Tempo integral: 5 ações que fizeram o sucesso das escolas de PE

Política adotada pelo estado há mais de dez anos atinge 412 escolas de Ensino Médio e virou referência nacional. A meta agora é universalizar o acesso em Pernambuco

POR:
Laís Semis

A repórter viajou a convite do Instituto Natura e do Instituto Sonho Grande para conhecer as Escolas de Referência em Ensino Médio (EREM) da rede estadual de Pernambuco. Os institutos realizam apoio técnico e de pesquisa em parceria com a Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco. Não há apoio financeiro envolvido. As escolas foram financiadas inicialmente pelo Governo do Estado e pelo Banco Mundial.

O Mural dos Sonhos da EREM Santa Ana, em Olinda (PE). Crédito: Danilo Giunchetti

Há alguns anos, os alunos da EREM Santa Ana, em Olinda (PE) desenvolveram uma tradição. Na parede próxima à quadra de esportes, os estudantes do Ensino Médio escrevem com tinta seus nomes e os cursos nos quais querem se formar na faculdade. Esse espaço é chamado de Mural dos Sonhos. De acordo com funcionários da escola, quando algum estudante é aprovado no vestibular para ingressar na universidade, ele retorna à instituição para tirar foto no muro, ao lado do seu “sonho realizado”.

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A EREM Santa Ana é uma dessas escolas que tem incentivado os jovens alunos do Ensino Médio a sonhar com um projeto de vida, desenvolver habilidades e competências socioemocionais, como autonomia e resiliência. No pacote, elas investem em modelos mais atraentes e eletivos de ensino para incentivar as potencialidades, a autoestima e protagonismo dos adolescentes. Não faltam exemplos de alunos e ex-alunos que superaram suas expectativas. A boa notícia é que a EREM Santa Ana não está sozinha.

Nos últimos 10 anos, as Escolas de Referência em Ensino Médio (EREM) em Pernambuco se multiplicaram e, em 2019, elas já somam 412 unidades. Atualmente, 57% das vagas do Ensino Médio na rede pública do estado são em escolas de tempo integral ou semi-integral. “Pernambuco é o estado fora do padrão [em termos de Educação integral] porque é onde está mais avançado”, diz David Saad, diretor-presidente do Instituto Natura, que trabalha com suporte técnico para programas de Educação em tempo integral. A proporção de escolas em tempo integral é consequência dos bons resultados que o modelo tem apresentado.

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Dados indicam que essas escolas estão construindo um modelo que atende melhor às necessidades de uma juventude diversa e que pode encontrar na escola uma oportunidade para mudar de vida. “Temos avanços importantes e um trabalho muito bem estruturado, que acabou inspirando outros estados”, afirma o secretário estadual de Educação Fred Amâncio. As taxas de distorção idade-série no último ano do Ensino Médio passaram de 57%, em 2010, para 27%, em 2016. No mesmo período, a taxa de aprovação saltou de 78,2% para 91%. E entre 2007 e 2016, a evasão foi de 24% para 1,7%.

Os números são resultado da continuidade de políticas públicas e investimento até aprimorar o modelo das escolas de tempo integral e consolidar sua expansão em Pernambuco. A meta é universalizar o acesso. “O nosso conceito de universalização não é chegar em 100% das escolas”, explica Maria Medeiros, secretária-executiva de Educação profissional da secretaria  de Pernambuco. “A nossa proposta é oferecer oportunidade de matrícula para todos que desejem estudar em uma escola em tempo integral”.

NOVA ESCOLA fez uma imersão de dois dias em quatro unidades das Escolas de Referência em Ensino Médio nas cidades de Recife, Olinda, Paulista e Orobó. Em uma série de reportagens que serão publicadas nas próximas semanas, contaremos um pouco da experiência vivenciada ao longo dessa viagem com o Instituto Natura, Instituto Sonho Grande e a Secretaria Estadual de Educação. Para abrir as experiências, selecionamos cinco ações das escolas de tempo integral de Pernambuco que colaboraram para que o estado se tornasse referência no tema. Confira a seguir alguns dos acertos da política desenvolvida por Pernambuco:

Reconhecer a realidade não para aceitá-la, mas transformá-la

Uma das críticas sobre o modelo das escolas de tempo integral seria a inviabilidade de jovens das camadas mais baixas da população combinarem estudos e trabalho. No entanto, mesmo com aproximadamente 1 milhão de pessoas vivendo em situação de pobreza no estado – como mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/2015) – Pernambuco escalou o modelo para mais de metade do Ensino Médio. “No início, a transformação das escolas em tempo integral envolveu um trabalho de convencimento [da escola a ser transformada e sua comunidade]”, assume o secretário estadual Fred Amâncio. Pernambuco olhou para além da realidade naquele momento. “Hoje, é tão natural que chegamos ao ponto de ter escolas me pedindo para serem transformadas em tempo integral”.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Sonho Grande em sete capitais brasileiras mostrou também que maior do que a necessidade de auxiliar financeiramente suas famílias, os adolescentes buscavam no emprego experiências que a escola não proporcionava. “Vimos que 23% dos jovens trabalhavam, mas só 4% trabalhavam mesmo para ajudar na renda da família”, conta Igor Lima, diretor-presidente do Instituto Sonho Grande. “Do total, 19% trabalhavam porque queriam ter algum dinheiro adicional para si ou porque achavam que o trabalho daria uma formação que a escola não dá”. Ainda que o número de alunos que precisam contribuir financeiramente em casa possa ser menor do que o imaginado inicialmente, eles ainda existem.

Foi visando atender as diferentes necessidades e interesses dos jovens que o modelo foi adaptado em dois outros arranjos: o Ensino Integral em dois turnos e o semi-integral. No primeiro, os alunos encaram as 45 horas semanais do integral, ingressando bem cedo na escola e sendo liberados no início da tarde. No turno da tarde, há uma outra turma que se inicia por volta das 14h e segue até o início da noite, permitindo que os alunos tenham período livre para trabalho durante o dia. Pensando que a maioria dos trabalhos são informais ou de auxílio em casa (como cuidar dos irmãos menores), o modelo atenderia às necessidades. Há ainda a opção de semi-integral, em que os alunos cumprem 35 horas semanais de aula.

Crédito: Danilo Giunchetti

Começar por quem precisa mais e escalar para não criar “ilhas de excelência”

Entre 2004 e 2006, Pernambuco selecionou 13 escolas para adotar o modelo. Nesse período, a avaliação foi de que os Centros de Educação Experimental (CEEs) – que depois se tornariam EREMs – criavam uma disparidade dentro da rede. Enquanto os CEEs obtinham bons resultados, as outras escolas da rede continuavam enfrentando os mesmos problemas de sempre: altos índices de evasão e baixas taxas de aprendizagem e aprovação.

Quando o governo decidiu, em 2008, transformar as escolas integrais em uma política para a reforma do sistema de ensino estadual, a estratégia de implementação do modelo em outras escolas já considerava o desafio da garantia de equidade na rede. A lei complementar estadual nº 125, de 10 de julho de 2008, foi criada para estabelecer as diretrizes dessa política, entre as quais a difusão do modelo de Educação Integral no interior do estado. Com isso, o governo garantiu que todos os municípios pernambucanos possuíssem ao menos uma Escola de Referência de Ensino Médio.

A vulnerabilidade das regiões também foi levada em conta na escolha das instituições. “Dado que o processo de escalar leva alguns anos, começar por quem mais precisa é muito importante para reduzir a desigualdade e dar mais oportunidades para quem precisa mais”, analisa Igor. O presidente do Instituto Natura destaca que essa redução da desigualdade é visível nas avaliações externas nacionais, como o Sistema de Avaliação de Educação Básica (Saeb). “Pernambuco tem a menor desigualdade de aprendizagem em termos de proficiência [entre alunos níveis socioeconômicos diferentes] entre os estados do Brasil”, diz David Saad. 

Ter objetivos e estratégias claras e articuladas

A lei complementar estadual nº 125/2018 determinou finalidades para garantir o desenvolvimento contínuo das escolas de tempo integral. Entre as determinações estão o estímulo às inovações pedagógicas e gerenciais; a oferta de atividades que  influenciem no processo de aprendizagem e também no enriquecimento cultural; a consolidação do modelo de gestão para resultados e aprimoramento dos instrumentos gerenciais de planejamento e acompanhamento; a viabilização de parcerias para colaborar com a expansão do programa e a integração do Ensino Médio à Educação profissional.

Outras determinações da lei garantiriam que a comunidade estivesse engajada com a proposta. A determinação da jornada de trabalho em regime integral para professores, gestores e outros funcionários da escola (como coordenadores de biblioteca e educadores de apoio) é um desses exemplos. Ter um plano de expansão que considerasse os aprendizados dos Centros de Educação Experimental e consolidado em uma lei estadual garantiu a continuidade da política e clareza de objetivos para atingir as metas.

Focar em gestão de qualidade

O acompanhamento dos resultados e aprimoramento do modelo a partir dos dados também colaborou para que o tempo integral se firmasse como uma política de referência para o Brasil. Entre os aperfeiçoamentos estão a criação de escolas de tempo integral de dois turnos e as semi-integrais, assim como programas de capacitação profissional para professores e diretores. Para isso foi implementada a gestão de qualidade integral (GQI), em que uma equipe da secretaria conjuntamente com institutos parceiros, como o Natura e Sonho Grande, visitam escolas para identificar e analisar resultados e indicar pontos de melhoria. As parcerias atuam em diferentes áreas, como apoio na implementação, formação de equipe e análise de resultados.

“A ideia é analisar o que está dando certo ou não para corrigir e impactar não só o desenho geral da política como levar também o diagnóstico individual das escola para que elas possam melhorar”, conta o secretário estadual de Pernambuco. “Não transita dinheiro. É um apoio 100% técnico”, afirma. “Nossa parceria é no sentido de gerar mais conhecimento e mais inteligência do que nós já temos para que a gente possa evoluir”.

Criar oportunidades de dedicação e incentivar professores e gestores

Em seu trabalho no Instituto Sonho Grande, Igor costuma visitar com frequência as escolas de tempo integral. Em suas visitas, ele costuma mapear o que os estudantes mais gostam na escola. “A primeira resposta geralmente é: meu professor”, relata Igor Lima. “E a justificativa é sempre na linha de que o professor conhece os alunos e se preocupa com eles. A questão do vínculo é muito importante”, explica. Grande parte desse vínculo vem com a dedicação exclusiva dos docentes. “Não é nenhum segredo. O vínculo é mais forte porque você está desenvolvendo mais atividades, está mais próximo e conhece mais os estudantes porque convive mais com eles”, avalia Fred Amâncio. Os professores também recebem um incentivo financeiro para se dedicarem exclusivamente a uma escola.

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Como o professor passa 40 horas semanais na mesma escola, ele realiza 1/3 da jornada dedicada às atividades extraclasse na própria escola. “Esse movimento faz com que a formação continuada esteja conectada com a vida do professor.  Isso tem um efeito que não é visível no primeiro ano, mas no médio prazo melhora muito a formação continuada do professor”, defende David. Além disso, os mesmos professores das disciplinas regulares são responsáveis pelas eletivas, o que ajuda no engajamento com os alunos e possibilita o investimento em formação para ampliar o olhar do professor. Com isso, um professor de Matemática pode atuar também na eletiva de robótica.

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