Equipe que trabalha unida...

... administra a escola com mais eficiência, oferece um trabalho pedagógico de qualidade e melhora o desempenho dos alunos

POR:
Paola Gentile

Em 1996, a Escola Estadual Professor Motta e Albuquerque, na periferia do Recife, estava na lista das unidades que seriam desativadas pela Secretaria da Educação. O nível de aprendizado dos poucos alunos era muito abaixo do esperado. Os pais procuravam outros colégios para colocar os filhos e nenhum professor queria lecionar lá. Em 2001, ela virou notícia nos jornais locais. Não por fechar as portas. Ao contrário. O número de matrículas havia quadruplicado, com queda nas taxas de evasão e repetência e, o melhor, as notas dos alunos da 8ª série no Sistema de Avaliação do Ensino Básico, o Saeb, estavam acima da média nacional.

Os organizadores da prova quiseram saber o que fazia da Motta e Albuquerque uma escola onde os estudantes conseguem desenvolver as habilidades esperadas apesar do baixo nível socioeconômico da comunidade. E encontraram o motivo: o comprometimento de toda a equipe docente na resolução de problemas e a boa relação da direção com funcionários, alunos e familiares.

Essa história começa na época da ameaça de fechamento do colégio. A pedagoga Rosemary de Souza Andrade trabalhava no gabinete da Secretaria da Educação de Pernambuco e ficou impressionada com a notícia. Apesar de não ter experiência na função, comentou com colegas que, se pudesse, assumiria a direção da Motta e Albuquerque só para não vê-la desaparecer. Cinco dias depois, sua nomeação era publicada no Diário Oficial. Aos poucos, montou a equipe e descobriu um jeito de trabalhar, fazendo tudo o que lhe cobravam, sem ter medo de pedir a cooperação de todos.

Cada um ajuda como pode

O resultado saiu melhor do que a encomenda porque o segredo é a fórmula: dividir tarefas e abrir espaço para que todos proponham soluções ajuda a tirar qualquer instituição do buraco. E um diretor com espírito democrático tem a chave para a descentralização. No caso da escola recifense, foi quase um lance de sorte a nomeação de Rosemary, alguém que se recusa a ver a própria gestão marcada pela concentração de poder. Ela confessa que não gosta da parte burocrática do cargo, mas não foge da responsabilidade e todo dia lê e assina documentos. "O importante é não perder de vista que educar é a prioridade número 1. O resto é secundário", diz. Por isso, a diretora não abre mão de participar das reuniões pedagógicas e do contato com pais e alunos.

No dia-a-dia, todo o corpo docente assume outras funções, conforme as características pessoais de cada um. Maria Lúcia Quirino, por exemplo, usa sua experiência de professora de Matemática para estruturar o horário escolar e distribuir a grade para os colegas. Sueli Moraes, de Língua Portuguesa e Arte, organiza todas as festas, nos mínimos detalhes: decoração, convites, contatos com a comunidade, ensaios de apresentações. Anielly de Oliveira, de Educação Física, quando não está na quadra, faz levantamentos de preços para a compra dos materiais que a escola precisa.

Nada foi imposto na Motta e Albuquerque. As professoras acima tomaram essas responsabilidades para si como uma forma de ajudar a reestruturar a escola. Depois, incorporaram as tarefas à rotina porque as executaram com prazer e a contento. "Hoje, temos espaço para discutir desde as dificuldades em sala de aula até os entraves burocráticos. Sentimo-nos responsáveis pelo colégio e não admitimos ver alguma coisa funcionando mal", afirma Sueli.

Administrar de verdade

"Todas as ações dentro da escola devem favorecer o pedagógico. Nenhuma atividade-meio pode atropelar esse caminho", endossa Vitor Henrique Paro, professor de Administração Escolar da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Ele lembra que, para a maioria das pessoas, as funções administrativas são relacionadas a procedimentos burocráticos, com regulamentos rígidos e alguém fiscalizando o trabalho alheio. Apesar de esse conceito ser muito disseminado, ele nada tem a ver com o sentido da palavra administração, que é a utilização racional dos recursos disponíveis para alcançar determinados objetivos.

"A questão pedagógica está presente no prédio bem conservado e na secretaria organizada, que fornece informações corretas aos interessados. Isso é sinal de civilidade", afirma Clarilza Prado de Souza, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas em São Paulo e coordenadora da pesquisa qualitativa do Saeb. "O ideal é, dentro da escola, cada pessoa fazer o que sabe, explorar seu potencial", ressalta Paro. Nesse sentido, o diretor tem um papel fundamental: o de motivar o grupo e garantir os meios para que os objetivos sejam alcançados. Acima de tudo, ele (ou ela) deve confiar missões à equipe e cobrar resultados, sem impor um jeito de executar o trabalho.

Quer exemplos? Quem cuida da documentação deve ser organizado, capaz planejar tarefas e eleger prioridades. Aqueles que fazem o contato com a comunidade precisam se comunicar com clareza e conhecer bem as várias entidades da região. E os que cuidam do projeto pedagógico são, necessariamente, os mais preparados para discutir questões do tema e do dia-a-dia dentro da sala de aula. Um caminho para concretizar essa divisão de responsabilidades, sugere Paro, é formalizar a criação de colegiado, com gente de diferentes perfis disposta a compartilhar a gestão.

Envolvimento e cobrança

Isso já é realidade em parte da rede municipal de Diadema, na Grande São Paulo. Os diretores e vices estão sendo substituídos por professores coordenadores de unidade e professores assistentes de coordenação. Mais do que uma simples mudança de nome, o novo termo deixa transparente que o cargo passa a ser exercido por profissionais que estão apenas temporariamente fora de suas funções de sala de aula.

Luciano Augusto Rocha, regente de classes de aceleração, e Rosemeire Gama Bezerra, de Educação Infantil, cuidam desde fevereiro da gestão da Escola Municipal Manoel Fiel Filho. Eles foram eleitos com 70% dos votos dos funcionários, professores, pais e alunos com mais de 14 anos. Nos dois meses de campanha, tiveram de apresentar propostas concretas, discuti-las com o colégio eleitoral e debater com a chapa concorrente. "Sinto que o corpo docente se envolve mais. E também cobra mais. Temos de ouvir todos, principalmente os que não votaram em nós ", diz Luciano.

Ele e Rosemeire trabalham juntos todas as segundas-feiras pela manhã e pelo menos durante duas horas nos outros dias. Reconhecem que ainda gastam 70% do tempo com a burocracia, mas com a votação do regimento interno, prevista para este mês de abril, passarão a ter outros professores responsáveis por várias áreas. "Nossa meta é dedicar mais tempo aos aspectos pedagógicos", afirma Rosemeire.

Em tempo: Rosemary Andrade, depois de seis anos à frente da escola do Recife, foi eleita no final de 2001 para um mandato de mais três anos.

Quer saber mais?

CONTATOS

Escola Estadual Professor Motta e Albuquerque, R. Soares Moreno, 117, CEP 52051-120, Recife, PE, tel. (0_ _ 81) 3441-8070

Escola Municipal Manoel Fiel Filho, R. Índia, 55, CEP 09940-060, Diadema, SP, tel. (0_ _11) 4071-4897 

BIBLIOGRAFIA

Administração Escolar,

Vitor Henrique Paro, 175 págs., Ed. Cortez, tel. (0_ _11) 3864-0111, 19 reais

Administração Escolar e Política da Educação, Fátima Cunha F. Pinto e outros (org.), Ed. Unimep, tel. (0_ _19) 3124-1515, somente para consulta

Por Dentro da Escola Pública, Vitor Henrique Paro, 335 págs., Ed. Xamã, tel. (0_ _11) 5574-7017, 27 reais

 
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