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O Brasil está mesmo alfabetizado?

Segundo indicador Inaf, 29% dos brasileiros são considerados analfabetos funcionais e esse número sofreu leve aumento nos últimos anos

POR:
Paula Calçade
Mão de mulher escreve letras em uma lousa verde com giz branco
Foto: Getty Images

Para responder à pergunta do título é preciso compreender o que é o alfabetismo. Segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), é a capacidade de compreender, utilizar e refletir sobre informações contidas em materiais escritos para ampliar conhecimentos e participar da sociedade. Isso nos mais diversos âmbitos, como em meio à família e à comunidade, ao consumo, à Educação formal e continuada, ao trabalho, à política e à religião.

O conceito abrange duas dimensões, o letramento, que é a habilidade de ler e escrever diferentes gêneros, com coerência e compreensão crítica. E o numeramento, ou seja, a capacidade de construir raciocínios e usar a Matemática para atender às demandas do cotidiano.

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A pesquisa do Inaf, assim, faz um diagnóstico detalhado de como a população de 15 a 64 anos está em relação ao alfabetismo no país. Os números dividem as pessoas entre os níveis de analfabetismo funcional e o alfabetismo consolidado.

O indicador, elaborado pela ONG Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro, permite concluir que, apesar de o país ter democratizado o acesso ao ensino em teoria, muito ainda precisa ser feito na prática. Os dados de 2018 mostraram que 73% dos brasileiros estão plenamente alfabetizados, enquanto 29% são considerados analfabetos funcionais. E esse recente panorama revelou um aumento de 2% do analfabetismo funcional em relação a 2015.

Por que o número de analfabetos funcionais cresceu em três anos?

O crescimento do analfabetismo funcional está relacionado com a condição social e educativa das pessoas, que pode ter sofrido um agravamento nos últimos anos. “Podemos situar esse aumento tanto pela crise econômica, com o desemprego, a perda do poder de consumo, a dificuldade para o acesso à cultura e ao lazer, como pela realidade da vida escolar e o ensino pouco significativo, com práticas artificiais da língua escrita e a possível evasão escolar em consequência”, explica Silvia Colello, professora da Faculdade de Educação da USP.  

Por que somente a escolaridade não garante o alfabetismo?

De acordo com os números do Inaf, a escolaridade se mantém como principal fator para o alfabetismo. No entanto, não garante a todos o nível de alfabetismo esperado. Dentro do Ensino Superior, por exemplo, há 4% de analfabetos funcionais. No Ensino Médio, apenas 14% são proficientes no grupo de alfabetizados e nos anos finais do Ensino Fundamental esse número é de apenas 6%.

“A porcentagem ideal seria de que 100% dos alunos atingissem o nível de proficiência ao final do Ensino Fundamental”, aponta Onaide Mendonça, doutora em Letras pela Unesp e antiga alfabetizadora de crianças da rede estadual de São Paulo. Para Onaide, os dados mostram que a escola não conseguiu fazer seu trabalho e que quantidade não é qualidade, uma vez que nove anos de Ensino Fundamental e três de Ensino Médio não conseguiram garantir proficiência em leitura e escrita. “Condições de trabalho dos professores ruins, questões estruturais de violência e desigualdade na sala de aula e nos entornos e a metodologia de ensino pouco próxima da realidade dos alunos são algumas das causas para esses números”.

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Por que os índices de analfabetismo funcional crescem conforme as faixas etárias?

O analfabetismo e o analfabetismo funcional entre os mais idosos são consequências de um passado de desigualdades escolares e culturais. “Não é difícil lembrar de um tempo em que predominava o abismo entre a baixa oferta de vagas escolares e o número da população estudantil, causado pelo difícil acesso às escolas em regiões distantes, por exemplo, ou ainda pelo abandono dos estudos para a sobrevivência econômica”, destaca Silvia. Com a melhoria dessas condições, as novas gerações conseguiram melhores condições educativas, o que pode ser comprovado pelos números de alfabetismo entre os mais jovens.

“Se, por um lado, esse fato merece comemoração, por outro, permanece o desafio de construir uma escola de jovens e adultos capaz de restituir os direitos dos cidadãos que não tiveram as mesmas oportunidades. O perigo é que o índice de analfabetismo entre os idosos diminua em função da mortalidade e não em função da escolaridade”, pontua.   

Como alfabetizar no momento esperado?

“Alfabetizar no contexto de letramento é trazer a diversidade textual para a sala de aula, ler, interpretar, discutir esses textos com as crianças relacionando-os à sua realidade e, dentro do tema que está sendo trabalhado, desenvolver atividades para que as crianças em diferentes níveis de aprendizagem possam realmente aprender a ler e escrever e não apenas decorar listas de palavras”, explica Onaide.

Para a doutora em Letras, o problema que o Inaf revela é a falta do ensino de conteúdos específicos que instrumentalizem o aluno para os usos sociais da leitura e da escrita. “Enfatizamos que esse ensino precisa ser fundamentado no diálogo em sala de aula. O diálogo é indispensável para ensinar o aluno a explorar e interpretar textos, condição essencial para o combate ao analfabetismo funcional. Quando o aluno não é ensinado a buscar o significado na mensagem contida em cada texto lido, nasce o analfabeto funcional”.

 

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