O que a garotada não diz, mas você vê

Mesmo quando não falam, gestos e expressões dos alunos revelam estados de humor e conflitos. Saiba como percebê-los e intervir

POR:
Débora Didonê

No ano passado, a professora Barbara Scofano tinha um aluno que era o garoto-problema de sua turma de 2ª série da Escola Municipal Maria Clara Machado, no Rio de Janeiro. Ele dava tapas nos colegas, era arredio e batia o tempo todo com objetos na carteira. "As trinta crianças sentiam medo e eu ficava angustiada por não saber como me aproximar", conta Barbara. "Fiz um estudo da história dele e descobri que apanhava da mãe. Por isso, agia com agressividade", completa. Durante um ano, em conversas particulares com o aluno, a professora mostrou que fazer carinho também era uma forma de se relacionar. "Ele não sabia nem dar um abraço", diz Bárbara. Não era por capricho que o menino incomodava todo mundo na escola. Seus movimentos bruscos e sua raiva transmitiam, sim, a mensagem de quem precisava de ajuda. Foi com observação, paciência e muita conversa com os alunos que Bárbara conseguiu fazer o garoto respeitar e ser respeitado. Essa história é prova de que muitas vezes crianças e adolescentes não dizem - ou não sabem como dizer - o que estão sentindo, o que pode provocar problemas no desempenho escolar e conflitos nas relações. Por isso, saber interpretar sinais não verbalizados, como expressões faciais e gestos, é muito importante.

Na ponta da língua

É a partir dos oito anos que a criança domina a fala a ponto de usá-la a seu favor quando quer esconder alguma informação. "Ela já não se deixa pegar por contradições porque a parte cognitiva que elabora a mentira está bem desenvolvida", diz a psicóloga Mônica Portella, consultora na área de comunicação não-verbal e diretora do Centro de Psicologia Aplicada e Formação (CPAF), no Rio de Janeiro. Ela explica que, já na adolescência, a facilidade de forjar o que se diz é comparável à que tem um adulto. "O adolescente tem uma destreza para mentir e os sinais são importantíssimos", afirma Mônica. Para ela, é possível identificá-los se houver incoerência na postura do aluno, como quando ele diz que entendeu uma matéria, mas fica com aquela cara de interrogação.

Na Escola Maria Clara Machado, que recebe alunos de 1ª a 3ª série, a diretora Patrícia Lorena procura desenvolver há três anos essa percepção nas professoras para que elas se relacionem melhor com seus alunos. "Eu sentia que a falta de limite de alguns deles era reflexo da dificuldade de comunicação dos professores", diz Patrícia. "Quando um aluno ficava agressivo ou fazia cara de deboche, muitas vezes queria chamar atenção para algo que não estava bem com ele", completa. Ao se irritar com aqueles que não respondiam às perguntas, dirigir-se a eles com um tom de voz ameaçador ou interpretar gestos arredios como ofensa pessoal, as professoras abriam (sem querer) portas para conflitos. A solução veio com a mudança de postura. "Passaram a falar com as crianças de forma que elas não se sentissem rotuladas e acreditassem que poderiam mudar para a melhor", conta Patrícia. Na prática, as professoras substituíram falas como "você é uma menina agressiva" - que critica o que a aluna é - por "isso que você fez não foi legal" - que questiona sua conduta.

A relação entre os alunos também se revela no olhar e no estado de humor da garotada. Como nas "panelinhas", quando alguns alunos são colocados para escanteio pelos colegas nas atividades. "Eu via um grupinho que ficava de cochicho e uma menina que vivia triste porque era excluída", diz a professora Bárbara. "Pela movimentação da turma, a gente percebe quem são os líderes e como organizam seus grupos", completa. Bárbara passou a formar as equipes para que a panelinha se desfizesse e todas as crianças pudessem se conhecer.

Cá entre nós

Durante os intervalos das aulas, a professora Elaine Cristina Stuber, da Escola Municipal Almeida Garrett, também no Rio de Janeiro, aproveita para conversar individualmente com aqueles alunos que, de repente, mudam de postura na sala de aula. Foi dessa forma que ela descobriu que um aluno de 13 anos estava usando drogas. "Ele andava agitado e desconcentrado demais", conta. Como Elaine sempre se preocupou em criar vínculo com os alunos, ele se sentiu à vontade para dizer qual era o problema. A estratégia da professora para conquistar a confiança e o respeito da garotada é simples: em vez de chamar a atenção na frente de todos, ela prefere ter conversas reservadas. "Assim, o professor deixa claro que as atitudes dos estudantes têm conseqüências, mas que isso não é motivo para expô-los aos demais", diz Mônica. Com o tempo e muitas conversas, Elaine familiarizou-se com o jeito de cada um a ponto de identificar com mais facilidade qualquer mudança de comportamento.

Além de amenizar situações de conflito na sala de aula e na vida do aluno, o reconhecimento de mensagens não faladas é um caminho para saber se a turma se identifica com as aulas. "Quando olha para o grupo, o professor precisa saber que tem diante dele alunos que expressam claramente o quanto são exigentes", diz a psicóloga Irene Gentilli, professora de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP). Irene aconselha observar e valorizar a linguagem da comunidade onde o aluno vive para atender aos seus anseios e expectativas. "Os alunos só são hostis quando o professor não oferece o que eles querem", diz.

Conheça os sinais de sua classe

A psicóloga Irene Gentilli, da USP, ensina algumas estratégias para conhecer bem os alunos e promover o bom relacionamento da turma

1. Para evitar (ou dissolver) panelinhas, proponha equipes diferentes para cada atividade, de forma que todos possam se conhecer e relacionar.

2. Durante as atividades, organize os alunos em semi-círculo, para que todos os colegas possam se olhar. Essa disposição facilita observar as trocas de olhares e os sinais de quem é líder ou está isolado na turma.

3. Se um aluno está sentado na carteira de um jeito muito relaxado (com as mãos para trás da cabeça) e expressão de desinteresse, mude o ritmo da aula ou converse particularmente com o aluno para saber porque está descontente com a aula.

4. Quando os estudantes trocam sinais cúmplices de deboche, como se estivessem excluindo o professor, participe da brincadeira. Seja simpático, pergunte do que estão rindo e diga que quer rir também.

5. Se os alunos acompanham o professor com o olhar, balançam a cabeça positivamente e fazem perguntas, significa que gostam da aula.

6. Se houver um aluno freqüentemente distraído, pergunte, reservadamente, qual o problema.

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CONTATOS
EMEF Maria Clara Machado
, Estrada da Barra da Tijuca, 3570, Rio de Janeiro, RJ, 22641-001, tel. (21) 2494-9790 e 2494-9803
Escola Municipal Almeida Garrett, R. General Guedes da Fontoura, 470, Rio de Janeiro, RJ, 22620-030, tel. (21) 2493-0452

BIBLIOGRAFIA
Como Identificar a Mentira
, Mônica Portella, 128 págs., Ed. Qualitymark, tel. (21) 3094-8400 , 22,50 reais
Comunicação Não-verbal na Interação Humana, de Mark L. Knapp e Judith A. Hall, 492 págs., Ed. JSN, tel. (11) 3287-8728 , 49 reais

INTERNET
O psicólogo norte-americano Paul Ekman é especialista em comportamento não-verbal e expressão e psicologia da emoção. Em seu site (em inglês) há dicas de CDs, publicações e artigos sobre o assunto. 

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