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Em foco | Educação Indígena


Por: Indiara Bessa

Professora do Amazonas luta pela Educação Indígena

Em uma ocupação de Manaus, Cláudia Baré criou a instituição que ensina a crianças e jovens a língua dos povos tupi-guarani e a cultura dos seus ancestrais

A educadora Cláudia Baré, de 40 anos, é uma liderança no Parque das Tribos, ocupação indígena na zona oeste de Manaus onde vivem 1,2 mil pessoas. No meio do grande terreno, cuja propriedade ainda está em disputa judicial, a educadora acolhe diariamente mais de 50 crianças e adolescentes da comunidade, de várias idades, em um barracão de madeira com chão batido e sem divisórias. É lá que, desde 2015, funciona a escola que ela mesma fundou. E não é uma escola qualquer. Trata-se do Centro de Educação Escolar Indígena Wakenai Anumarehit: na língua arawak, Wakenai significa “a origem”, e Anumarehit quer dizer “grande guerreiro”. Nada mais apropriado para um espaço de resistência dos povos da floresta, reduto das culturas tradicionais que correm o risco de desaparecer na vida urbana da capital.

Na escola do Parque das Tribos, os alunos aprendem nheengatu, língua indígena falada pelos povos tupi-guarani. Em lugar dos conteúdos convencionais de Ciências, eles têm aulas sobre as principais plantas medicinais da região. Em vez da geografia brasileira, eles trabalham na produção coletiva de um mapa da ocupação, dividindo o local por etnias e línguas. Os estudantes também têm contato com as danças tradicionais dos povos da Floresta Amazônica. São, pelo menos, duas horas de aula, de manhã e à tarde.

Cláudia também estabelece um vínculo com os pais: “Eu falo para eles: conversa mais com o teu filho na tua língua, ensina dança indígena... Porque a criança não vai aprender de um dia pro outro. É tudo questão de paciência”.

A cantora indígena e artesã Elizete Mapaeruna, da etnia tikuna, optou por colocar todos os quatro filhos no Wakenai Anumarehit. “Eles estudam em uma escola regular pela manhã e à tarde ficam com a professora Cláudia. É muito importante para mim que eles saibam falar a minha língua”, disse. “Aqui nós estamos vivendo na nossa cultura e mostrando para as pessoas de fora que a gente existe neste planeta.”

Como conta Elizete, o centro não substitui a Educação regular que os estudantes recebem em instituições próximas à comunidade. Na verdade, a iniciativa de Cláudia tenta suprir lacunas de uma escola pública que nem sempre considera as diferenças culturais e regionais.

Estrangeiros na própria terra

Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Amazonas é o estado com o maior número de indígenas da Região Norte – 55% de toda essa população. Boa parte vive na capital. Mesmo assim, as culturas desses povos ficam à margem da escola. “O movimento indígena organizado vem discutindo essa política de Educação diferenciada há muito tempo. Mas os nossos governantes querem implantar essa homogeneização. Essa política tem dizimado várias línguas e várias culturas”, protesta João Paulo Barreto, doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e indígena da etnia tukano.

A Secretaria Municipal de Educação de Manaus presta assessoria a 18 centros municipais semelhantes aos de Cláudia e a quatro escolas indígenas. “Os centros são espaços não convencionais, pertencentes às próprias comunidades, que trabalham especificamente com a língua e a cultura das diversas etnias”, explica Glademir Sales dos Santos, assessor técnico da gerência de Educação Indígena da secretaria.

O centro educacional do Parque das Tribos já conta com esse apoio. Cláudia, inclusive, passou a receber salário. O problema é que, do ponto de vista formal, o local ainda não pode ser reconhecido como parte da rede pública. O projeto de lei que abriria essa possibilidade ainda está em tramitação na Câmara Municipal. Por isso, as dificuldades ainda são muitas. “A prefeitura só disponibilizou uma vaga, que é a minha, e aí nós temos às vezes 80 pessoas aqui. Fico sobrecarregada. Se contratassem alguém para me ajudar facilitaria muito, e, na comunidade, temos pessoas para isso”, diz a docente. Além da falta de funcionários, o espaço não recebeu nenhuma melhoria. Cláudia conta que chegou a serrar as pernas de algumas cadeiras para adaptá-las às crianças menores.

Além disso, ainda é preciso conviver com o preconceito. Apesar de viver em uma área de predominância indígena, a população que vive nos arredores do Parque das Tribos se sente discriminada pelos vizinhos. “Sempre querem nos menosprezar. Sempre aparecem um ou dois que falam ‘ah, esses índios ficam pisando no meu terreno’. A gente sente, e muito, o preconceito, mas eu não me deixo abater por isso”, diz a educadora.

Lutas

Cláudia é da etnia baré (daí o seu sobrenome) e nasceu em Manaus. Como não chegou a morar em aldeias, os primeiros ensinamentos de sua cultura ancestral vieram do pai, que foi educado por padres e graduou-se pedagogo pela Ufam. Em uma das escolas criadas por ele, a professora aprendeu a ler e escrever. Antes de decidir pela Educação, ela trabalhou como microscopista e auxiliar de laboratório. Em um estágio no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), visitou, pela primeira vez, comunidades indígenas no interior do estado. Depois de conhecer o atual companheiro, Joilson Paulino – que já era professor e atuava na luta pela implementação de uma modalidade específica para esses povos –, Cláudia finalmente optou por cursar pedagogia na Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Sem ter onde morar, a professora, o marido e os cinco filhos viviam de favor na casa de parentes até conhecerem o Parque das Tribos, a ocupação liderada pelo cacique Messias Kokama. Um levantamento linguístico feito no local em 2016 identificou falantes de 14 línguas, pertencentes a mais de 30 etnias. “Falei com o cacique sobre a ideia de fazer uma escola e juntar as crianças, para elas não ficarem assim, à toa. Aí ele me cedeu a casa abandonada onde estamos”, conta a educadora. A realização do projeto – e a existência da comunidade – quase foi interrompida pela ação de reintegração de posse de um suposto proprietário do terreno. Ainda em 2014, o governo ordenou que fossem retiradas todas as casas. Houve uma intervenção violenta da polícia, que terminou com a prisão do cacique Messias e de outros três indígenas. Cláudia se lembra da história com lágrimas nos olhos: “Levou três anos para minhas filhas ficarem bem. Elas não podiam ver ninguém fardado que tremiam, queriam chorar. Nunca na vida a gente pensa que vai ser tratado como bicho. A polícia veio hostilizando todo mundo, bateu em muita gente que não merecia”.

Até hoje, ninguém conseguiu provar na Justiça que era, de fato, dono da área. Com a instalação de luz elétrica e as obras de asfaltamento, a Prefeitura de Manaus já está em processo de reconhecimento do Parque das Tribos como o primeiro bairro indígena da capital amazonense. Enquanto isso, o Centro de Educação Wakenai Anumarehit resiste, com a força de Cláudia e de toda uma comunidade que luta para entregar aos filhos a herança que receberam de seus ancestrais.

Fotos: Christian Braga