Por que a relação entre pobreza e capacidade de um estudante não é simples

Pesquisas e estudos na área de neuroplasticidade apontam um caminho mais otimista para crianças em situações vulneráveis

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
Ilustração mostra sombra de criança e cérebro com representações de muitas ideias coloridas, em um fundo verde
Ilustração: Getty Images

Os efeitos prejudiciais da pobreza no desenvolvimento infantil têm sido amplamente estudados pela ciência, sendo apontada como um dos fatores de risco mais proeminentes para o comprometimento da capacidade cognitiva e uma série de dificuldades caracterizadas dentro do espectro de transtornos de atenção, dificuldades de aprendizagem e impacto nas funções executivas. É o que aponta a pesquisa Protecting brains, not simply stimulating minds, (“Protegendo cérebros, e não simplesmente estimulando mentes”, em tradução livre) de J.P. Shonkoff, publicada em 2011.

Além disso, crianças e adolescentes que crescem expostos a situações de vulnerabilidade social, tendem a apresentar mais problemas emocionais que podem evoluir para transtornos mentais e comportamento antissocial, como destaca a pesquisa de 1997 realizada por J. Brooks-Gunn e G.J. Duncan, The effects of poverty in children ("Os efeitos da pobreza em crianças", em tradução livre).

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Entretanto, conforme afirmou Hayasaki no estudo publicado em 2016 How poverty affects the brain (“Como a pobreza afeta o cérebro”, em tradução livre) sobre os efeitos da pobreza no cérebro, não devemos ter uma concepção simplista de que crianças criadas em situação de vulnerabilidade social são necessariamente menos capazes do que outras. Para o pesquisador, essa condição por si não necessariamente torna uma criança mais propensa a ter problemas de desenvolvimento cerebral, mas o significado da pobreza, juntamente com a forma como a sociedade lida com as pessoas afetadas por ela, pode realmente ter um impacto mais duradouro em seu desenvolvimento.

Alguns fatores, como o preconceito implícito daqueles que irão educar aquelas crianças, a má nutrição e o baixo investimento nas escolas das comunidades mais carentes, podem ter impacto mais significativo para o desenvolvimento do cérebro de uma criança e podem tornar a aprendizagem praticamente inatingível.

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O efeito Pigmaleão, também conhecido como efeito Rosenthal, é o nome dado em psicologia ao quanto às nossas expectativas em relação a outra pessoa afetam o seu desempenho. A partir dos resultados de um estudo realizado em 1968 por R. Rosenthal e L. Jacobson  , no qual investigou-se o quanto a expectativa de um professor produz mudanças no desempenho de um aluno, concluiu-se que os mesmos podem internalizar os rótulos que lhes são dados de maneira direta ou indireta, afetando a sua evolução de maneira tanto positiva como negativa.

Portanto, aumentar as expectativas de um professor quanto às possibilidades de seus estudantes é um dos fatores-chave para que os mesmos se empenhem e recebam os incentivos necessários para evoluir academicamente e desenvolver a autoestima.

Neuroplasticidade e Educação

A ciência da neuroplasticidade - a capacidade do cérebro de formar e reorganizar as suas conexões sinápticas - também aponta para uma visão mais otimista. Em um estudo de 2010, os pesquisadores J.P. Shonkoff e P. Levitt, Neuroscience and the Future of Early Childhood Policy: Moving from Why to What and How. (“Neurociência e o futuro da política para primeira infância: avançando do porquê para o quê e como?”, em tradução livre) concluíram que o cérebro, por ser constantemente afetado e remodelado pelo ambiente, funciona em capacidade máxima na infância, e apesar de se tornar menos maleável com o passar do tempo, nunca chega ao ponto em que não possa mais se modificar.

Além disso, entre os 15 e 30 anos de idade, o cérebro passa por um outro processo de maior plasticidade, o que pode permitir que adolescentes e adultos alterem suas conexões cerebrais e se adaptem à novas perspectivas por meio de orientação, esforço e prática.

É importante ressaltar que há uma forte correlação entre o tipo de ambiente em que um indivíduo se encontra e a neuroplasticidade cerebral, o que implica que ambientes emocionalmente seguros, que permitem com que o indivíduo esteja menos exposto ao estresse e que no qual possa desenvolver relacionamentos positivos com adultos de referência, como os pais, familiares e professores, representam importantes mecanismos de enfrentamento que os protegem dos efeitos nocivos das adversidades.

Além da importância de programas sociais destinados às crianças mais carentes e a relevância de políticas públicas planejadas para esse público, a aprendizagem socioemocional deve ser incorporada no currículo de cada escola com a mesma importância dada a alguns requisitos básicos como Matemática e Língua Portuguesa. Ao fazer isso, as escolas podem ensinar os alunos a estarem sintonizados com seus sentimentos e a desenvolverem resiliência.

Outro ponto de destaque em pesquisas de neurociência, e aqui retornamos ao estudo de 2011 de J.P. Shonkoff, Protecting brains, not simply stimulating minds. (“Protegendo cérebros e não simplesmente estimulando mentes”, em tradução livre), é a importância desses aprendizados se estenderem também para as famílias dessas crianças, pensando que não necessariamente os cuidadores das mesmas tiveram a oportunidade de desenvolver as habilidades necessárias para promover um ambiente que possa fornecer estratégias eficazes de desenvolvimento.

Certamente, o potencial de uma criança é multifatorial e é afetado constantemente pelas trocas que se estabelecem com o meio e com figuras de afeto. Cabe a nós, adultos, não nos basearmos em premissas que simplifiquem a complexidade de desenvolvimento de um indivíduo e nos envolvermos como agentes ativos nesse processo.

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha como consultora de projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Mental do Educador da Nova Escola.

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