Quer me elogiar? É só dizer aos meus alunos como o estudo leva qualquer um a realizar seus sonhos

Conheça a história de uma professora que foi desrespeitada por um colega, e veja como conversar sobre o tema na sua escola

POR:
Sophia Winkel
Crédito: Getty Images

Em fevereiro deste ano, o espancamento da empresária e paisagista Elaine Caparroz chocou todo o país. Ainda que brutal, não foi um caso isolado. Os dados que revelam a proporção das violências contra as mulheres no Brasil são alarmantes, chegando a três vítimas de feminicídio a cada dia e um registro de agressão sob a Lei Maria da Penha a cada dois minutos, segundo o 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Com esse cenário social, o machismo se faz presente também na rotina escolar. São muitas as educadoras, alunas e funcionárias que sofrem com o assédio e outros tipos de violência em seus locais de trabalho. A coordenadora pedagógica Natália Francisca Cardia dos Santos conta um episódio abusivo que aconteceu em uma escola onde trabalhava na Zona Leste de São Paulo. “Eu coordenava as turmas dos Anos Finais do Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos (EJA). Tinha um contato próximos com os estudantes, promovia projetos, estimulava-os a fazerem grupos de estudos, consultava-os para tomar algumas decisões que lhes diziam respeito.

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Um dia, um grupo de alunas do 9° ano me procurou e disse que queria conversar comigo, pois não achava certo o que um professor estava fazendo. As meninas relataram algumas falas e brincadeiras que esse professor fazia em sala. Entre elas, chegou a dizer que os garotos da turma só prestavam atenção no que eu dizia porque eu era ‘gostosa’”.

Natália optou por não deixar o assunto ser esquecido e, em comum acordo com as alunas, que seguiram sustentando as afirmações, pediu que elas registrassem por escrito o que haviam contado. Em seguida, a gestora convocou as famílias para informar o que estava acontecendo e antecipar que pretendia levar a situação à direção da escola. Mais uma vez, foi apoiada.

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Munida dos registros, Natália organizou um documento indicando como aquelas falas estavam em desacordo com a proposta pedagógica da escola e quais princípios estavam sendo feridos, solicitando providências. Protocolou o documento, guardou uma cópia e solicitou ao diretor que convocassem, juntos, uma reunião com o professor.

O professor compareceu ao encontro e se mostrou indignado por Natália ter dado tamanha importância à situação. No argumento dele, ele havia apenas “feito um elogio” e utilizado uma linguagem próxima dos adolescentes para conquistar a empatia da turma.

O diretor também tentou amenizar a situação pedindo para que ela registrasse uma orientação ao professor no livro da coordenação e encerrasse o assunto, já que “o professor era mesmo brincalhão e, mais cedo ou mais tarde, ela se acostumaria com o jeito dele”, relembra Natália, que também se recorda do que falou aos dois colegas de trabalho.

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“Como coordenadora, eu disse que brincadeira e desrespeito eram coisas bem diferentes, que diariamente alunos eram levados à minha sala para que eu lhes chamasse a atenção e os conscientizasse sobre a necessidade de tratarem os professores com respeito. Mostrei que aquela postura do professor invalidava todo o trabalho de conscientização. Como pessoa agredida, disse que manteria comigo aquele registro, aguardaria a providência legal do diretor e não permitiria que esse tipo de ação se repetisse. Disse também que na próxima vez que ele quisesse me elogiar, deveria indicar para aqueles meninos e meninas o quanto o estudo, a responsabilidade e a determinação podem ser determinantes para que as pessoas, independente de seus corpos, idades, gêneros ou quaisquer outras características, alcançassem seus sonhos”.

Por fim, a coordenadora disse que aquela era uma última oportunidade de reflexão, pois, caso se repetisse com ela, uma professora ou uma aluna, todo aquele material seria transformado em um processo civil. Segundo Natália, diante da compreensão da gravidade do ocorrido, o próprio diretor mudou sua postura, solicitou ao professor sua defesa por escrito e levou a situação ao conhecimento da supervisão escolar, fazendo questão de informá-la sobre o trâmite do processo.

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O resultado foi positivo: o professor parou de difamá-la e passou a tentar mostrar o quanto ele era um profissional comprometido com os projetos e propostas da escola. As alunas, hoje já formadas, mantém contato e dizem que ela é uma referência. Gina Vieira Ponte de Albuquerque, professora da rede pública de ensino do Distrito Federal, apoia a atitude de Natália. “A coordenadora deu um exemplo de coragem ao combater uma violência do cotidiano. Em vez de mostrar resignação diante do episódio, ela teve ações assertivas, que mostraram às alunas que a omissão não pode ser uma opção”, resume.

Como conversar sobre isso na escola?

Gina é responsável pelo projeto Mulheres Inspiradoras, que já está presente em 17 escolas e segue em expansão. Ela utiliza obras literárias escritas por mulheres para que os alunos notem o processo de invisibilização feminina na sociedade.

Ela dá outras ideias de como o assunto pode ser tratado nas escolas de forma preventiva: “Objetivamente, o que a escola pode fazer é falar sobre o combate ao machismo, pois as pessoas que sofrem violências precisam se sentir encorajadas e fortalecidas para denunciar. Inserir o tema no fazer pedagógico, criar rodas de conversa, grupos de meninas e/ou professoras nos quais elas tenham a liberdade de falar com segurança sobre isso são todas medidas positivas”, comenta.

Para ela, o caminho é trabalhar essa temática de maneira qualificada e alinhada ao currículo, uma vez que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ainda que não especifique a temática de gênero, pauta continuamente o debate sobre direitos humanos. Além disso a discussão sobre gênero pode ser sustentada pela Constituição Brasileira (1988), pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996) e pela Lei Maria da Penha (2006). Internacionalmente, ela faz sentido pois é prevista em tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário, como a Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1979).

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Também é necessário ampliar o debate e sair do senso comum, engajando todos os funcionários nesses momentos de formação e discussão, uma vez que os casos de violência de gênero não são problemas que abrangem somente as estudantes. “Aqui no Distrito Federal, firmamos uma parceria com a Secretaria de Mulheres do DF e levamos palestras para todos da comunidade, pois a escola é um espaço de Educação para todo mundo que está dentro dela”, garante a professora Gina.

No entanto, é comum que a gestão tenha que lidar com violências já cometidas, como aconteceu com a professora Natália, e, nesses casos, é muito importante que fique claro para a vítima de que ela está em um ambiente seguro e pode denunciar, que sua identidade será preservada e medidas serão tomadas para que isso não se repita. “Uma barreira pode ser gestores que não colaboram em resolver as denúncias. Ainda assim é possível recorrer a diversos órgãos superiores, como a Coordenação Regional de Ensino, a Secretaria de Educação, a Delegacia da Mulher, o Disque Denúncia (180) ou partir para um processo administrativo”. O importante é não se calar.

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