Minha mãe acreditava que todo mundo tinha solução, ela não desistia de ninguém

Dedicada à família e aos alunos da EE Raul Brasil, Marilena Ferreira Vieira Umezu começou a estudar com 45 anos. A trajetória da coordenadora pedagógica da escola de Suzano é contada aqui pelo filho Vinicius Umezu

POR:
Paula Salas, Camila Cecílio
Crédito: Acervo pessoal

Marilena Ferreira Vieira Umezu passou parte da vida sem ter tido a oportunidade de estudar. Aos 45 anos, ela realizou seu desejo de voltar à escola, formando-se mais tarde em Filosofia. A graduação lhe abriu as portas para as salas de aula. Como professora da Escola Estadual Raul Brasil, onde trabalhou por 10 anos, ela ficou conhecida entre seus pares e alunos pela capacidade de dialogar com alunos e funcionários. Acabou promovida a coordenadora pedagógica.

A carreira da educadora foi interrompida no dia 13 de março, quando ela foi uma das dez vítimas do tiroteio na escola de Suzano. Dias após a tragédia, o filho de Marilena, o engenheiro mecatrônico Vinicius Umezu, concordou em contar à NOVA ESCOLA a trajetória de sua mãe. Veja a seguir o relato.

“Em 2005, minha mãe estava com 45 anos. Foi quando ela começou a estudar.

Ela e uma amiga, que também não tinha estudado, decidiram fazer Supletivo. Um tempo depois, as duas se formaram no Ensino Médio. [Eu] Me lembro que ela gostou tanto de estudar que, logo em seguida, começou a cursar Filosofia na faculdade onde meu pai trabalhava no setor administrativo, o que a ajudou a conseguir uma bolsa. Eu acho que no início do curso ela não se imaginava dando aulas, o que queria mesmo era buscar conhecimento – afinal de contas, foram 45 anos sem estudo.

Minha mãe se graduou, fez prova para ser professora e passou. Nessa época, meu pai ficou desempregado e ela, como educadora, começou a ajudar nas despesas de casa. Paralelo a isso, ela já dava aulas de catequese na igreja da cidade e gostava de conversar com crianças e jovens. Dar aulas foi uma consequência: ela amava o que fazia e viu que estava no lugar certo. Era uma pessoa que sempre gostou de estudar, mas quando começou de verdade, viu que podia ir longe. E foi. Ela se formou em 2009, no mesmo ano que eu. E agora, em 2019, aos 59 anos, estava cursando Pedagogia e fazia muitos cursos online. Ela não parou até seu último dia de vida.

Antes disso, nunca teve a chance de aproveitar a vida por falta de condições. Ela vinha de uma família humilde de Ubá, no interior de Minas Gerais, e desde criança ajudava em casa. Até lenha ela tinha que ir buscar na floresta. Era a mais velha de cinco filhos e por falta de tempo, só estudou até a 5ª série. Meus avós decidiram vir para o interior de São Paulo em busca de oportunidades quando minha mãe tinha cerca de 15 anos. Aos 20 anos, já estava com Lauro, meu pai, com quem se casou e teve três filhos, eu e meus irmãos Michael e Marcel. Depois de um tempo, meus tios e avós voltaram para Minas, mas minha família decidiu ficar aqui. Ela amava muito a família, tinha a melhor relação do mundo com os irmãos e com o restante de nossos familiares, tanto que sempre que podia, nas folgas, encontrava um jeito de ir lá visitar eles.

Minha mãe era uma pessoa diferenciada. Sempre nos cobrou dedicação na escola, acho que porque ela sentia na pele o que era viver sem estudo, então queria que com os filhos fosse diferente. No começo era dona de casa, enquanto meu pai trabalhava muito para nos sustentar. Ela sempre foi carinhosa, gostava de conversar com a gente, de dar conselhos sobre a vida, ser presente. E foi a partir desse empenho dela, de querer que os filhos tivessem um futuro melhor, que nós conseguimos: os três graduados na faculdade. Meus pais não tinham condições de pagar nossos estudos, mas graças ao incentivo da nossa mãe, conseguimos nos formar por conta própria.

Crédito: Acervo pessoal

Estamos passando por uma situação muito complicada no mundo todo, e minha mãe sempre acreditou que a Educação é o caminho para mudar esse cenário. Escutei alguns comentários sobre ela ser contra o porte de armas e, por isso, é importante deixar claro que o que minha mãe queria dizer era: se você tem livros, você não precisa de armas. Minha mãe era muito humana, para ela todo mundo tinha uma solução e ela não desistia de ninguém, principalmente de seus alunos.

Ela sempre soube como conversar com os jovens e acredito que por isso ela foi chamada para ser coordenadora da Escola Estadual Raul Brasil. A relação entre ela e a comunidade escolar era muito boa, vimos isso também após a sua morte, com tantos elogios. Ela sabia falar com as pessoas, olhava para seus alunos com atenção. Um deles, o Claiton, era um garoto muito humilde, esforçado, e minha mãe deu para ele um computador que estava sobrando na casa dela para ajudá-lo nos estudos. Infelizmente o Claiton morreu junto com a minha mãe. Como coordenadora, ela se sentia muito mais responsável, ela olhava para as crianças como filhos dela.

A gente sabia que a escola não tinha muitos recursos, por isso ela sempre estava trabalhando em casa, pesquisando formas de melhorar as coisas. Era religiosa, frequentava a igreja e ajudava a comunidade. Ajudar as pessoas era uma das marcas registradas da minha mãe. Quando vi a notícia que tinha sido na escola da minha mãe, tive certeza de que ela estava envolvida. Tenho certeza que, mesmo se não estivesse perto do garoto, ela teria saído assim que escutasse alguma coisa, jamais ficaria parada.

A melhor lembrança que guardo dela é com a nossa família reunida. A maior alegria da minha mãe era quando o meu irmão mais velho, que vive fora no Brasil, vinha para cá e éramos completos, filhos e netas. Era uma pessoa amiga, amorosa, companheira e feliz. Só não era feliz quando tinha que entrar em lugares fechados, como avião e elevador, tinha verdadeiro pânico. Adorava cantar nos karaokês em família e a música “Vermelho”, da Fafá de Belém, para sempre vai nos lembrar dela.

Ela nunca nos preparou para isso, mas sempre nos disse para ter muita fé, pois não conseguiríamos lidar com momentos de dificuldade sem fé. E, se não fosse por ela, a gente não conseguiria passar pelo que estamos passando agora.”

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