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Escola, eleições e formação democrática

Próximos da realidade local, os pleitos municipais são mais uma oportunidade de formação e de exercício da cidadania

POR:
Luis Carlos de Menezes
Luis Carlos de Menezes. Foto: Marina Piedade
Luis Carlos de Menezes é físico e educador da Universidade de São Paulo (USP)

A escola é o primeiro espaço de convívio em grupos numerosos, onde se aprende a respeitar diferenças, resolver conflitos e tomar decisões em conjunto, saberes essenciais para exercer a cidadania. Em conselhos de classe ou de escola, e na escolha de seus membros, a vivência política é ainda mais explícita ao se assumir e ao se delegar responsabilidade coletiva. Porém é o acompanhamento de eleições para cargos executivos e legislativos - especialmente as municipais, cujas propostas em disputa são mais diretamente perceptíveis - que amplia e completa essa formação.

Em várias disciplinas ou em atividades extraclasse, promovem-se valores éticos e cívicos, mas seguir de perto o pleito neste ano, tratando de questões que por sua exposição na mídia já contam com a atenção dos jovens, dá contexto real à formação política. Política, aliás, é tudo o que tem a ver com o poder numa sociedade organizada, como eleitores, partidos, candidatos, parlamentares, leis, impostos, serviços e direitos sociais. Em cada município, escolhem-se candidatos pelo que se acredita que poderão realizar, mas isso depende de conhecer o alcance de cada cargo e os recursos de que o eleito dispõe. Só assim é possível avaliar o sentido e a viabilidade das promessas.

Além de preparar o eleitor - o que inclui informar as regras e o funcionamento das eleições -, a democracia exige participação, hoje prejudicada por um desencanto com a política, de que não estão imunes estudantes e professores. Isso ocorre quando partidos desrespeitam programas e recursos públicos são desviados para interesses privados. Para superar essa decepção e garantir aquele preparo, a escola é desafiada a oferecer duas importantes lições.

A primeira é de confiança e esperança, mostrando como, diferentemente das ditaduras, as democracias podem superar as próprias falhas. Para dar conta desse desafio, é preciso valorizar a condição democrática. Pode-se comparar nossos embates no legislativo e no judiciário (cujos prós e contras são apresentados em jornais, rádios, TVs e internet) com o que acontece em países onde o poder é arbitrário, a imprensa controlada e as disputas levam a combates trágicos, com gente inocente morta ou exilada. À escola cabe mostrar que nossos problemas políticos são conhecidos, se tivermos liberdade de expressão, e resolvidos sem recorrer a armas, se participarmos conscientemente de eleições livres.

Isso nos leva à segunda lição, que é a formação democrática isenta, com o objetivo de politizar os alunos, mas sem partidarizá-los. As escolas ajudarão a construir a cultura democrática para essa participação se mostrarem o que podem ou não fazer vereadores e prefeitos e qual a importância das câmaras, dos tribunais, da independência dos poderes e da contínua participação popular. É interessante, nesse sentido, estimular os jovens a identificar problemas sociais e ambientais em seu município ou bairro e a apresentar e debater propostas para aperfeiçoar transportes, destinação de lixo, arborização de ruas e equipamentos esportivos.

Para cumprir essa importante função social, a escola não estará se desviando de seus objetivos centrais, uma vez que os conhecimentos de Ciências Humanas ou Naturais, de Linguagens ou Matemática podem ser desenvolvidos em contexto, tanto para o diagnóstico e a elaboração de propostas quanto para sua apresentação e seu debate. Qualquer alinhamento partidário deve ser evitado, até porque exige-se da Educação que seja conduzida com isenção, o que não a impede de debater questões sociais com sentido ético e prático. E a contribuição da escola à construção da democracia será essencial se ela desenvolver a compreensão de que a política é importante demais para ser deixada só para os políticos.

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