Raul Brasil: a escola por trás das manchetes

A tradicional instituição de Suzano marca gerações por seus professores e clima amistoso

POR:
Paula Peres
Nos muros que cercam a escola, grafites com seu nome. Crédito: Laís Semis

“É uma família”. É o que professores, funcionários, estudantes e responsáveis dizem quando perguntados sobre como é a Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, na região metropolitana de São Paulo.

A escola, que ocupa todo um quarteirão cheio de árvores do lado de dentro dos muros no pacato bairro Jardim Imperador, próximo ao centro da cidade, tornou-se foco de toda a imprensa nacional na última semana. Mas, em Suzano, sua fama já é antiga. Foi a primeira escola da cidade, inaugurada na década de 1950, e localiza-se em um terreno intensamente arborizado. A comemoração de seus 50 anos atraiu autoridades, políticos e gerações de estudantes e professores. É a memória mais agradável da Raul Brasil de que a professora Claudete de Matos Fratin de Oliveira se recorda.

Claudete trabalha na Raul Brasil há 17 anos. Dá aula de espanhol no Centro de Línguas, que oferece também cursos de japonês, italiano, francês e alemão para qualquer aluno da rede estadual de São Paulo, a partir do 7º ano. “A escola é como se fosse a nossa casa: todo mundo é uma família, é um espaço arborizado, com passarinhos, tranquilo. Não tínhamos problemas”, diz.

Os 1.034 estudantes regulares de Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio, de acordo com dados do Censo Escolar 2018, mais os cerca de 1.800 alunos do Centro de Línguas são os responsáveis por dar animação às ruas de paralelepípedo dominadas por casas térreas e sobrados com quintal e portões baixos do Jardim Imperador. “Nos horários de entrada e saída, isso aqui vira um formigueiro. Aí o sinal bate, as crianças entram, e volta a ficar tranquilo”, conta Joseli, ex-professora de Artes da Raul Brasil, aposentada desde 2013.

A proximidade com a estação Suzano da linha 11 de trem, com um terminal de ônibus e com vias movimentadas da cidade faz com que pessoas de outros bairros e municípios se matriculem na Raul Brasil. “Nossa clientela tem gente de Poá, Itaquaquecetuba, Ferraz de Vasconcelos, Mogi das Cruzes…”, lista Claudete.

Quando conversamos na terça-feira (19), a movimentação de adolescentes na rua e os ruídos de jogos e brincadeiras do lado de dentro do muro davam sinais de que, aos poucos, a escola procurava voltar à sua vida normal. Clima bem diferente do encontrado na semana anterior, quando conversamos com o estudante Rian Caldeira de Lima no dia do velório de seus colegas, 14 de março.

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Rian chegou a ir ao ginásio onde aconteceram as homenagens aos estudantes, mas não entrou porque “dá um aperto no coração lembrar tudo o que aconteceu”. Ele mora em Itaquaquecetuba, a cerca de 10 quilômetros de Suzano. Dependendo do ônibus que pega para ir à escola, pode demorar 15, 20 ou 40 minutos. Mesmo assim, gosta de estudar na Raul Brasil e não pensa em sair, apesar de sua mãe ter sugerido que ele tentasse transferência depois da tragédia. “Os professores são muito bons e eu faço japonês no Centro de Línguas. Não quero trocar de escola”, diz.

A transferência não foi cogitada por nenhum dos estudantes nem responsáveis entrevistados. Mas há quem conheça pessoas que não querem mais voltar. “Um dos meus amigos levou um tiro e disse que ia sair da escola. É óbvio que a gente apoiou, porque é um trauma muito grande”, conta Monique Oshiuto, de 15 anos, aluna do 1º ano do Ensino Médio. Ela conta que os alunos criaram um grupo para se apoiar neste momento. “Está sendo difícil para todo mundo. As outras escolas vão tratar a gente bem, vão ser legais conosco, mas só a gente do Raul entende o que estamos sentindo. Na minha sala, ninguém até agora disse que vai sair, porque esse é o momento de segurar a mão um do outro”, diz.

Monique também menciona o discurso, segundo ela, frequente no noticiário de que o tiroteio teria sido motivado por bullying. “Nunca teve nada de bullying na escola. E os poucos que tinham eram resolvidos com facilidade, porque a Marilena [Ferreira Umezu, coordenadora pedagógica] sempre brigava pela gente. Uma das tias morreu para ajudar a gente, então a escola era nossa família. Essa história de bullying é mentira”, reforça.

Porém, dados da Prova Brasil de 2017 indicam que havia ocorrências de agressões na escola. De acordo com levantamento feito pela EBC, 13 de 16 professores afirmaram no questionário que houve algum tipo de agressão física ou verbal na instituição. O mesmo número de docentes disse que houve agressões entre estudantes naquele ano.

Aprendizagem para o futuro

Um grande destaque da escola, na opinião dos entrevistados, é a qualidade das aulas e dos professores. “Eles são muito bons e atenciosos. Minha filha adora todos eles, são amigos dos alunos”, elogia Luciana Maria Alvarenga, mãe de uma aluna do 3º ano do Ensino Médio. As professoras confirmam a preocupação da escola com o futuro dos alunos. “Queremos ver o bem do aluno, por isso trabalhamos juntos para que os alunos saiam daqui, tenham suas profissões e se dêem bem no futuro. Fomos empenhados e vamos continuar sendo por um ensino de qualidade”, diz Claudete.

Mas nem tudo são flores. “Já perdemos alunos assassinados, presos, mas também temos alunos que hoje são médicos, engenheiros, professores”, lembra Joseli.

Os dados do Índice de Educação Básica (Ideb) da escola em 2017 confirmam os elogios: o Ensino Fundamental 2 atingiu o índice de 5,8, ficando 0,1 ponto acima da meta da escola, 1 ponto acima da rede estadual da qual faz parte e 1,1 pontos acima da média nacional. Já o Ensino Médio da Raul Brasil não atingiu sua meta de 4,3, ficando com 4,1 pontos. Mas o índice já é maior que as médias nacional e estadual para a etapa, de 3,8.

Agora, a retomada

Na terça-feira (19/03), a professora Claudete Fratin de Oliveira já estava cansada da exposição dos últimos dias: uma semana antes, estava dando aula no momento do ataque, salvou a vida de alguns alunos colocando-os para dentro de sua sala e teve que lidar com o horror de ver os corpos dos dois atiradores (sendo um deles seu ex-aluno) na sua frente quando foi resgatada pela polícia. Mas faz questão de mostrar aos estudantes que a escola precisa voltar ao normal.

“Estamos arrebentados por dentro, mas reunimos forças para voltar com o intuito de mostrar aos alunos que eles estão seguros, que eles podem voltar e que nós vamos continuar de onde nós paramos”, disse, para logo em seguida abraçar uma estudante que chegava à escola e perguntar se ela estava melhor. “Que bom que você voltou”, disse ao final.

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