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"O trabalho que o estado fez com o Ensino Médio foi uma estratégia vitoriosa"

À frente da pasta desde 2015, Fred Amâncio planeja finalizar e entregar, ainda neste ano, ao Conselho Estadual de Educação, documento que define o novo Ensino Médio

POR:
Laís Semis

Em 2019, NOVA ESCOLA vai publicar entrevistas com os secretários de Educação dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal para ouvir os planos, as perspectivas e as opiniões de quem lidera a pasta pelo país.

O secretário estadual de Educação de Pernambuco, Fred Amâncio  Crédito: Hélia Scheppa/Governo de Pernambuco

Em Pernambuco, uma das principais metas do secretário de Educação, Fred Amâncio, que está à frente da pasta desde 2015, é estruturar o novo Ensino Médio do estado. A expectativa é fechar 2019 com o documento finalizado e, talvez, até mesmo aprovado.

Para isso acontecer, Fred conta que o atual ano letivo já começa com plano de trabalho para os professores. Na secretaria de Educação, está formada uma equipe especial de dedicação exclusiva ao tema: “Começamos a mergulhar para valer no que será a arquitetura e, consequentemente, matriz curricular do novo Ensino Médio”, conta.

Junto a Espírito Santo e Goiás, Pernambuco é uma das redes estaduais com melhor desempenho na etapa. Os bons índices – o estado atinge a meta do Ideb desde 2007 –, segundo Fred, são resultado das iniciativas para tornar a escola mais atrativa para os 277 mil estudantes do Ensino Médio da rede estadual. Intercâmbios, disciplinas eletivas, projetos focados no protagonismo juvenil e grande investimento em formação de professores também entram na estratégia, que não apenas têm elevado as taxas de aprovação, como reduzido as de evasão.

Em entrevista à NOVA ESCOLA, Fred fala sobre os desafios de Pernambuco na área da Educação para o próximos anos. Ele pretende aproximar-se das redes municipais, e declara que planeja continuar ampliando a rede de escolas em tempo integral – hoje, mais de metade das escolas estaduais estão nesse modelo.

Você ocupa o cargo de secretário de Educação de Pernambuco desde 2015. Como você avalia a Educação do estado?
Historicamente, Pernambuco sempre foi um dos estados com os piores resultados. Em 2007, ocupávamos o 21º lugar no Ideb e o 26º em abandono escolar. As taxas de abandono no Ensino Médio eram de 24%, e hoje são de 1,5%.

Ao longo dos últimos 10 anos, uma série de estratégias foram implementadas com um olhar para tornar a escola mais atrativa para o estudante, valorizar o aprendizado e, consequentemente, melhorar os resultados. Investimos na melhoria de infraestrutura da escola, formações dos nossos professores e implementação de projetos que dialogam com a visão de melhorar o conjunto de indicadores do estado. Alguns deles estão ligados às escolas de tempo integral e escolas técnicas estaduais. São mudanças que tem a ver com a própria dinâmica da escola, matriz curricular, introdução das disciplinas eletivas, trabalho com protagonismo, projeto de vida, desenvolvimento de projetos.

Neste ano, já chegamos em estudantes do Fundamental. Faz parte do plano continuar ampliando a nossa rede de escolas em tempo integral. A reforma do Ensino Médio também é uma oportunidade para isso. A gente tem consciência de que é preciso avançar mais, que tem muita coisa ainda pra fazer, mas percebemos que estamos no caminho certo.

Quais são os principais desafios para os próximos quatro anos?
Chegou a hora de não olhar só para nossa rede, mas para a Educação do estado como um todo. Isso envolve, fatalmente, uma aproximação maior com as redes municipais para poder avançar com os resultados do Ensino Fundamental. Muito além do apoio financeiro, precisamos fortalecer a formação dos professores desde a Educação Infantil, investir na melhoria dos processos de gestão pedagógica e da rede para tornar o trabalho desses municípios mais eficientes.

Iniciamos esse trabalho – intitulado de Educação integrada – há dois anos com um grupo de 15 municípios que chamamos de prioritários – aqueles que têm resultados mais baixos na área, especialmente no Fundamental 1. Mas nós temos 185 municípios em Pernambuco e queremos, a cada ano, ampliar o conjunto que estará trabalhando conosco. Temos consciência de que os nossos próximos passos de avanço, por exemplo, nas nossas escolas do Ensino Médio dependem também da qualidade do nosso Ensino Fundamental. Sem construir uma estratégia forte de parceria com os municípios, não conseguiremos atingir o Ensino Médio. Por mais que a gente continue investindo na etapa, é importante que a gente tenha melhor base do ciclo de alfabetização e ao longo de todo o Fundamental.

Pernambuco trabalha com algumas políticas focadas na valorização do professor, como, por exemplo, a dedicação exclusiva. Quais são os planos futuros para ampliar essa valorização?
A valorização envolve várias dimensões. Tem a salarial, mas também tem o próprio plano de carreira e o envolvimento do professor em todos os projetos. A dedicação exclusiva dos professores nas escolas de tempo integral permite que eles possam mergulhar na escola e dar uma atenção maior ao próprio trabalho. Cria uma maior aproximação muito positiva.

Pernambuco concedeu reajuste salarial nos últimos quatro anos, apesar da crise econômica difícil no país. Temos consciência de que é necessário avançar muito mais do ponto de vista salarial. Mas não é um simples reajuste. Estamos trabalhando com o sindicato uma visão de um novo plano de cargos, com um olhar para o processo de crescimento do professor dentro da carreira – o que, claro, tem um impacto salarial, mas não apenas. Além disso, planejamos continuar investindo em projetos permanentes de formação.

Você considera que o Escola Sem Partido seja uma política prioritária para o estado?
Não acho que seja nem a maior prioridade de Pernambuco e nem do Brasil. E essa não é uma posição específica em relação à discussão que está sendo proposta pelo atual governo federal. Historicamente, nós sempre prezamos pela questão da autonomia e da liberdade de ensinar e do aprender. Essa discussão não envolve só o lado do professor, mas também do estudante. A escola tem que ser, sim, um espaço de discussão, de construção de pensamento crítico do estudante – não de colocação de posições. Dentro do atual contexto, efetivamente nós não entendemos que a melhoria da qualidade da Educação no Brasil passa prioritariamente por essa temática.

O que você pensa sobre a Educação à distância (EaD) e qual papel pretende dar para a modalidade na Educação Básica?
A gente já pratica para Educação profissional. Ela abre uma série de possibilidades porque a implementação de cursos técnicos de nível médio exige investimentos financeiros grandiosos. Uma escola técnica custa muito mais caro do que uma escola regular ou em tempo integral. Em uma região como a nossa, que nem sempre os jovens têm acesso à Educação Superior – só 18% vão para universidade –, você precisa dar oportunidade de mais formação profissional. Todas nossas escolas técnicas oferecem EaD para termos mais capilaridade, o que é totalmente cabível porque você tem uma certa dificuldade no acesso.

No entanto, no currículo de Pernambuco para Educação Básica, vou defender fortemente que a gente não implante. Para o Ensino Médio noturno, eu sempre fui favorável. Um dos maiores desafios do ensino noturno é tempo pedagógico, que é menor do que uma escola regular. O horário não ajuda. O mais comum é o professor e o estudante que chegam depois do horário e saem antes. Sem contar o índice de abstenção altíssimo dos estudantes. Adicionando uma hora a mais [nas 4 horas diárias do noturno, como propõem a reforma do Ensino Médio], fica mais difícil ainda cumprir. Com o EaD você pode abrir boas possibilidades para dar mais conteúdo para o noturno.

Considerando os desafios de implementação do Novo Ensino Médio e da Base para esta etapa de ensino, como você acha que a experiência das escolas em tempo integral pode ajudar nesse novo momento do Ensino Médio?
A visão da importância de desenvolver as diversas competências, indo além dos componentes curriculares, já é algo muito forte na formação do estudante em Pernambuco. Para nós foi muito fácil absorver o desenvolvimento das competências gerais, chamadas socioemocionais [na reformulação dos currículos da Educação Infantil e Fundamental]. Além disso, somos um estado que possui parâmetros curriculares há muito tempo. São pontos que facilitam uma visão mais ampla sobre o tema e uma cultura que vai facilitar a implementação. Tanto que quando a gente foi conversar com o Ensino Fundamental, a gente não começou do zero. Fomos olhando os parâmetros e a Base. No Médio, também vai ser um pouco assim.

Temos uma cultura que nos favorece. Entretanto, agora nós entramos em uma fase nova e extremamente complexa. Esse é o nosso desafio para esse ano. É uma discussão que vai andar em paralelo com a BNCC. É o início de um trabalho de reflexão, de aprofundamento até contribuições. Estamos fazendo todo um cronograma de atividades ao longo de todo o ano de 2019. Será um ano de muito trabalho. Não é uma mudança pequena. A nova arquitetura e os itinerários formativos trazem uma grande complexidade.

Onde vocês esperam chegar nessa discussão no final de 2019?
O nosso planejamento é chegar à proposta de arquitetura da estrutura do Ensino Médio para o estado de Pernambuco. Não só uma estrutura geral, mas com uma arquitetura e proposta de matriz curricular, com itinerários formativos regionalizados. Até o final do ano, esperamos que a proposta esteja entregue ao Conselho Estadual.

Os estados ajudaram os municípios na construção dos currículos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, mas uma das grandes críticas sobre a Base do Ensino Médio é que ela traz poucos indicativos sobre a organização dos componentes curriculares – agora diluídos em áreas do conhecimento. O trabalho de desdobrar como isso acontece vai recair sobre os estados. E agora?
É verdade. Mas os estados participaram dessa construção e concordamos que era necessário dar mais flexibilidade nos processos de construção dos currículos, mesmo sabendo que isso traria uma complexidade imensa porque não temos a tradição de áreas de conhecimento no Brasil.

Construir o currículo do Ensino Médio vai dar 10 vezes mais trabalho do que foi construir o da Educação Infantil e Fundamental. A complexidade não vem só do processo construção de currículo, mas do desenho dos itinerários formativos. Eu acredito que, para este início, a maior parte dos estados terá uma tendência um pouquinho mais conservadora para dar os primeiros passos.

A gente vai continuar vendo disciplinas do mesmo jeito. Você pode ter disposições diferenciadas, por exemplo, em que em alguns estados não necessariamente vão ter todos os componentes em todos os anos. Será um novo desenho, mas os componentes vão estar lá. Já nos itinerários, vamos ter muita novidade.

Que aprendizados você acha que o estado pode compartilhar com o Brasil?
Realmente eu acho que o trabalho que o estado fez com o Ensino Médio foi uma estratégia vitoriosa. Claro, nenhuma estratégia ou projeto é tão bom que não precise ser aprimorado, mas acho que criamos uma estratégia poderosa que influenciou e inspirou o trabalho de vários estados. Até março, temos quatro secretários novos com visitas programadas para conhecer de perto o nosso trabalho. E, é claro, a gente tem que aprender muito, até mesmo no processo de colaboração com os municípios, para poder avançar também no Ensino Fundamental.

 

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