Educação Física: como driblar sol forte e chuvas do verão com atividades alternativas

No período mais quente e chuvoso do ano, educadores buscam desenvolver competências que vão além dos exercícios que exigem grande esforço físico

POR:
Lucas Santana
Estudante pensa diante de um tabuleiro de xadrez
Foto: Getty Images

Todos os anos o início das atividades escolares coincide com o auge do verão, o período mais quente e chuvoso nos países do Hemisfério Sul, com temperaturas que podem ultrapassar 40ºC em algumas cidades brasileiras e elevada incidência de radiação solar.

Embora o clima possa ser algo incômodo para muitos estudantes e professores fechados em salas de aulas abafadas, são nos ambientes ao ar livre que as características típicas do verão mais preocupam os educadores. Os professores de Educação Física, em especial, entendem bem as dificuldades impostas pela estação. As altas temperaturas e o sol impactam diretamente o planejamento das aulas e a saúde física dos alunos, o que acende um sinal de alerta para a prática de atividades físicas regulares, como esportes coletivos e outras práticas motoras de média e alta intensidade.

Como se não bastasse o calor escaldante do verão brasileiro, há ainda um agravante para a complexa realidade do ensino público. Muitos docentes atuam em escolas onde não contam nem mesmo com quadras cobertas para aplicarem o planejamento básico da disciplina. Em 2017 o Censo Escolar Brasileiro revelou que 6 de cada 10 escolas públicas nacionais do ensino fundamental sequer possuíam quadras poliesportivas. “A escola precisa priorizar o padrão de qualidade para garantir a transmissão dos conteúdos. A precariedade desse espaço nas escolas para as aulas revela a desvalorização da função social da disciplina e o descaso com a Educação das camadas populares”, critica a professora Rosiley Alves Gomes, docente da Escola Municipal Oziel Alves Pereira, na periferia de Campinas (SP).

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Educador físico com longa experiência na formação de professores e um dos selecionadores do Prêmio Educador Nota 10, Marcos Mourão reforça essa crítica. “Os dados revelam o desprezo pela Educação pública, enquanto outros eventos como as Olimpíadas recebem bilhões para construir estruturas esportivas superfaturadas, depois deixadas ao relento, sem nenhum legado esportivo”, afirma.

Alternativas

Quando o clima e a falta de recursos se colocam como impeditivos, os professores apresentam alternativas criativas para o currículo da disciplina. O professor Luís Gustavo Cangussu tem à disposição apenas uma pequena área coberta do pátio da Escola Estadual Angelo Trevisan, em Curitiba (PR). Quando precisa de um espaço maior para atividades esportivas é obrigado a sair com seus alunos do Fundamental II para uma quadra descoberta de uma igreja que fica em frente ao colégio. “Em dias normais temos o entrave de atravessar a rua com os alunos e utilizar a quadra da igreja. Em dias de muito sol, nos organizamos no pátio da escola mesmo”, conta o professor. 

Luís aproveita os dias de calor mais intenso em Curitiba para incentivar a prática de competições que exigem menos dos músculos e mais a concentração, como aulas teóricas sobre diversos esportes e jogos de tabuleiros, principalmente o xadrez. Até uma competição já foi organizada pelo professor, nos moldes dos campeonatos tradicionais do esporte, com várias partidas acontecendo ao mesmo tempo. O formato empolgou as turmas. “Eu pedia que, à medida que os alunos fossem finalizando as partidas, eles levantassem as mãos e, assim, íamos trocando os competidores de posição, para diversificar os parceiros”, relata.

Em Campinas (SP), a professora Rosiley Alves Gomes passa por situação parecida. Em sua escola há apenas uma quadra poliesportiva sem proteção do sol e da chuva, o que deixa alunos e docentes totalmente à mercê do clima. “Nos dias de chuva às vezes utilizamos o espaço da cantina, que é coberto. Há também uma área com muitas árvores que utilizo nos dias mais quentes”, explica Rosiley. “Somos em três professores no período da tarde, em que fico mais tempo. O que acontece, às vezes, é que precisamos conversar para disponibilizar o espaço”, relata.  A docente recorda que a situação fica especialmente complicada para os alunos a partir do 6º ano, quando começam a ter mais aulas sobre práticas esportivas.

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Na escola campineira a alternativa encontrada por Rosiley foi atrelar as aulas de Educação Física à cultura, Artes e História. Aproveitando um projeto de Africanidades já em prática no colégio, a educadora e os colegas propuseram aos alunos estudarem sobre esportes de povos ancestrais que formaram o povo brasileiro. Das etnias indígenas surgiu a possibilidade de os alunos conhecerem os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, evento esportivo internacional que reúne populações de diversos países. Da raiz africana, os alunos tiveram contato com o Maculelê, misto de dança e arte marcial com paralelo na capoeira. “Acabei descobrindo que várias crianças são descendentes diretos de indígenas na comunidade”, conta a professora. “Eles adoraram e começaram a se sentir muito presentes naquelas aulas”. Os alunos também têm acesso a práticas circenses.

Mais do que esportes de esforço

Especialistas ouvidos pela NOVA ESCOLA ressaltam que a disciplina de Educação Física, apesar de estar largamente associada à prática esportiva de grande exigência motora, pode e deve ser utilizada para expandir a troca de conhecimento entre professores e alunos.  “É possível propor brincadeiras utilizando o quadro negro, jogos de tabuleiro, o ensino de regras dos esportes dentro da sala de aula, atividades de chão para relaxamento, coordenação e psicomotricidade”, sugere o professor e educador físico Bruno Senna. 

O momento em que a rotina das aulas de Educação Física é alterada pelo clima deve servir também para que o educador se volte para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), de forma a investigar as possibilidades que esses profissionais têm à disposição. “A partir do momento que os professores conhecem o que o documento propõe, surge essa possibilidade de olhar para a Educação Física além da prática motora”, afirma Marcos Mourão. “Olhando para a base curricular, abre-se um leque de opções além da lógica do fazer, suar e voltar para a sala. O professor de Educação Física pode ter uma perspectiva mais cultural, descobrindo alternativas junto dos alunos”, propõe. Marcos acredita que as salas de aulas comuns também podem servir à disciplina. “Se o professor conseguir adaptar o espaço dentro de uma sala de aula, ele pode promover atividades como ginástica, dança, lutas. Existe um amplo repertório para fugir do calor nestes dias”, lembra Mourão.

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Cuidado com a saúde

A prática de atividades físicas no verão exige uma série de cuidados dos educadores com a saúde dos alunos. “Não é recomendável ficar exposto ao sol forte em nenhuma ocasião. Devemos respeitar os horários recomendados e medidas de proteção para evitar danos ao organismo, como desidratação e queimaduras”, adverte Bruno Senna. É importante também que os professores fiquem atentos à diminuição da umidade relativa do ar, que se agrava conforme a temperatura sobe, principalmente em períodos de estiagem que podem ocorrer mesmo no verão. O horário das atividades físicas é determinante. “Umidade relativa abaixo de 60% já deve ser observada pelo professor e evitar o horário das 10h às 16h, em que as temperaturas ficam mais altas”, lembra Mourão.

O horário das aulas também pode ser utilizado a favor dos alunos. Bruno Senna sugere que, se for possível, professores e gestores alterem os horários das aulas para períodos de menor incidência de calor e radiação solar. Ele lembra também que algumas ações simples podem reduzir os danos à saúde de crianças e adolescentes. “O professor deve sempre fazer mais intervalos durante as aulas, estimulando que os alunos bebam água, o que previne a desidratação. Além disso, pode-se analisar o uso de acessórios de proteção, como bonés”, explica.

 

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