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"Estamos trabalhando para que o aluno permaneça na escola"

Luciano Barbosa fala sobre os principais temas para a área no seu estado

POR:
Laís Semis

Em 2019, NOVA ESCOLA vai publicar entrevistas com os secretários de Educação dos 26 estados e do Distrito Federal para ouvir os planos, perspectivas e as opiniões de quem lidera a pasta pelo país.

Foto: Thiago Henrique

Quem comanda a pasta de Educação do Alagoas é Luciano Barbosa, atual vice-governador do estado. Não é a primeira vez que ele ocupa o cargo de secretário: com breves pausas para concorrer às eleições, Luciano chegou à secretaria de Educação em 2015. Seu histórico com a gestão pública é longo: já foi secretário de finanças, de saúde, de transportes e obras, de administração e ministro da integração nacional.

Luciano acredita na parceria entre estados e municípios, por isso, quando assumiu como secretário, se reuniu com os prefeitos para fortalecer o regime de colaboração. “Eu já fui prefeito [do município de Arapiraca] e já tinha uma boa relação com a Associação dos Municípios do Estado do Alagoas”, relembra.

As parcerias entre o governo estadual e os municipais acontecem em diversas áreas da Educação: transporte, formação de professores, seleção de diretores regionais e premiações para as escolas que mais avançam nos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). “Não importa se são escolas municipais ou estaduais. É uma maneira de misturar todo mundo e dizer ‘olha, a responsabilidade é de todos nós’”, diz o secretário.

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Confira a entrevista exclusiva que Luciano concedeu à NOVA ESCOLA.

Como você avalia a Educação em Alagoas?
LUCIANO BARBOSA Olhando para a série histórica de 2007 a 2017 do Ideb, verificamos que, entre 2015 e 2017, nós demos um salto relativamente bom nos três níveis: anos iniciais e finais do Fundamental e no Ensino Médio. Ainda é pouco avanço, mas é uma tendência e, se essa tendência se confirmar, em 2019 as coisas melhoram também.



Além de secretário, você também é vice-governador do estado. Olhando para o cenário de Educação, quais você destacaria como os principais desafios da área?

Nós vamos permanecer com a mesma estratégia: vamos trabalhar o fluxo nas escolas, a proficiência e vamos mobilizar um conjunto de educadores nas escolas. É no chão da escola que as coisas acontecem e, portanto, as nossas ações são voltadas para escola. Para dar conta dos desafios, dividimos as atividades da secretaria em três grandes eixos: gestão, infraestrutura e eixo pedagógico.

Separamos para que pudéssemos ter objetivamente metas para atingir dentro de cada uma dessas áreas. Em gestão, temos eleição direta para diretores de escola, criamos a exigência para que o diretor de escola tenha curso de gestão, para que ele possa fazer planejamento, monitoramento e outras ações dentro da escola. Na parte de infraestrutura, dentro daquela perspectiva de dar protagonismo ao aluno, planejamos fornecer um espaço condizente para o ensino e aprendizagem.

E na parte pedagógica, há uma parceria com os municípios, que nós já estamos trabalhando há algum tempo. Como há um grande fluxo entre redes – de alunos que saem da rede municipal para estadual com o avançar das séries –, se nós não tivermos uma boa relação com os municípios de forma contínua, nada acontece.

Desde 2017 nós também temos o programa Escola 10, que é voltado para a área pedagógica. Em cada escola tem o chamado articulador de ensino, que vai trabalhar a correção de fluxo e a proficiência junto com os professores das disciplinas, coordenador pedagógico e diretor. Para compor o Escola 10, estamos trazendo o Programa de Alfabetização na Idade Certa (PAIC) para Alagoas. Com ele, vamos apoiar todos os municípios com material didático de alfabetização.

Também temos trabalhado para que o aluno permaneça na escola. Continuaremos fazendo busca ativa, trabalhando com conselho tutelar para que não haja abandono. Queremos atingir a universalização das matrículas para o Ensino Fundamental e Médio.

No que diz respeito à aprendizagem, nós acompanhamos efetivamente se as competências e habilidades estão sendo dadas naquela série e se os alunos estão aprendendo. O acompanhamento para corrigir as possíveis distorções de aprendizagem são feitos nos Laboratórios de Aprendizagem [programa de reforço escolar]. Antes, eles eram realizados no contraturno, o que dificultava a permanência do aluno. Por isso, ampliamos a carga horária do Ensino Fundamental I e II de 22 para 25 horas semanais e no Médio, de 22 para 26 horas. Isso para que nós possamos trabalhar e fazer no mesmo turno que o aluno estuda.

Você comentou que a parceria com os municípios é essencial considerando que o estado divide com as redes municipais a responsabilidade pelos anos iniciais e finais do Fundamental. Como funciona o regime de colaboração que vocês têm com os municípios?
Nós temos um apoio muito forte no transporte escolar e na busca pela universalização das matrículas do Fundamental. Também colaboramos com eles na formação pedagógica. Os articuladores de ensino que apoiam os Laboratórios de Aprendizagem recebem uma bolsa paga pelo estado.

Quando nós lançamos o Escola 10, nós premiamos as melhores escolas — e incluímos os municípios nela. Aqueles diretores das escolas que tiveram o melhor Ideb do ensino Fundamental I, II ou Médio se tornam gerentes regionais, independente da rede que atuam. Isso também é uma forma de relacionamento com os municípios, que detêm 95% das matrículas do Fundamental I. Isso também é uma maneira de colaboração e desprendimento. É uma maneira de misturar todo mundo e dizer “olha, a responsabilidade é de todos nós”.

Outra ação que nós fizemos com os municípios foi um prêmio que totaliza 20 milhões entre Fundamental I e II para quem atingisse uma meta estipulada pela secretaria do estado no Ideb. Já que prêmio é nosso, calculamos como poderíamos crescer e compartilhamos esse avanço com os municípios.

Considerando que o avanço na aprendizagem também passa pela valorização do professor, quais são os seus planos nessa área?
Eu acho que a gente precisa fortalecer mais a valorização profissional na questão salarial, mas temos uma dificuldade enorme. Mas o nosso processo de formação é intenso, bem como o de valorização com reconhecimento do trabalho dos professores. Nossa mobilização e integração com os professores é tanta que eles participam efetivamente de todo esse processo dentro da escola, eles sentem o esforço da secretaria e eu acho que isso tem colaborado bastante [para os avanços educacionais em Alagoas].

Quando se fala em Educação no Alagoas, um dado que chama a atenção é a taxa de analfabetismo entre jovens com mais 15 anos, que gira em torno de 19%. O planejamento do estado contempla ações para reverter esse quadro nos próximos anos?
Infelizmente, é uma coisa que a gente ainda pena muito, mas estamos trabalhando nela. Entendemos que o aluno nessa faixa etária não se sente motivado pra ir até uma escola distante, então nós montamos o máximo que pudemos escolas de referência para ele, em locais que sejam próximos da residência. A ação faz parte de um programa que lançamos chamado Uma Escola em Cada Esquina.

Também entendemos que é muito importante para a alfabetização em massa  acoplar a alfabetização à Educação Profissional. Nós temos dados que mostram que a evasão é menor quando vinculamos a alfabetização à uma profissão. Nós trabalhamos muito em conjunto com o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Isso deu muito certo, mas houve uma interrupção por parte do governo federal no repasse do recurso para o Pronatec, o que que nos dificultou um pouco.

O que você pensa sobre Educação a distância e qual é o papel que o senhor pretende dar para a modalidade na Educação Básica?
Eu acho que pode ajudar, dependendo do perfil. Não para Ensino Fundamental I e II, mas para formação de professores, eu acho super importante que a gente possa ter programas nacionais de Educação a distância (EaD), porque você consegue dar mais homogeneidade na sala de aula. Também funciona para atuar em cima das especificidades do município. A Educação a distância para ensino profissional, em muitas regiões, eu também acho muito importante.

Nós ainda estamos muito distantes do que nós gostaríamos de ter e o desenho do modelo EaD precisa ser aprimorado. Ele não substitui o papel do professor em sala de aula – e acho que seria um grande erro tentar fazer essa substituição para ganhar escala. Nós precisamos saber dosar a Educação a distância com a Educação presencial.

Vocês enxerga, nos próximos quatro anos, a Educação a distância chegando nos anos finais do Ensino Fundamental ou no Médio?
No Ensino Fundamental, sinceramente, pela minha experiência eu não recomendaria. Os alunos de sete a 14 anos devem participar da Educação presencial na escola. Podemos ter alguma coisa nos anos finais para quem está muito fora da faixa etária. Para Educação Básica, pra quem está na faixa etária, a Educação presencial é fundamental. Eu ainda não tenho uma opinião formada sobre EaD no Ensino Médio, mas nós podemos tentar alguma coisa [no futuro].

Que aprendizados você acha que o estado pode compartilhar com o Brasil?
O trabalho que está em curso na escolha dos nossos gerentes regionais por mérito [em resultados do Ideb]. Nós tiramos muito a indicação política desse processo. Antigamente, aqui no estado de Alagoas, um deputado estadual da região indicava o gerente regional. Isso era partidário, em troca de um apoio na assembleia legislativa ao governador do estado. Hoje, temos um critério muito simples, objetivo e inquestionável, que são os resultados do Ideb. Ao blindar isso, nós trouxemos toda a secretaria de Educação para a discussão técnica e pedagógica sobre a Educação Pública. Além disso, promovemos a reciclagem dos gerentes, porque você tem a cada dois anos um novo Ideb e, consequentemente, a cada dois anos, uma nova equipe de gerentes com experiência e muita relação com o chão da escola, o que nós consideramos que é uma boa ideia. Nós fomos procurados por Paraná e Minas Gerais porque eles estão lançando um edital de escolha dos seus gerentes regionais inspirados em nossa experiência.