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Cinco estratégias que as escolas podem adotar para incentivar a leitura

Em vez de prova, resumo e fichas de leitura, é possível criar atividades que fomentem o gosto pelos livros dentro e fora da escola

POR:
Débora Lublinski

“O verbo ler não suporta o imperativo.” A frase do educador e escritor francês Daniel Pennac resume o desafio de plantar nas crianças a sementinha da leitura por fruição, aquela que não conta para prova ou para nota. Segundo o autor, o famoso “leia!”, com direito a ponto de exclamação, e os mecanismos de controle e avaliação - como os resumos, as fichas e os exames - são ineficientes. Eles apenas tornam a experiência no universo literário uma obrigação, que não vai ser repetida se não for exigida novamente. Como incentivar que os alunos se tornem leitores autônomos? O caminho, segundo as especialistas ouvidas pela NOVA ESCOLA, passa por dar liberdade de escolha aos estudantes e por apresentar obras capitais, especialmente as que eles não teriam acesso sem a mediação do educador.

Nessa perspectiva, algumas práticas escolares precisam ser repensadas. A avaliação é uma delas. “Nenhum adulto responde a questões de interpretação quando termina um romance! Sendo constantemente avaliado, o aluno vai adquirir a representação da literatura como tarefa de escola e, dessa forma, quando tiver cumprido sua trajetória escolar, acabará não se interessando pelos livros”, afirma Maria José Nóbrega, assessora dos Planos de Aula de Língua Portuguesa da NOVA ESCOLA e dos projetos de leitura da Editora Moderna.

Foi o que a professora Débora Sacilotto, da EMEF Francisco Cardona, em Artur Nogueira (SP), constatou ao voltar às salas de aula depois de 16 anos em cargos de gestão. “Toda sexta-feira era feito um empréstimo de livro e, na devolução, os alunos preenchiam uma ficha-resumo. Nós, professores, entendíamos que a tarefa ia ajudar o aluno a organizar as ideias, registrar o que tinha lido e, portanto, facilitar a compreensão. Mas começou a virar uma tortura – para mim e para eles. Os alunos apenas copiavam trechos da obra e eu me via corrigindo 30 lições toda semana”, conta.

Débora percebeu que precisava mudar a estratégia e lembrou de um professor que dizia que o caminho para gostar de ler é encontrar um gênero literário de que se gosta. “Parei para pensar em minha experiência pessoal. Adoro romances - quando começo um, termino rapidinho. Já com livros de autoajuda, a leitura é mais arrastada. Assim, resolvi trazer uma narrativa gostosa à sala”, recorda. O eleito foi Extraordinário (Intrínseca), que conta a história do menino Auggie, de 10 anos. A educadora começou a ler o livro por capítulos, “que nem novela”, para deixar aquela curiosidade do que vai acontecer para o dia seguinte. “Como fala sobre inclusão e bullying, todos se identificaram. Uma aluna ficou entusiasmada porque descobriu que podia ler um livro grosso! Bastava um pouquinho por dia”, conta. Com esse gostinho de quero mais, algumas crianças foram buscar o livro fora da escola, em livrarias e bibliotecas. Não demorou para Débora ver alguns alunos lendo no recreio e pedindo indicação de outros gêneros literários. No lugar do resumo, foi implementada a “Hora do Conto”, um momento de leitura em voz alta do trecho do qual mais gostou e uma conversa descontraída sobre a história. Paralelamente à leitura, um carrinho com biblioteca itinerante circula entre as salas e, após a leitura, cada criança pode recomendar o livro para o colega, justificando o porquê. “O incentivo à leitura impactou no aprendizado, mas não é só isso que conta. As crianças vão carregar os livros para a vida adulta de uma forma prazerosa”, comemora Débora.

No Colégio Equipe, em São Paulo, para desenvolver o hábito de leitura há um acervo mais personalizado da biblioteca de sala, que reúne obras que as próprias crianças trazem de casa, e também o momento da leitura compartilhada. Além da visita à biblioteca, onde, uma vez por semana, acontece o projeto Encontro de Leitura.

Segundo Ana Marotto, orientadora pedagógica do Ensino Fundamental I do Equipe, a iniciativa promove um momento mais livre com o livro: os alunos podem explorar as prateleiras, entender como funciona a organização de uma biblioteca e descobrir seus gostos. Depois, na semana seguinte, a proposta é indicar para um amigo o livro que foi levado para casa. Tereza Sousa, mãe de Anita, de 7 anos, aluna do 3° ano da escola, conta que o projeto acabou se refletindo em casa. “Ela quer levar os livros para passear. Se vamos a um restaurante, ela carrega sua leitura. Percebo que a literatura não ficou associada apenas a um dever – há prazer em ler, o que é fantástico”, conta.

Jogos literários

E o que fazer quando os alunos pegam o mesmo livro para ler, ficam apenas títulos muito comerciais ou elegem uma obra fácil - ou difícil - demais para a sua compreensão? É papel do educador fazer a mediação, pré-selecionando títulos que atendem à necessidade individual ou do grupo. Na escola Stance Dual, em São Paulo, essa curadoria virou uma grande brincadeira. Regina Alfaia, professora do 4° ano e contadora de histórias, acredita que criando jogos é possível requalificar a relação com o livro. “Apenas 30% dos títulos estão no horizonte dos leitores. Não apresentar os 70% restantes é privá-los dessa descoberta”, afirma. Regina criou uma espécie de pescaria na qual os alunos são a isca. “A diversão é saber por qual livro você será fisgado. Para isso, faço uma pré-seleção das obras que acho interessantes e, depois, cubro as capas dos livros. Deixo apenas um fio colorido para fora com um pequeno trecho grudado nele. Os alunos vão passeando entre as mesas, lendo os textos, até serem pescados por uma das narrativas”, detalha. Na hora da devolutiva, em vez de ficha ou resumo, a atividade ganha status de chá literário.

Inspirado nas histórias do inglês Roald Dahl (que sempre descreve a hora do chá em suas obras, como A Fantástica Fábrica de Chocolate), o ritual tem direito a toalha de mesa enfeitada, flores,  xícaras de porcelana e infusões coloridas. “Como quero enriquecer a conversa, separo os alunos em quartetos e eles têm de descobrir por que estão reunidos naquele grupo - ou seja, qual o denominador comum de cada obra que foi lida os conecta? Será o mesmo autor, o gênero, a estrutura do texto, as características da personagem principal, o estilo da ilustração? Todos adoram a proposta. As crianças aprendem pela própria literatura e não apenas pelo conteúdo escolar”, entende Regina.

Desafios no Fundamental II

No Fundamental II, e, mais tarde, no Médio, é comum ver cada vez menos práticas de incentivo à literatura. Com o aprendizado de conteúdos mais sistematizados e, em alguns casos, já focados no Enem, professores e alunos se afastam da leitura por prazer. “É verdade que queremos formar leitores mais potentes ao longo da escolaridade. Para isso, precisamos, sim, trazer obras desafiadoras, o que não significa abandonar os alunos nesse momento”, assegura Andréa Luize, coordenadora pedagógica do Instituto Vera Cruz. A mediação torna-se crucial para que os estudantes tenham maiores chances de se apropriar dos textos e, consequentemente, seguir sozinhos. Cabe ao educador criar mecanismos que ambientem os alunos na narrativa. Valem grupos de estudo sobre uma pré-seleção de obras literárias, analisando semelhanças e diferenças, rodas de leitura entre colegas, leitura compartilhada (na qual o professor ajuda na interpretação) e outras estratégias que vão garantir o apoio necessário ao aluno para ele se tornar um leitor cada vez mais potente, na escola e fora dela

5 ESTRATÉGIAS PARA INCENTIVAR A LEITURA

Crie uma rotina
Vale visitar a biblioteca, fazer leitura compartilhada ou ler em voz alta com regularidade.

Escolha x mediação
As crianças devem ganhar autonomia, mas o professor também pode intervir, ampliando o repertório e a qualidade

Comunidade leitora
Quando colegas trocam indicações, cria-se uma comunidade leitora, o que amplia o sentimento de pertencer ao grupo.

Bibliotecas
Incentive o uso desses locais públicos. Ao explorar o espaço, a criança concebe que existe um vasto universo literário - e que ela faz parte dele.

Livro para casa
Conquiste a parceria da família: a leitura compartilhada enriquece as relações, além de mostrar que a leitura não é só na escola.

Fotos: Ricardo Lima

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