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"O que o professor precisa saber é como engajar o aluno e dar uma boa aula"

Com experiência de sala de aula e uma atuação na iniciativa privada, o secretário do Paraná Renato Feder tem planos ambiciosos para a Educação no estado

POR:
Soraia Yoshida

Em 2019, NOVA ESCOLA vai publicar entrevistas com os secretários de Educação dos 26 estados e do Distrito Federal para ouvir os planos, perspectivas e as opiniões de quem lidera a pasta pelo país.

O secretário estadual de Educação do Paraná, Renato Feder   Crédito: Lucas Magalhães

Renato Feder gosta de lembrar que está ligado à Educação desde cedo. “Sou professor desde os 17 anos”, afirmou o novo secretário de Educação do Paraná em sua posse em janeiro deste ano. Renato foi professor da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e lecionou Matemática por dez anos, além de ter sido diretor de escola por oito anos. Durante um ano, ele foi assessor voluntário da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. “Sei que o trabalho do professor não é fácil e precisamos focar nele, para que se sinta prestigiado e valorizado e assim consiga dar uma boa aula”, disse.

“Dar uma boa aula” é uma frase que está presente nas conversas com o novo secretário de Educação do Paraná. Ele vem visitando escolas e secretarias municipais

Segundo ele, sua gestão vai se concentrar em dar apoio à estrutura, aos diretores de escola para que estes possam apoiar os professores. “Sozinho é muito difícil. Quero transformar o professor numa das profissões mais valorizadas do estado, pois somente com o professor se sentindo valorizado é que temos uma educação de qualidade”, completou em seu discurso.

Aos 40 anos, Renato Feder é graduado em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e mestre em Economia pela Universidade de São Paulo (USP). Na paralela, ele atuou como empresário no setor de tecnologia e era CEO da Multilaser, uma das maiores empresas brasileiras no segmento de eletrônicos e suprimentos de informática.

Renato Feder vai comandar, na prática, duas secretarias que foram unidas em uma só no governo de Carlos Massa Ratinho Júnior: Educação e Esportes. Para ele, a junção permitiria incentivar mais as práticas esportivas entre crianças e jovens.

Para falar sobre seus projetos, planos e prioridades, Renato Feder conversou com NOVA ESCOLA em fevereiro. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

 

Nova Escola: Na sua opinião, qual é o grande desafio que a Secretaria de Educação do Paraná enfrenta hoje?
Renato Feder: O grande desafio é o professor se sentir valorizado e apoiado na hora de dar aula. Eu entendo que a Educação passa por muitos pontos, mas o principal momento de aprendizagem é a aula – começa no minuto 1 e termina no minuto 50, e aquela interação pode ser produtiva, gostosa, de aprendizado, de troca, ou pode ser bagunçada, desinteressane, com alguns alunos aprendendo e outros não. E quando o professor entra para dar aula, o ambiente é muito desafiador. Então a gente tem que ajudar o professor em dar uma boa aula.

Quando falamos em dar uma boa aula, estamos falando em valorização do professor, portanto também estamos falando em formação inicial ou continuada. Como você pretende atacar esses pontos? Onde está o problema maior?
A secretaria tem que fornecer uma boa formação continuada e adequada aos tempos modernos: dar muitos cursos, aulas e atividades, oficinas para preparar o professor. Isso está na nossa pauta. O que a gente chama de oficinas são atividades de formação em que o professor participa, pois é muito mais gostoso aprender fazendo do que aprender escutando alguém falar. Outro pilar é a descentralização da formação. Queremos dar mais autonomia ao diretor para que a escola possa buscar cursos que atendam sua própria realidade. Se a escola precisa de um tipo de formação ou o diretor e o coordenador entendem que um professor ou um grupo de professores precisa de uma formação mais didática para certa disciplina, então vamos atrás dessa formação. Outros professores precisam de uma formação que envolva renovar conhecimento sobre determinada disciplina, como Matemática, ou então como trabalhar projetos, vamos buscar essa formação. A secretaria tem que descentralizar suas formações.

Essas formações seriam dadas pela secretaria ou por empresas através de parcerias?
As duas coisas. Poderiam ser parcerias com uma empresa pagas pela secretaria paga ou dadas pela secretaria. A secretaria fornece diretamente uma parte dessa formação e na outra ponta damos autonomia e recursos para que a escola possa escolher sua formação. Isso está nos planos.

Tem alguma parceria já fechada?
Ainda não. Queremos construir isso em 2019 para as escolas poderem usar a partir do início de 2020.

Olhando para a Base, imagino.
Sim, totalmente. Agora, quando falamos em valorização do professor, não é só formação. Tem pelo menos mais dois capítulos importantes. Um é divulgar os bons exemplos. Tivemos a visita do professor Claudinei [Ferreira Gundim, que leciona História e Geografia em um pequeno distrito rural de Nova Tebas, no interior do Paraná], um exemplo lindo de professor que fez um trabalho maravilhoso. Ele usava um aplicativo gratuito para as crianças aprenderem história e conseguiu engajar a escola inteira. O trabalho foi tão bacana que ele foi escolhido o melhor do Brasil no Prêmio Educador Inovador. Então, temos que valorizar trabalhos como esse, os bons exemplos. Agora, o mais importante para mim é o professor não se sentir sozinho e sim que o diretor e o pedagogo estão junto com ele – preocupados com a evolução profissional dele, o avanço da turma, a evolução do trabalho em sala de aula. Isso também passa pela motivação e valorização do professor. Ter uma escola que esteja preocupada em elevá-lo, ajudá-lo. Se ele está com dificuldade, se ele tem uma turma difícil, que o tipo de apoio a escola pode dar? O ano letivo é longo e pode ser muito extenuante se a turma e aula não estão rendendo. Então, a escola precisa ajudar nisso.

Pelo que estou entendendo, o gestor educacional tem um papel muito importante no seu programa.
A frase “O diretor é a alma da escola” –  eu acredito nela. Ele vai ser o “capitão” – não sei se é a palavra ideal, mas o líder mesmo – que engaja e cuida da escola. Eu acredito em dar autonomia para as pessoas. O diretor está muito amarrado. O que se pede dele hoje em termos de documentos é muita coisa, um controle excessivo. À medida que aquele diretor entregar resultados, na frequência dos aunos, absenteísmo baixo de professor e avanço na aprendizagem, você dá ainda mais autonomia. Se ele quer dar xadrez na escola, tudo bem. Se quer dar música, teatro – como secretaria, temos que dar um jeito de te apoiar. A gente acredita nessa mudança e que os diretores vão seguir esse caminho – ser um diretor líder, que valoriza e acompanha seu time. Estamos alinhando isso com todos os diretoress do Paraná, para que eles passem a ter um olhar muito pedagógico e de parceria com o professor.

Quando falamos dos professores e da valorização, sempre vem a questão do salário. Pensa em instituir programas de bônus ou alguma iniciativa nesse sentido?
Tem coisas que eu acredito e outras nem tanto. Bônus, eu não acredito. Eu acredito muito em promoção. O que eu mais quero fazer é promover os professores para dar motivação. Precisamos promover os professores de acordo com a motivação deles e o resultado que estamos observando, se os alunos estão aprendendo. Pensando numa gestão de quatro anos, queria entregar dezenas de milhares de promoções neste período.

Pensando nos programas de curto, médio e longo prazo, que tipo de ações podemos esperar no Paraná?
O que vai ter agora é esse apoio ao professor, que nós estamos estruturando. Temos a secretaria, os núcleos regionais de Educação e as escolas. No médio prazo, o núcleo pedagógico precisa apoiar mais a escola. A gente quer que o núcleo divida os seus profissionais para que a gente possa visitar pedagogicamente a escola e ver como está o aprendizado e as aulas. Outra questão é a BNCC. O Paraná foi o primeiro estado a ter a sua Base homologada pelo MEC no final de 2018. O próximo passo seria a matriz e depois o material baseado na BNCC. O que queremos fazer em 2019 é construir um material pedagógico juntamente com a nossa rede para uso em sala de aula em todas as escolas do Estado.

O material será desenvolvido ao longo deste ano e implementado em 2020?
Sim. Vai ser um desafio bem grande conseguir desenvolver um material em um ano. Em geral, outras redes demoram dois, três ou quatro anos para desenvolver seu material. A minha meta é fazer neste ano, em 2019, e ter esse material em 2020 rodando nas escolas. 

Como o sr. enxerga a implementação da BNCC nas escolas?
Penso em dividir em duas etapas. A primeira é uma pesquisa com a rede inteira para ver que tipo de material os profissionais da rede gostariam de ter. Quais características esse material envolve? Vai ser pensado aula a aula, para uma semana ou por habilidade? Um material com mais atividade ou conteúdo? Mais texto ou mais projetos? Vamos perguntar para a rede e ter uma luz. Para construir o material, não podemos contar com 70 mil professores, precisamos escolher talvez mil, um pouco mais ou um pouco menos, para construir conosco e trabalhar para que esse material fique pronto. Com o núcleo do material feito, envolveremos mais professores para afinar o material. Vamos validar e afinar com a rede, o que deve acontecer ais para o final do ano, que é a última fase.

Falando em aprendizagem, o Paraná está bem no Ideb.
Bem, não. Estamos em sétimo. 

Existe uma ambição de ser o primeiro?
Existe a ambição de aumentar muito o aprendizado. Muito. Quando a gente vê a nota do nosso Ensino Médio – 3,66 para ser mais exato – se você pensar que a escala vai de 0 a 10 e estamos com média de 3,66, eu diria que é muito ruim. A gente precisa melhorar muito a Educação no Paraná. Eu gostaria, sim, de ter o Paraná como uma referência nacional. E que essa nota suba alguns pontos durante a minha gestão, acho que isso é possível.

Quais são os maiores problemas a encarar no Ensino Médio?
No Ensino Médio, a evasão é muito grande. Por quê? Porque não estamos conseguindo fazer com que a aula seja atrativa e “engajante” e que a aprendizagem flua na aula. O aluno, que nessa etapa tem mais autonomia, perde o interesse e acaba evadindo. Ao valorizarmos o professor de um jeito que ele se sinta apoiado e percebendo que a secretaria e a escola estão junto com ele para que a aula seja mais gostosa e produtiva, vamos ter essa corrente positiva – e o aluno vai ficar. 

Considerando o novo Ensino Médio, a criação de itinerários formativos e o Ensino à Distância (EAD), qual é a sua visão?
Eu gosto do novo modelo. Ele dá flexibilidade. Os cursos técnicos e profissionalizantes são uma fonte muito grande de interesse e de demandas sociais. Precisamos aumentar muito a oferta e qualidade desses cursos, através de parcerias, treinamento e capacitação. Isso dá para fazer. Outro capítulo já de médio prazo seria adequar os cursos à Base Nacional do Ensino Médio, com suas vertentes, como o empreendedorismo, o aspecto social. Agora, o que precisamos para isso? Precisamos ter um diretor e um quadro que conheçam e queiram fazer bem feito. Essa é a minha prioridade: ter pessoas engajadas que queiram fazer esse trabalho e que a gente esteja acompanhando de perto.

Como está pensando em levar o modelo para frente?
Eu gosto muito das palavras ajudar e acompanhar. O que é exatamente acompanhar? Por exemplo, frequência de aluno. É um acompanhamento diário. Uma escola que está indo mal, degringolando, você vê isso na frequência dos alunos. E não precisa esperar uma Prova Brasil para perceber isso. Quando o diretor adota uma atitude de liderança e de apoio – seja no Ensino Médio comum ou já no novo formato – você vai ver uma maior frequência de alunos e um professor faltando menos também. Se o clima melhora na escola, o professor se sente menos frustrado e, portanto, menos estressado – e temos menor absenteísmo. Se o diretor não está conseguindo resolver essas duas questões de frequência de aluno e absenteísmo, você conversa com esse diretor e acompanha. Pergunta a ele o que está acontecendo, escuta, avalia e vê em que pode ajudar. O diretor vai perceber que a secretaria e o núcleo pedagógico estão olhando para ele e dando uma diretriz, dizendo que a aula precisará ser mais interessante para o aprendizado fluir do professor para o aluno. Esse encaminhamento vai se fortificar, os alunos vão para a escola e a tendência é que esse aprendizado aconteça.

Pensando na Base Docente, que estabelece as características desse professor mais engajado e apropriado da linguagem digital, que docentes teremos na rede do Paraná?
Eu penso o seguinte: às vezes, a gente pensa que o professor é um Super Homem e complica demais a vida dele. Se o professor for seguir tudo o que as teorias, normas, registros e documentos lhe pedem, é impossível. Cada professor tem seu método. E aí não adianta gerar mais complexidade. É uma besteira. O que o professor precisa saber é como engajar o aluno e para isso ele precisa testar. Se o professor é mais conteudista, não adianta falar para ele agora ser construtivista. Ele tem essa linha, só que ele tem que buscar o engajamento dos alunos – incluindo atividades para entender o aluno e fazer com que ele participe da aula.  Você tem uma linha diferente, de outros autores, siga sua linha, professor. O importante é engajar. O que fazer com a Maria que está no 9º ano e mal sabe ler? Ou um aluno que apanhou do pai ontem, o que fazer para que ele sinta que o professor está olhando para ele e dando a ele a chance de participar? Quando falamos em corpo docente, o que mais falta são demonstrações práticas de como engajar uma turma a dar uma aula gostosa. É a prática em sala de aula, é isso o que o professor mais precisa.

Sem se preocupar com recursos, qual é o seu sonho para a Educação no Paraná? Tem algum modelo de referência?
Meu sonho seria ter um diretor ganhando muito bem. A secretaria não é nada sem o diretor. Eu posso ter aqui a melhor secretaria do mundo com todas as ferramentas, toda a gestão, todos os instrumentos, 5 mil funcionários, com a melhor escola de formação, triplicar o orçamento. Se o diretor não estiver a fim, nada acontece. A minha secretaria dos sonhos passa a ter o diretor dos sonhos – um diretor realmente comprometido, valorizado e sabendo do seu papel. Assistindo aula junto com o professor, olhando no olho e dizendo: “Professor, eu vou te ajudar a ser melhor. Vou estar com você na sua aula para o que você precisar para essa turma aprender as habilidades que ela precisa. E qualquer dificuldade que você tiver, eu vou conseguir te ajudar ou pelo menos vou estar ao seu lado. Se eu não conseguir, eu vou dar o meu melhor por você”. E depois ter um professor que ame dar aula, que essa aula seja produtiva e ele, valorizado. Que ele termine o dia dele não estressado, mas orgulhoso. Eu fui professor por 12 anos, muito menos do que milhares de professores, mas nesse tempo eu aprendi muito bem o que é sair orgulhoso de uma aula, feliz e dizendo que foi um dos melhores dias da sua vida. E a secretaria dos sonhos é aquela em que eu consiga apoiar, treinar, capacitar, motivar, levá-lo para dar essa aula dos sonhos.

Alguma referência?
Visitei as redes de Israel, Finlândia e Estados Unidos. Na Finlândia o que me surpreendeu foi que eles não tinham nenhuma solução mágica, nem grandes tecnologias e inovações. Eram professores apaixonados que faziam seu trabalho bem feito e iam para a escola dar uma boa aula. Nos Estados Unidos, o que me surpreendeu foi a transparência, a relação entre o diretor e o professor, que era de muita interação e com muito feedback. Algumas salas de aula não tinham paredes e as aulas eram bem tranquilas. Em Israel tinha escolas com mais tecnologia, mais plataformas digitais a serviço da escola. Foram bons exemplos que eu vi.

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