Pablo Escobar, abacaxi e Olavo de Carvalho: veja o discurso do ministro da Educação na Câmara

Questionado por deputados sobre sua possível saída, Ricardo Vélez Rodríguez disse que somente Jair Bolsonaro pode tomar essa decisão

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NOVA ESCOLA
O ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez: "MEC é um abacaxi do tamanho de um bonde"  Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Comandar o MEC é um abacaxi do tamanho de um bonde”. Foi assim que o ministro Ricardo Vélez Rodríguez definiu sua tarefa à frente do Ministério da Educação. Nem três meses no posto de ministro, Ricardo Vélez comentou suas decisões diante da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (27/03). Falando por quase cinco horas, ele tocou em temas tão distintos quanto o tiroteio em Suzano, Pablo Escobar, cocaína como produto de exportação até a “puxada de tapete” de Marcos Vinicius Rodrigues, antes de ser exonerado da presidência do Inep, autarquia responsável pelo Enem.

Na segunda-feira (25/03), o Diário Oficial trouxe a decisão do MEC de adiar para 2021 a avaliação de Alfabetização. A notícia levou à renúncia da secretária de Educação Básica Tania Leme de Almedia, além de aprofundar a crise no ministério. Nem 24h depois, no dia 26, o ministro publicou no mesmo Diário Oficial um despacho no qual revogava a decisão. E no mesmo dia, Marcus Vinicius Rodrigues foi exonerado da presidência do Inep. "O diretor-presidente do Inep puxou o tapete. Ele mudou de forma abrupta o entendimento que já tinha sido feito para a preservação da Base Nacional [Comum] Curricular e fazer as avaliações de comum acordo com as secretarias de educação estaduais e municipais", disse Ricardo Vélez aos deputados. O pedido para suspender a avaliação por dois anos teria partido de Carlos Nadalim, secretário de Alfabetização. Para o ministro, Marcus Vinicius não poderia tomar tal decisão sem consulta-lo e por isso deixou o governo.

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“Realmente, considerei um ato grave, que não consultou o ministro, se alicerçou em pareceres técnicos, mas não foi debatido no seio do MEC”, disse. Sobre as exonerações do ministério, ele garantiu que não existe uma agenda política. "Não faço mudanças de cunho político, só de cunho administrativo”, afirmou.

Olavo de Carvalho

Ricardo Vélez foi indicado para ocupar o Ministério da Educação por Olavo de Carvalho. Mas perdeu o apoio após uma remexida no governo que levou à saída de alguns de seus alunos do curso de Filosofia. Questionado sobre a influência de Olavo, o ministro tentou contemporizar. "Se menciona o nome de um pensador brasileiro que mora fora, o professor Olavo de Carvalho. Valorizo nele as ideias gerais, a ideia dele de formação humanística através da leitura de obras literárias, que não é exclusiva dele, tem muitos outros formadores que têm essa mesma proposta. Só isso". E completou: As análises políticas, as brigas políticas do professor Olavo de Carvalho, para mim são outros quinhentos. Não tomo conhecimento disso. Só me interessa resgatar a sua tradição humanística nessa proposta de formação em humanidades através da leitura das grandes obras, que não é uma proposta nova. É a proposta dos great books ingleses, a formação de liberal arts da sociedade inglesa”.

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Escola cívico-militar

Em outro momento de sua fala, o ministro defendeu a implantação do modelo de escolas cívico-militares como forma de avançar a aprendizagem no país e afastar o tráfico de drogas. "Primeira consequência quando se adota o modelo cívico-militar: o diretor da escola, os professores, continuam os mesmos, tocando para frente os programas normais, o único que muda é a gestão. A gestão cívico-militar afasta o traficante da escola, o traficante dá no pé", disse aos parlamentares. 

Ricardo Vélez chegou a apontar um caminho para que escolas municipais possam adotar o modelo. “As escolas cívico-militares fizeram diminuir a violência e são as melhores do estado [de Goiás]. Uma escola municipal que queira entrar nesse programa pode fazer um empréstimo no FNDE para custear isso. De que se trata? De colocar “Rambo” armado de fuzil em sala de aula? Não, não é isso. Profissionais da segurança pública na escola tomam conta da administração. Só esse dado já afasta o traficante e a violência diminui".

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Pablo Escobar

O ministro da Educação usou a figura do traficante colombiano Pablo Escobar para discutir soluções para diminuir a violência no país. "O que a Colômbia passou há 30 anos está passando o Brasil agora", disse. "Pablo Escobar tinha reservado campos de futebol para os jovens e uma pequenina biblioteca. Com isso, tenho esses jovens aqui e eles não consomem cocaína porque esse produto é de exportação”. E concluiu: “A ideia de Pablo era não consumir cocaína na Colômbia porque esse era um produto de exportação. Só com esse fato [de evitar o consumo dos jovens], a violência diminui".

Por conta dessa citação, a #PabloEscobar entrou para o trending topics no Twitter.

Ricardo Vélez Rodríguez citou o tiroteio na Escola Estadual Professor Raul Brasil, que resultou em dez mortes. Ao comentar sua conversa com uma das mães, ele disse que se houvesse um policial na entrada, a tragédia não teria acontecido. Logo depois, o ministro afirmou que o problema com drogas está afetando os jovens brasileiros. "O Brasil está doente hoje. Doente de uma doença que se chama crack que, infelizmente, está presente em 98% dos nossos municípios. E todos nós sabemos que a dependência, a narcodependência, produz violência porque a pessoa perde o controle por sobre os seus atos. É necessário que respondamos a altura", disse. "O que hoje estamos sofrendo em nossos municípios é em decorrência desse processo de violência proveniente das drogas”.

O ministro aproveitou para anunciar que em dois dias vai anunciar o nome do secretário-executivo do Ministério da Educação (MEC). Considerado o “número 2” da pasta, a secretaria não tem um responsável desde a saída de Luiz Antonio Tozi. Questionado sobre o perfil e quando pretende escolher um nome para a vaga, ele respondeu que o indicado terá "perfil técnico e será conhecido em dois dias".

Sobre os rumores sobre sua possível saída do Ministério da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez negou que esteja pensando em jogar a toalha. "Não renuncio porque não faz sentido. Só apresento a minha renúncia ao presidente da República ou ele me demite", afirmou. Questionado se faltava muito tempo, ele emendou: “Ficarei no ministério até que o senhor presidente me diga, ‘Olha... os seus serviços, muito obrigado, tchau’. Ficarei desenvolvendo o plano de trabalho que me tracei desde o início”.

 

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