Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias
Saiba | Coluna Felipe Bandoni


Por: Felipe Bandoni

Separar os alunos por nota pode ser tiro no pé

Divisão por desempenho pode ampliar desnível, afetar motivação e piorar o clima escolar

Conheço escolas que classificam os alunos conforme o desempenho acadêmico, separando-os em salas diferentes. Há professores que defendem essa divisão, argumentando que o trabalho fica facilitado em turmas mais homogêneas.

Em uma dessas escolas, acompanhei a implementação desse modelo. Os docentes combinaram de realizar um trabalho diferenciado com cada turma, porém, na prática, isso não ocorreu. Em pouco tempo, os professores passaram a dar a mesma aula em todas as salas, fugindo da proposta inicial. As provas também eram as mesmas, e o desnível que já existia se ampliou. As queixas sobre as salas com pior desempenho começaram a se acumular. Professores começaram a constatar que a discussão coletiva era mais pobre, pois não havia alunos participativos nessas turmas. Os alunos passaram a se referir a elas como “salas dos burros”. Problemas de autoestima e desmotivação aumentaram, chegando a ocorrer evasões. As salas que tinham piores resultados eram também as que tinham mais ocorrências disciplinares. Também havia questões nas salas com melhores notas. Os alunos eram individualistas, negavam-se a fazer trabalhos em grupo e havia conflitos com as outras turmas. Os adolescentes reproduziam, entre si, a estrutura proposta a eles e, apesar das boas notas, sua postura gerava insatisfação nos educadores.

Após alguns anos de reincidência desses problemas, a direção propôs misturar as turmas, no que foi apoiada quase unanimemente pela equipe. Apesar da resistência inicial de alguns estudantes e dos pais, a mudança vingou. Surgiram atividades com grupos colaborativos (que mesclam alunos com habilidades e proficiência diferentes), e os professores trouxeram resultados mais positivos na aprendizagem. As discussões coletivas avançaram, pois havia alunos participativos em todas as turmas, e o clima geral na escola melhorou. Essa experiência evidencia que o desempenho acadêmico é apenas uma das variáveis a ser considerada na organização das turmas. Para ter um clima saudável, colaborativo e que potencialize a aprendizagem, é preciso considerar também outros aspectos.

Felipe Bandoni é professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz e no Acaia Ateliescola, em São Paulo

Foto: Tomás Arthuzzi/NOVA ESCOLA