes do conceito de "múltiplas inteligências", Anísio já pensava dessa forma, com suas várias e lúcidas inteligências.

A pirâmide do Norte e o obelisco do Sul

Veja como Anísio provou, por "a + b", a exclusão escolar brasileira

Fonte: Educação no Brasil, Anísio Teixeira, Cia. Ed. Nacional
Fonte: Educação no Brasil, Anísio Teixeira, Cia. Ed. Nacional

Anísio Teixeira fez em 1957 um estudo sobre o caráter seletivo do ensino brasileiro que se tornou célebre. Ao comparar o fenômeno da evasão escolar nos Estados Unidos e no Brasil, ele obteve uma imagem eloqüente de como a educação para todos era priorizada em um país e negligenciada em outro. O desenho do perfil estudantil norte-americano sugere uma pirâmide (ou um arranha-céu semelhante ao maior da época, o Empire State), enquanto o nosso lembra um obelisco.

Quer saber mais?

INTERNET

www.prossiga.br/anisioteixeira ? nessa bem cuidada biblioteca virtual existem diversos artigos de Anísio Teixeira sobre a educação brasileira, resumo das obras, correspondência com amigos, depoimentos, links e fontes de pesquisa.

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