O folclore na aula de artes

Escolas do Centro-Oeste mostram que cultivar o regionalismo ajuda a formar a identidade cultural, uma ótima dica para o mês de agosto

POR:
Ricardo Falzetta, Paola Gentile

Tribos indígenas, negros fugidos ou alforriados à procura de terras e brancos de todas as regiões misturaram-se na formação da Região Centro-Oeste. A bagagem de cada etnia guarda raízes diversas. E é justamente dessa mescla de manifestações culturais, artísticas e religiosas que nasce o folclore local, marcado pela pluralidade de danças, cantos, lendas e crenças.

Para preservar essa identidade cultural e permitir sua transmissão através das gerações, duas escolas ? uma em Goiânia e outra em Poconé, Mato Grosso ? desenvolveram projetos que abordam as tradições ainda vivas no cotidiano de seus alunos e ainda ajudam a resgatar as que já se perderam no tempo. Em agosto, mês do folclore, que tal se inspirar nessas experiências para mostrar a seus alunos a importância das raízes e dos valores da região em que você vive?

Na Escola Primeiro Mundo, na capital goiana, essa preocupação está presente desde o maternal. No primeiro semestre deste ano, o projeto Meu Mundo, Meu Goiás fez com que todas as turmas até a 4ª série realizassem atividades baseadas no folclore do Estado ? das danças à culinária. "Ao concluir um projeto sobre meio ambiente, em 2000, percebemos que os conceitos de nada valeriam se nossas crianças não conhecessem e valorizassem a cultura local", destaca a diretora, Luciani Stival Rotoli.

Inspiradas na teoria das inteligências múltiplas, proposta pelo psicólogo americano Howard Gardner, as professoras se preocuparam em favorecer a manifestação das diversas potencialidades de cada aluno, no Ensino Fundamental e na Educação Infantil. Os pequenos, de 3 e 4 anos, visitaram o ateliê do artista plástico goiano Luiz Olinto, conheceram as etapas de criação das esculturas e painéis de cerâmica e, sob a orientação dele, brincaram com barro e criaram as próprias peças.

Durante o processo, foi estimulada a inteligência físico-cinestésica (potencial de usar o corpo para resolver problemas ou fabricar produtos). Para entender como as tais formas, quando unidas, se transformam em animais, as crianças colocaram em ação a inteligência lógico-matemática (capacidade de realizar operações matemáticas e resolver problemas de lógica). E, ao longo do trabalho, desenvolveram as inteligências interpessoal (capacidade de entender as intenções e os desejos dos outros e de se relacionar com eles) e intrapessoal (capacidade de se conhecer, incluindo aí os desejos, e de usar essas informações para alcançar objetivos pessoais).

Em outra classe, crianças de 4 e 5 anos estudaram a procissão do fogaréu (leia o quadro abaixo). Como elas estão em fase de alfabetização, a professora trabalhou a escrita e a leitura das palavras mais significativas relacionadas ao evento. A turminha foi apresentada à obra da artista plástica Goiandira do Couto, precursora do estilo que usa areias coloridas da Serra Dourada. Os alunos utilizaram cola colorida para desenhar os farricocos (personagens da procissão). Mais uma vez, colocaram em prática diversas habilidades, com destaque para a pictórica (capacidade de desenhar) e a físico-cinestésica.

Lendas negras, indígenas e européias 

As danças folclóricas do Centro-Oeste são movimentadas e animam quase todas as festas religiosas e cívicas locais. Os participantes usam roupas de cores berrantes e alegres. Conheça algumas dessas manifestações:

Cavalhada ? é uma representação da batalha entre mouros e cristãos durante a invasão da Península Ibérica. Com a vitória dos cristãos, os mouros acabam convertidos.

A festa relembra o domínio do cristianismo na região hoje formada por Portugal e Espanha. Em Goiás, a mais famosa ocorre em Pirenópolis.

Cururu ? canto formado por trovas repentistas, chamadas originalmente de carreiras ou linhas, cantadas por vários "pedestres" em agradecimento a um santo. Os instrumentos são viola artesanal feita com árvores nativas e ganzá (tipo de reco-reco) de bambu. Foi levado a Mato Grosso pelos bandeirantes. Era inicialmente dançado, hoje é só cantado.

Mascarados ? originária dos costumes indígenas, foi modificada e enriquecida pelos colonizadores espanhóis e portugueses. Dura cerca de 2 horas e meia, tem doze partes, com diferentes passos, e exige grande esforço físico. Por isso, antigamente só os homens participavam. Para que os que faziam papel de mulher não fossem identificados, todos usavam máscaras.

Procissão do fogaréu ? manifestação de tradição religiosa que relembra a prisão de Jesus Cristo por soldados romanos mascarados.

A mais bem produzida ocorre no município de Goiás (GO), antiga capital do Estado, a 135 quilômetros de Goiânia.

Siriri ? típica de Mato Grosso, tem como característica a troca de casais. É marcada pelo som do mocho (espécie de tambor em forma de banco, feito com madeira e couro de boi). O nome vem de siriricar, o movimento feito pelo pescador na pesca com anzol e reproduzido pelos dançarinos ao escolher o par.

O grupo ficou responsável por encenar o fogaréu na festa de encerramento do projeto, que contou também com a simulação da Cavalhada ? tradicional no município de Pirenópolis ? e com as canções do cantor e compositor Marcelo Barra, músico que se dedica a divulgar a cultura goiana.

Folclore todo dia

Em Mato Grosso, o Projeto Xané (gente verdadeira, na língua indígena aruak) é desenvolvido pelo governo estadual em oitenta unidades da rede. O objetivo inicial era oferecer atividades que resgatassem as tradições e mantivessem o aluno no espaço escolar em período integral. A Escola Estadual Professora Maria Helena de Araújo Bastos, de Poconé, começou oferecendo oficinas de danças típicas, mas o tema logo contagiou o corpo docente. Hoje, o folclore aparece nas mais variadas situações pedagógicas.

As aulas são semanais e não se restringem ao ensino dos passos. "Pesquisamos com os alunos as origens das danças e dos instrumentos. Para isso, eles entrevistam os moradores mais velhos", conta Maria Eunice dos Santos, monitora do grupo do siriri. As lendas estão presentes desde a alfabetização. Maria Elizabeth Sales, professora da 2ª fase do 2º ciclo, utiliza dez histórias por ano para reforçar os conteúdos de Língua Portuguesa e História. Em maio, a do lobisomem foi estudada a pedido das próprias crianças ? assustadas com o boato de que essa figura estaria rondando a cidade.

Os alunos conversaram com os pais e avós para saber de que forma eles haviam aprendido a lenda. Depois, exploraram a oralidade ao contar as diferentes versões para os colegas. A etapa seguinte foi dedicada à produção de textos. Além de transcrever o que escutaram em casa, criaram enredos próprios. "Eles inventaram episódios quando viram que não existe um só enfoque para a mesma narração", afirma Elizabeth.

Ellen Gomes de Arruda, da 1ª fase do 2º ciclo, partiu da lenda do saci-pererê para aprofundar conteúdos de Matemática, Geografia e História, além das atividades de Língua Portuguesa. Em casa, ela fez uma pesquisa em revistas e livros. Em seguida, leu a versão de Monteiro Lobato e propôs que os alunos a representassem. Como o saci vive na mata, programou uma tarde no Tanque de Jurumirim, a alguns quarteirões da escola e onde existe uma excelente amostra do cerrado.

Quer saber mais?

Escola Estadual Professora Maria Helena de Araújo Bastos, R. São João del Rey, s/no, CEP 78175-000, Poconé, MT, tel. (65) 345-1775

Escola Primeiro Mundo, Av. Portugal, 470, CEP 74140-020, Goiânia, GO, tel. (62) 285-1202  

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