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Terapia Online é nova alternativa para velhos problemas

A psicoterapia online vem se popularizando como uma alternativa para quem não encontra assistência profissional por perto ou não quer se deslocar

POR:
Ana Luiza Mano, Ana Cristina Sério e Luiz Mello Gallina
Crédito: Getty Images

Já reparou como passamos cada vez mais tempo online, seja por lazer ou trabalho? De acordo com a União Internacional de Telecomunicações (UIT), 4 bilhões de pessoas estão conectadas à internet ao redor do mundo, o que representa um pouco mais de 51% da população mundial. No Brasil, são cerca de 122 milhões de pessoas, ou seja, 59% de todos os brasileiros. Destes, apenas 26% residem em áreas rurais, segundo a pesquisa TIC Domicílios, divulgada em 2018 pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br). Essa disponibilidade de acesso à internet ampliou as possibilidades de resolvermos uma série de questões do cotidiano sem a necessidade de “estar lá”. Faz sentido, portanto, que a busca por uma modalidade de psicoterapia diferente dos tradicionais encontros em consultórios esteja se popularizando: o atendimento psicológico online.

Esta alternativa aparece como possibilidade para aqueles que por alguma razão não podem comparecer a um consultório de maneira presencial.

Os serviços de aconselhamento online não são exatamente uma novidade. Em 1965, Joseph Weizenbaum, cientista na área de Inteligência artificial do Massachusetts Institute of Technology (MIT), lançou o primeiro chatterbot, “ELIZA”, que através de sua programação atuava como terapeuta, reagindo de maneira imparcial à fala dos usuários. Em 1986, o serviço gratuito “Perguntem ao Tio Ezra” foi testado por estudantes da Universidade Cornell, em Nova York (EUA). Criado pelo psicólogo Jerry Feist e pelo desenvolvedor de programas Steve Worona, foi um sucesso tão grande que o serviço durou 26 anos, expandindo-se e respondendo em torno de 20 mil perguntas feitas por usuários de mais de 30 países.

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A razão para o sucesso na época responde a algumas questões de hoje. Diante da possibilidade de utilizar uma ferramenta anônima aberta a questionamentos sem julgamentos, as pessoas enviavam perguntas i?ntimas sobre amor, sexualidade, dificuldade na criação de filhos e até mesmo suicídio. Também eram frequentes as perguntas a respeito de aspectos cotidianos, como "de onde veio o nome cachorro-quente?". Imagine um buscador Google com outras funções.

Até 1995, os serviços internacionais de saúde online eram, em sua maioria, gratuitos. Leonard Holmes, psicólogo clínico, foi o primeiro profissional da categoria a receber pagamentos para responder perguntas relativas à saúde psicológica pela internet. Já o psicólogo David Sommers ganhou fama por estrear um modelo de terapia online, dando atendimento através de e-mails protegidos, videoconferência e chats em tempo real a mais de 300 pessoas no período entre 1995 e 1998. Este é o caso mais antigo e que guarda similaridades com o modelo de psicoterapia praticado hoje via internet.

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A prática da terapia online hoje está se popularizando em diversos países. O programa gratuito do site Mental Health Online, elaborado pelo Centro Nacional de eTerapia da (NeTC) da Universidade de Swinburne é financiado pelo Departamento Federal de Saúde da Austrália.

No Brasil, onde a internet começou sua jornada de popularização a partir de 1995, a ampliação do acesso à rede deu lugar a serviços como a experiência pioneira de Rosa Maria Farah, Ruth Gelehrter da Costa Lopes e Lorival de Campos Novo na Clínica Psicológica da PUC-SP. Esses três professores fundaram dentro da universidade o Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática (NPPI) com o objetivo de acolher as solicitações de ajuda que chegavam via e-mail. As respostas iniciais orientavam a busca de psicoterapia presencial; com o passar dos anos, o serviço foi ganhando reconhecimento em nível nacional e a demanda cresceu exponencialmente.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP), acompanhando o crescimento da quantidade de psicólogos oferecendo consultas online e as informações da mídia a respeito deste tipo de serviço, iniciou um processo de regulamentação de atividades pela internet para evitar que serviços de qualidade questionável fossem oferecidos à população. Entre 2000 e 2018 foram produzidas quatro resoluções para definir parâmetros para o atendimento online no Brasil. Estas regulamentações contribuem para que o crescimento dos serviços psicológicos via internet seja visto com maior credibilidade. Segundo a resolução Nº 011/2018 do CFP, o profissional de Psicologia está autorizado a realizar atendimentos psicológicos (avaliação, orientação e/ou intervenção em processos individuais e grupais) por meio do uso de tecnologias de informação e comunicação. Esses serviços podem ser prestados de forma síncrona (as trocas “ao vivo” de mensagens de texto e as conversas em áudio e/ou vídeo) ou assíncrona (na qual terapeuta e paciente trocam mensagens cujo tamanho e duração variam de acordo com as possibilidades e necessidades de cada caso).

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Usuários brasileiros de smartphone navegam majoritariamente por aplicativos de redes sociais e de troca de mensagens, o que evidencia a importância da ferramenta para comunicação no tratamento. Segundo relatório da empresa norte-americana Akamai, a velocidade média da internet no Brasil é de 3,6 Mbps, o que permite o uso de mensagens de texto e, também, a busca por uma terapia online assíncrona. Entretanto, tal velocidade ainda é baixa ao considerarmos a utilização de recursos como chamadas de vídeo e som, visto que a qualidade de transmissão das conversas pode sair prejudicada. Nesse contexto, o atendimento psicoterápico online pode ficar inviabilizado, sendo indicadas as trocas assíncronas. Em localidades do país com acesso a uma velocidade maior, a psicoterapia online síncrona já é realidade.

Ainda que existam condições muito distintas de acesso à internet em nosso país, o número de profissionais devidamente credenciados para a realização de atendimentos online cresceu na plataforma e-Psi do Conselho Federal de Psicologia. Iniciado em novembro de 2018, o cadastro conta com aproximadamente 3,3 mil profissionais, o que representa aproximadamente 1% do total de 336.566 psicólogos habilitados pelo CFP (embora nem todos da categoria trabalhem com atendimento clínico). A estimativa é que esse número possa crescer bastante ao longo de 2019.

Em favor do atendimento online pesam fatores como a falta de flexibilidade de horários, locomoção nos grandes centros urbanos e até mesmo impossibilidade de deslocamento para quem vive em áreas com pequena ou quase inexistente oferta de atendimento psicológico. Entram na conta os casos em que é preciso mudar de cidade, estado ou país e há um desejo de continuar o processo terapêutico com o mesmo profissional. Brasileiros expatriados que não dominam o idioma e/ou a cultura local, sentem-se mais confortáveis em realizar atendimentos online com profissionais brasileiros.

Alguns quadros de sofrimento, como pessoas com síndrome do pânico, fobias sociais e questões que dificultam a locomoção (obesidade mórbida, por exemplo) também podem ser beneficiados pela psicoterapia online.

Quando se questiona se o atendimento online tem as mesmas possibilidades de alcance que o presencial, o trabalho do psicólogo norte-americano John Suler traz alguns esclarecimentos: a interação via internet traz uma experiência na qual algumas pessoas “rompem” barreiras emocionais por meio do uso desta ferramenta como espaço de comunicação, possibilitando assim uma expressão mais intensa de seus sentimentos e pensamentos ("O Efeito da Desinibição Online”, 2004). Essa noção se aproxima muito do que da experiência clínica nos atendimentos online: frequentemente pacientes revelam suas emoções numa velocidade maior do que ocorre na clínica tradicional. Muitos explicam que se sentem mais confortáveis de poder falar de temas tão íntimos estando dentro da própria casa, ou num local que traz vários sentidos e significados emocionais. Isto também oferece ao terapeuta o acesso visual a uma realidade mais concreta que não se consegue na clínica presencial, ainda que esta visualização não seja necessariamente essencial ao tratamento.

A Psicologia participa, portanto, das descobertas e aprendizados de um momento muito importante: a vivência na era da velocidade de comunicação e informação. A oferta de psicoterapia online é, portanto, um avanço fundamental que acompanha as demandas da vida moderna.

Ana Luiza Mano, Ana Cristina Sério e Luiz Mello Gallina  são psicólogos e realizam atendimento psicoterapêutico no site Psicólogos da Internet

 

 Referências Bibliográficas


A FOND FAREWELL TO DEAR UNCLE EZRA. Disponível em A Fond Farewell to dear Uncle Ezra. Acesso em 22 de março de 2019.

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GOMÉZ, Juan (2008). Joseph Weizenbaum, pionero de la informática. Jornal digital ElPaís. Acesso em 20 de março de 2019.

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SULER, J. The Online Disinhibition Effect. CyberPsychology & Behavior, New Jersey (Estados Unidos da America), v. 7, n. 3, p. 321-326, 2004. Acesso em 20 de março de 2019.

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