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Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Alfabetização Brasil afora: o que pensam as professoras do Nordeste

Em comum, comprometimento com a Educação. De diferenças, as metodologias.

POR:
Mara Mansani
Crédito: Pixabay

As professoras Vanessa Santos Martins, de São Luís (MA); Maria José Gomes de Souza, de Ferreiros (PE); Ruana Marla Câmara Antunes, de Pedras de Fogo (PB) e Ivonete dos Santos Farias, de Quixeramobim no Ceará, tem algo em comum além de serem professoras que atuam na Região Nordeste. Todas elas são alfabetizadoras.

Conversei com elas para compreender melhor a realidade em que vivem e os desafios que enfrentam na alfabetização.

Elas me disseram que a quantidade de alunos nas turmas delas varia entre 15 a 29 alunos. A menor turma a da professora Maria José, em Pernambuco, com 15. Bato muito nessa tecla da quantidade de alunos por sala, porque nós professores sabemos que a alfabetização demanda atendimento e intervenções pedagógicas de forma mais individualizada, e em turmas com alunos em demasia, o trabalho já começa prejudicado.

Todas as professoras com quem conversei são formadas em Pedagogia, e a maioria tem formações em outras áreas também. A professora Ivonete, por exemplo, também tem formação em Educação Especial. Achei interessante, acredito que isso a deixa muito mais preparada para os desafios em sala de aula. Em uma das escolas onde trabalho, há alunos com algum tipo de deficiência em todas as turmas do 1º ano. Precisamos de mais professores formados e preparados para garantir a aprendizagem destas crianças.

Perguntei a elas quais as práticas educativas que elas acham boas e que recomendam aos outros alfabetizadores. A leitura diária foi a mais recomendada entre elas. Quando conheci o trabalho de alfabetização em Sobral, no Ceará, que tem ótimos resultados nas avaliações nacionais, vi o mesmo: as práticas de leitura diária têm papel de destaque no processo de desenvolvimento dos alunos. E pensar que foi há pouco tempo que incorporamos essa prática como atividade permanente em nossas turmas...

Todos nós professores enfrentamos dificuldades em sala de aula. Minhas colegas alfabetizadoras do Nordeste citaram como um dos principais problemas a falta de materiais didáticos e pedagógicos voltados para a alfabetização. Mas apareceu também a falta de apoio especializado em sala de aula, específico para o ensino e a aprendizagem de leitura e escrita. Como atender alunos com dificuldades de aprendizagem? Como melhorar o planejamento?

Seria muito bom para a aprendizagem das nossas crianças se as redes de ensino, junto com seus professores alfabetizadores e especialistas, elaborassem um documento para as escolas com algumas orientações sobre a organização das salas, o ambiente alfabetizador, os cantos de aprendizagem, o uso de materiais pedagógicos, etc. Muitas coisas que podem parecer óbvias para nós não são do conhecimento de todos os professores, principalmente dos que estão ingressando na carreira agora. Nem todo professor tem sequer letras e números móveis em sala de aula, que são materiais básicos para a alfabetização, ou até mesmo livros de literatura infantil.

Quando o assunto é metodologia de ensino, sabemos que há polêmicas e discussões entre as diferentes correntes. E entre minhas colegas o que prevalece é a diversidade. Entre elas há as que seguem uma metodologia mais tradicional, explorando as famílias silábicas, outras que seguem e aplicam os estudos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, na linha sócio-construtivista, e ainda outra que segue os conhecimentos e estudos de Ester Pillar Grossi do Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia da pesquisa e Ação (GEEMPA). O importante é ter claros os caminhos a seguir e saber se a metodologia ou linha pedagógica escolhida por você realmente está dando conta da alfabetização dos seus alunos.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) também fez parte do nosso diálogo. A professora Ivonete destaca o protagonismo dos alunos, a necessidade de contextualizar as práticas de linguagem e o processo de Alfabetização pautado nos quatro campos de atuação. A alfabetizadora Vanessa fala da importância do documento como norteador do trabalho dos professores em sala de aula, da observação de quais habilidades devem ser desenvolvidas e da importância de compreender o meio em que a escola está inserida. Conta que até já fez mudanças em relação à forma de elaborar seu planejamento. A maioria delas destaca a necessidade de se aprofundar nos estudos da Base e a formação adequada dos professores com esse objetivo.

Perguntei, na opinião delas, quais seriam as razões que nos levam a resultados ruins nas avaliações da alfabetização. Para elas, está claro que não são resultados apenas de agora, mas de anos em que a alfabetização não vem sendo tratada como prioridade em nosso país, com uma formação de mais qualidade para os professores, que reflita a realidade em sala de aula. A desvalorização profissional dos professores também foi colocada como um dos principais motivos, e como disse a professora Maria José de Pernambuco, "é necessário investir muito em alfabetização, dar condições aos professores alfabetizadores, valorizá-los e reconhecer que alfabetizar é um processo longo, trabalhoso e que exige muita atenção e dedicação."

Pedi às minhas colegas que deixassem uma mensagem a todos os alfabetizadores do Brasil. Vejam abaixo:

Professora Maria José Gomes de Souza, Colégio Municipal Papa João Paulo ll, Ferreiros/PE:

"A nós professores alfabetizadores a minha mensagem é coragem e paciência."

Professora Ruana Marla Câmara Antunes, Escola Municipal Epitácio Pessoa, Pedras de Fogo/PB:

"Professores alfabetizadores, elogiem mais seus alunos(as), tenham um olhar atencioso para cada um deles, porque quando menos esperamos eles nos surpreendem e fazem nosso trabalho valer muito a pena."

Professora Ivonete dos Santos Farias, Escola Municipal Heloísa Maria Maia Pinto Dinelly, Quixeramobim/CE:

"Queridos alfabetizadores, a tarefa de alfabetizar, torna-se prazerosa, quando o educador traz consigo a responsabilidade de ensinar."

Professora Vanessa Santos Martins, Unidade de Educação Básica Hortência Pinho, São Luís/MA:

"Todos os dias quando chego em minha sala de aula eu me pergunto que marcas eu quero deixar nas lembranças e na vida de meus alunos. E me esforço ao máximo para que cada dia seja melhor que o anterior e que eu me supere a cada dia para dar o melhor aos meus alunos. Sei que passamos por problemas diariamente e que nem sempre é fácil vencê-los, mas é possível fazer o melhor com o que temos, onde temos e com quem temos. Parabéns a todos nós que acreditamos na educação, que acreditamos em nosso alunos e acreditamos em um futuro melhor."

Deu para conhecer um pouco melhor a alfabetização na região Nordeste a partir das falas das nossas colegas? Os pontos em comum que percebi mais forte entre elas foram o comprometimento com uma Educação pública de qualidade, o profissionalismo e a paixão pela alfabetização. Com certeza esses 3 valores são compartilhados por alfabetizadores do Brasil inteiro.

Um grande abraço a todos e até semana que vem,

Mara Mansani

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