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Bem-estar: por que deveria ser preocupação da escola (mas ainda não é)

Pessoas também são maleáveis emocionalmente, o que torna a escola um dos principais locais para este aprendizado, segundo pesquisador

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
Professora sentada no chão sorri e mostra livro para alunos que a cercam
Foto: Gety Images

Por muito tempo, o papel das emoções não era visto como algo prioritário nas escolas. Hoje, frente às novas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), as competências socioemocionais estão em destaque e norteiam o trabalho dos professores e o desenvolvimento integral dos alunos. Certamente, o debate acerca de tais competências ganhou notoriedade e ainda apresenta desafios quanto à sua implementação teórica e prática no cotidiano e no currículo escolar. Entretanto, há outro tema de suma importância, e que inclui as competências socioemocionais, que ainda não é priorizado no debate nacional: o bem-estar na escola. Mas afinal, o que é bem-estar e o que isso tem a ver com Educação de qualidade?

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Martin Seligman, psicólogo norte-americano e ex-presidente da Associação Americana de Psicologia (APA), é o autor de maior contribuição da chamada Psicologia Positiva. Nos anos 1990, Seligman trouxe à tona a importância de uma nova era na psicologia, já que, na época, a maior parte dos estudos e teorias psicológicas estavam mais direcionadas aos transtornos mentais e seus tratamentos. Em contrapartida, o autor considerou que tal área do saber deveria se focar com rigor científico também nos aspectos promotores de saúde, naquilo que traz bem-estar ao indivíduo e na construção de preceitos que poderiam ajudar as pessoas a construírem uma realidade mais satisfatória e dotada de sentido. No decorrer de sua carreira, Seligman se tornou uma das principais vozes a defender que a escola deveria ser um dos principais locais para que isso aconteça, alegando que seres humanos são maleáveis não somente no comportamento e cognitivamente, mas também emocionalmente.

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A partir do acrônimo P.E.R.M.A. - positive emotions (emoções positivas), engagement (engajamento), relationships (relacionamentos positivos), meaning (sentido), e accomplishment (realização), Seligman definiu os cinco principais preceitos que baseiam a Educação Positiva, de forma que sua teoria tem aplicabilidade direta na escola por meio do treinamento de professores, para que os mesmos possam ser os multiplicadores desses preceitos e possam passá-los aos alunos. Os relacionamentos positivos, por exemplo, são incentivados por meio do ensino de estratégias de comunicação, o engajamento, por meio da identificação das principais forças de caráter de cada um na escola, para que assim cada um possa exercitá-las ao máximo e ser reconhecido por isso.

Há diversas escolas no mundo que adotam a metodologia da Educação Positiva, como por exemplo a Geelong na Austrália, cujo treinamento dos professores foi desenvolvido pelos maiores especialistas da área e hoje serve como modelo para outras instituições que buscam a aplicabilidade dessa teoria no currículo e na prática. Cientificamente[1], Seligman verificou que a Educação Positiva contribui como um fator protetor de questões ligadas à saúde mental, como auxílio no manejo das emoções, no desenvolvimento de resiliência e em maior bem-estar para todo o "ecossistema" escolar. Além disso, verificou-se melhora do desempenho acadêmico dos alunos após a inserção de princípios dessa metodologia no currículo.

Resultados como os obtidos por Seligman e sua equipe de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos mostram que existem modelos de Educação que olham para o indivíduo como um todo, incentivando-o e fornecendo ferramentas para que se desenvolvam de maneira integral. Além disso, se mostra como uma metodologia interessante justamente por considerar o papel do professor como chave em todo o processo, dando-lhe além de protagonismo, valor para que antes de aplicar tais princípios em sala de aula, possa ele mesmo cuidar de seu bem-estar e saúde mental.

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha como consultora de projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Mental do Educador da Nova Escola.

 

  [1] Martin E. P. Seligman, Randal M. Ernst, Jane Gillham, Karen Reivich & Mark Linkins (2009)Positive education: positive psychology and classroom interventions, Oxford Review of Education, 35:3, 293-311, DOI: 10.1080/03054980902934563

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