Por uma formação inicial com mais qualidade

Projeto de lei propõe a criação da residência pedagógica para oferecer aos professores novatos um contato mais efetivo com a realidade escolar logo após a graduação

POR:
Débora Didonê

Um importante projeto de melhoria da formação docente está tramitando no Senado. Se aprovado, vai criar a chamada residência pedagógica - um programa de capacitação inicial fortemente baseado em atividades práticas e inspirado no que já ocorre com a carreira médica. Os habilitados em Pedagogia, sob a supervisão de profissionais mais experientes, passarão por uma especialização obrigatória na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. E os licenciados terão a opção de fazer ou não a residência. "A Medicina é o parâmetro porque tem uma experiência muito bem-sucedida", afirma o senador Marco Maciel, autor da proposta. "A residência pedagógica permitiria uma convivência maior com a escola, com os alunos e com o cenário em que o novo professor começa a atuar." 

O projeto, na verdade, não é nenhuma revolução. Suas premissas são as mesmas que já deveriam ser contempladas pelo estágio oferecido na graduação - participação na rotina da escola, atuação em sala de aula sob supervisão de outro professor e reuniões periódicas de acompanhamento.Mas há uma diferença essencial: o número de horas/ aula aumenta quase três vezes (800 contra 300), o que garante um aprofundamento na relação entre os novatos e seus mestres, com o desenvolvimento de projetos em conjunto. Quem aposta na aprovação do projeto diz que ele vai servir ainda para valorizar o Magistério, pois os estudos ficarão mais puxados. Ao melhorar o equilíbrio entre teoria e prática, prevê-se que as universidades passem a cobrar mais dos estudantes, o que praticamente não ocorre hoje.Como mostram os dados estatísticos do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), os universitários brasileiros (inclusive os de Pedagogia) consideram que o curso deveria ter exigido muito mais deles.

Angústia de principiante

"Imagino que o residente passaria uma quantidade de horas na escola e participaria daquela comunidade de maneira prática. É o que já ocorre nos estágios bem feitos, só que sem interação e avaliação."  Cátia Valério Ferreira Barbosa é pós-graduada em Educação. Foi supervisora de estágio e hoje é professora no Colégio Militar do Rio de Janeiro

Há dez anos, a professora Cátia Valério Ferreira (que hoje leciona para classes de Ensino Fundamental e Médio no Colégio Militar do Rio de Janeiro) fez estágio numa escola de classe média da capital fluminense. Foi bem recebida pela direção e cumpriu o programa de maneira considerada satisfatória.Mas, quando se tornou titular de uma turma de 5ª série do supletivo noturno em outro colégio, na periferia, levou um choque. A realidade dos alunos era muito diferente e ela percebeu que não tinha preparo para a função."Eu não recebi nenhuma orientação sobre o perfil da turma. Só sobre questões burocráticas da escola."

Situação semelhante vive hoje Juliana Paz, em Maceió. Ela recebeu o diploma no ano passado e, em fevereiro, se assustou muito com a realidade encontrada numa escola municipal. No estágio, ela acompanhou classes de 3ª série.Ao ser contratada, assumiu uma turma de 1ª série sem nenhuma experiência prévia com os pequenos. "Fiquei angustiada porque alguns alunos sabiam ler e escrever e outros nem conheciam o alfabeto", diz Juliana, que contou com a ajuda de uma colega para conseguir elaborar um projeto minimamente razoável para o ano letivo. "Num caso como esse", avalia Célio da Cunha, especialista em Educação e consultor da Unesco, "não basta estar seguro quanto à tarefa de alfabetizar. É preciso que os novos docentes tenham condições também de repensar e reelaborar o próprio trabalho diversas vezes para dar conta das exigências do dia-a-dia dentro da sala de aula."

INÍCIO DE CARREIRA Em jogo, dois modelos diferentes

  ESTÁGIO CURRICULAR
SUPERVISIONADO
RESIDÊNCIA
PEDAGÓGICA
DURAÇÃO Mínimo de 300 horas,
durante a graduação
Mínimo de 800 horas,
após a graduação
QUEM FAZ Graduandos, com
eventual bolsa-auxílio
Habilitados em Pedagogia
e licenciados, com bolsa
de estudos
FASES DE ENSINO
É prioritário para Educação
Infantil e anos iniciais do
Ensino Fundamental
É prioritária para Educação
Infantil e anos iniciais
do Ensino Fundamental
e pode se estender para
as outras fases

 



Experiência piloto

Patricia Costa, de São Paulo, espera ansiosa pelo 5º semestre do curso de Pedagogia, no ano que vem. Ela está na primeira turma da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que já incorporou o conceito da residência pedagógica ao currículo, mas de uma maneira diferente da prevista no projeto que tramita no Senado (em vez de oferecer a residência após a formatura, ela garante uma supervisão constante do trabalho docente ainda durante o curso de graduação).Graças à autonomia universitária, a Unifesp decidiu criar essa experiência piloto e, assim, Patricia e seus colegas serão obrigados a participar de muito mais atividades práticas em escolas da rede municipal de Guarulhos, na Grande São Paulo, do que ocorre atualmente com os estudantes de todo o país."Espero, com isso, ter mais respeito dos colegas quando entrar na carreira", diz Patricia."Hoje, vejo que os estagiários e recém-formados são vistos com preconceito."

Atualmente, cerca de 30 mil estudantes se formam em Pedagogia por ano, e as regras para sua capacitação inicial sofrem com mudanças constantes. "Começamos muito tarde a nos preocupar com a qualidade", lamenta Divonzir Arthur Gusso, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)."Por isso, sofremos com um círculo vicioso que começa com a má formação docente e termina com o baixo desempenho dos alunos no Ensino Fundamental e Médio." De fato, as taxas de repetência em nossas escolas estão entre as maiores do mundo - justamente por causa da falta de qualificação dos novos professores para dar conta das necessidades curriculares dos dias de hoje.

LINHA DO TEMPO A formação de professores ao longo dos anos

1930-1940
Cursos livres dão lugar ao ensino secundário de sete anos. Nos dois últimos, há
uma formação específica para professores das séries iniciais.

1950-1960
Formam-se 60 mil normalistas. De cada 100, menos de 25 abraçam a docência. Professores leigos são contratados para dar aulas.

1970-1980
Para lecionar para turmas de 5a a 8a série, só com nível superior, o que garante melhor remuneração. Prospera o mercado de faculdades privadas.

1990-2007
É exigido curso superior para todas as fases. Mas só 10% dos docentes se formam em Matemática, disciplina que ocupa 28% do currículo escolar.


Fonte: Divonzir Arthur Gusso, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea)

 



Profissional e aprendiz

"Seria muito bom se a residência nos desse uma visão do que é ser professor, diretor e coordenador pedagógico. Além disso, deveríamos poder atuar em todas as séries."  Juliana Paz fez estágio curricular com turmas de 3ª série e hoje é regente de 1ª série na rede municipal de Maceió

A proposta de criação da residência pedagógica está em sintonia com esse novo perfil profissional que a Educação brasileira precisa ter para melhorar a qualidade do ensino.O conceito de aprendiz, previsto no texto da nova lei, é baseado na idéia de um profissional autônomo, que reflete, toma decisões e divide tarefas. O trabalho é árduo, complexo, instável e cheio de dúvidas e conflitos (como ocorre em quase todas as profissões hoje). Por enquanto, um professor novato tem pouca autonomia, quase não toma decisões, não compartilha da rotina escolar e está pouco envolvido com a comunidade.

O novo perfil, para se tornar realidade, depende de parcerias mais efetivas (e eficientes) entre a universidade e a escola que vai receber os graduandos e os recém-formados. Será necessário criar uma cadeia de colaboração e responsabilidades para incluir os residentes na equipe e garantir a qualidade da formação. "As escolas precisam acreditar na proposta e não considerar o futuro colega como um intruso que só aparece para assistir às aulas e não interage com a equipe ", diz Sylvia Helena Batista, especialista em Psicologia da Educação da Unifesp.

A formação inicial atrelada à formação contínua já é realidade em outros países. Os residentes dos Institutos Universitários de Formação de Mestres, na França, assumem a mesma sala de aula que acompanharam durante o estágio, enquanto o titular se afasta para fazer cursos de especialização. Os jovens mestres não terminam seus cursos na graduação: têm um forte programa de acompanhamento por parte de um professor formador nos cinco anos seguintes."No Brasil, esse papel poderia ser desempenhado pelo coordenador pedagógico", diz José Ribamar Torres Rodrigues, coordenador da Faculdade das Atividades Empresariais de Teresina, que fez estágio no país. "Fiquei mais interessada em fazer Pedagogia quando soube que o curso de graduacão já vai oferecer a residência pedagógica. Sinto que terei mais segurança no meu desempenho em sala de aula. É diferente do que geralmente acontece no estágio, em que o recém-formado trabalha isolado." Patrícia Costa é administradora e entrou no curso de Pedagogia para fazer trabalho voluntário

"Fiquei mais interessada em fazer Pedagogia quando soube que o curso de graduacão já vai oferecer a residência pedagógica. Sinto que terei mais segurança no meu desempenho em sala de aula. É diferente do que geralmente acontece no estágio, em que o recém-formado trabalha isolado."  Patrícia Costa é administradora e entrou no curso de Pedagogia para fazer trabalho voluntário

Na Argentina e na França, por exemplo, só pode dar aulas quem tem o domínio dos conteúdos e também da didática (e das metodologias de ensino).Assim, a insegurança não é um problema entre os novatos. "Quem não está preparado para conduzir uma classe não recebe o diploma e precisa voltar aos estudos antes de ser reexaminado, no ano seguinte", explica a pesquisadora Anne-Marie Chartier, do Instituto Nacional de Pesquisas Pedagógicas, em Paris.

Os especialistas concordam que a residência pedagógica sozinha não vai resolver o problema da formação docente em nosso país. Temos outros temas a discutir e resolver, como plano de carreira, certificação de competências, piso salarial e critérios mais rigorosos de seleção de professores.  Mas a proposta lança luzes sobre questões que precisam ser mais bem conduzidas, como a integração entre teoria e prática, malfeita no estágio e a valorização profissional.  É justamente pela complexidade dos temas e pela dificuldade de integrá-los ao dia-a-dia da profissão que o docente precisa de mais tempo de estudo. Só com professores mais capacitados e bem formados é que vamos começar a melhorar a qualidade do que é ensinado às nossas crianças.

 

ESTÁGIO PROBATÓRIO Falta o caráter formativo

Estima-se que cerca de 80% dos docentes brasileiros atuem em redes públicas de ensino. Por lei, eles precisam passar por um estágio probatório, ou seja, trabalhar durante algum período (geralmente três anos) para comprovar que têm condições de exercer a função. Quem dá o aval é a direção da escola, que deve observar quesitos como pontualidade, assiduidade e domínio das competências mínimas exigidas pela carreira. "É fato que o professor brasileiro não é bem formado, mas a ampla maioria é aprovada no estágio", diz Mariza Abreu, secretária de Educação do Rio Grande do Sul. Isso ocorre, porém, porque essa fase de experiência não é exatamente rígida nem tem caráter formativo. Os novos professores só são dispensados quando cometem uma falta muito grave.

 

QUER SABER MAIS

BIBLIOGRAFIA 

Papel da Pesquisa na Formação e na Prática dos Professores
, Marli André (org.), 142 págs., Ed. Papirus, tel. (19) 3272-4500, 28,90 reais 

Professores São Importantes, OCDE, 252 págs., Ed. Moderna, tel. 0800-172002, 42 reais

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