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Alessandra Gotti

Mulheres, dá para esperar mais 200 anos?

Para que as mulheres possam continuar avançando, é preciso mudar a mentalidade e a Educação possui papel central nesse processo

POR:
Alessandra Gotti
Crédito: ACNUR

No ritmo atual levaremos mais de um século para acabar com a desigualdade entre homens e mulheres e, pasmem, levará mais de dois séculos para uma maior equidade de gênero no mercado de trabalho, se continuarmos como estamos.

Em 2016, a tão sonhada igualdade de gênero seria uma realidade em 86 anos. Já em 2018 isso levaria 108 anos e mais de 202 para alcançá-la no mercado de trabalho, segundo o Global Gender Gap Report de 2018, do Fórum Econômico Mundial.

É um paradoxo se dar conta de que, embora seja uma das 10 maiores economias do mundo, o Brasil ocupava, em 2018, o 79º lugar em 189 países no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e, considerado o fator igualdade de gênero, o país cai quase 20 posições, ocupando o 95º lugar. Detalhe: em 2017 ocupávamos a 90ª posição, em 2016 a 79º posição e, em 2006, a 67º. Ao invés de avançar estamos retrocedendo.

Foram várias as conquistas femininas no Brasil na luta por direitos civis, políticos e sociais, com vitórias como o acesso à Educação Superior em 1879 e o direito ao voto duramente conquistado na Constituição de 1934. Não se pode esquecer da vitória do Lobby do Batom na Assembleia Constituinte de 1988, com a previsão da igualdade de direitos e obrigações entre homens e mulheres em todas as esferas, especialmente no âmbito familiar.

Muitas batalhas foram vencidas, mas há um longo caminho a ser percorrido para uma efetiva igualdade entre homens e mulheres. Embora em média as mulheres tenham mais anos de estudo do que os homens, segundo o IBGE apenas 37% dos cargos gerenciais são ocupados por mulheres e a renda média da mulher é 20,5% menor que a masculina em muitas posições – conforme a idade, aumenta ainda mais. Nas últimas eleições de 2018, as mulheres ocuparam 15% das cadeiras na Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Somos apenas 11,6% dos prefeitos e apenas um Estado brasileiro é governado por uma mulher. Ainda há muita violência contra a mulher e o dado de que a cada hora mais de 500 mulheres são vítimas de violência física no Brasil é estarrecedor.

Temos que evidenciar os destaques femininos que abriram caminhos ao longo do tempo no Brasil: Rita Lobo (primeira mulher a formar-se médica, em 1887); Mythes Gomes de Campos (primeira mulher a exercer a advocacia, formada em 1898); Tarsila do Amaral (responsável pela organização da revolucionária Semana da Arte Moderna de 1922); Chiquinha Gonzaga (primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil), dentre muitas em seus vários campos de atuação. Não podemos esquecer ainda o exemplo de Malala Yousafzai, a pessoa mais jovem a ganhar o Prêmio Novel da Paz (2014) por lutar pelo direito das meninas à Educação. Não podemos deixar cair no esquecimento que houve grandes conquistas, descobertas e avanços em que mulheres são suas protagonistas no mundo e no Brasil.

Para continuarmos avançando e romper a assimetria entre homens e mulheres é necessária uma mudança de mindset (mentalidade) e a Educação possui papel central. Uma cultura que não se desapegue de papeis estereotipados terá dificuldade em avançar. É importante estimular e socializar meninos e meninas em igualdade de condições desde a primeira infância. Até hoje brinquedos como blocos de montar, jogos de raciocínio e games acabam sendo mais direcionados aos meninos, enquanto as meninas ficam com as bonecas.

Da mesma forma, uma sociedade que não espere o mesmo de meninas e meninos não atingirá a meta da igualdade. É sabido que as expectativas de pais e professores em relação às crianças são determinantes no processo de aprendizagem. Ainda se espera que as meninas tenham melhores resultados em linguagens do que em matemática, o que provoca ansiedade e insegurança nelas. No ano passado, matéria do Jornal Estadão apontou que mais de 70% dos estudantes que tiraram as mil maiores notas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) são meninos, embora as meninas sejam a maioria entre os candidatos. A maior diferença está nos exames de Matemática e Ciências da Natureza.

Os estereótipos de gênero na Educação impactam ainda os sonhos das meninas e repercutem nas suas trajetórias profissionais. As baixas expectativas da família e escola em relação ao seu desempenho em Matemática acabam por desestimulá-las a seguir carreiras nas áreas de Exatas e Tecnologias, que concentram as profissões de melhor remuneração, como demonstra a edição nº 39 do boletim “Aprendizagem em Foco”.

Em pleno século XXI, é um imperativo ético e até mesmo um diferencial competitivo apostar na igualdade de homens e mulheres. As mulheres são 51% da nossa população. Segundo a pesquisa “Brasileiras – Como elas estão mudando o rumo do país”, desenvolvida em 2015 pelo Instituto Locomotiva e o El País, se houvesse igualdade de gênero teríamos mais de R$ 460 bilhões injetados na economia brasileira. A construção de um futuro sustentável não pode se distanciar da premissa da igualdade de gênero. Não dá mais para esperar.

 

 

Alessandra Gotti é fundadora e presidente-executiva do Instituto Articule. Advogada e Doutora em Direito Constitucional pela PUC/SP. Consultora da Unesco e Conselho Nacional de Educação.