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O que ninguém te conta sobre a Educação na Finlândia

Jarkko Wickstrom, diretor de Operações da Finland University na América Latina, retoma a trajetória educacional do país e analisa os caminhos e políticas brasileiras para a área

POR:
Laís Semis
Sala de aula na Educação Básica na Finlândia  Foto: Hata Metso

“Todos os nossos recursos naturais se resumem à madeira, água e muito frio. Essa é a nossa receita  para [fazer] a melhor Educação no mundo”, brinca o finlandês Jarkko Wickstrom, diretor de Operações da Finland University na América Latina. “A brincadeira com os recursos naturais é só para ilustrar que não foi fácil também chegar onde chegamos. É preciso ter criatividade”, afirma.

Reconhecida como modelo bem-sucedido de Educação pública – por quatro anos consecutivos, o país ficou entre os primeiros lugares no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) há um lado da Finlândia que é normalmente deixado de fora da conversa. Mas ele nos mostra que mesmo em cenários socioeconômicos conturbados, investimentos conscientes e políticas com continuidade podem fazer a diferença.

Na Finlândia...

 88% das pessoas entre 25 e 64 anos concluíram o Ensino Médio. A média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que aplica o Pisa, é de 74%;

 Desde 2000, a Finlândia está entre as primeiras posições do Pisa;

 Há cerca de 500 mil alunos e 50 mil professores na Educação Básica

Jarkko Wickstrom durante sua palestra no Scandinavian Day em São Paulo   Foto: Divulgação

O que pouca gente fala sobre a Finlândia

Jarkko Wickstrom adianta que, de forma geral, as conversas sobre a Educação na Finlândia sempre têm por base escala, recursos e dificuldades. “Garanto que a Finlândia tem todos os motivos para não criar um sistema educacional que funcione”, ele diz. A independência do país é relativamente recente, só sendo reconhecida em 1918. Até então, a Finlândia integrava o Império Russo e, antes disso, era parte da Suécia – o que explica o sueco ser a língua oficial ao lado do finlandês.

Ao contrário do que ocorreu no Brasil, a declaração de independência não veio de graça: por quase quatro meses, o país viveu uma sangrenta guerra civil, que além de dividir a população, resultou em aproximadamente 37 mil mortes e abalou sua economia. Entre 1939 e 1940, os finlandeses voltaram à guerra, desta vez contra a União Soviética na chamada Guerra de Inverno. É importante ressaltar que até a década de 1950, a Finlândia possuía uma economia essencialmente agrária. “Estávamos passando fome de novo, com taxas de desemprego altíssimo, bem como altos índices de suicídio”, relembra o diretor de Operações da Finland University na América Latina. “Há 70 anos, éramos um dos países mais pobres da Europa. Foi através da Educação que as mudanças ocorreram na Finlândia”.

Soldados finlandeses durante a Guerra de Inverno, em 1940. As temperaturas durante o confronto chegavam a -40º. Crédito: Divulgação Governo da Finlândia/Wikimedia Commons

Engana-se quem pensa que ao apostar na Educação, a Finlândia investiu em salas de aula com a melhor tecnologia do momento. “A gente usava o material que tinha”, diz Jarkko. Muitas das escolas, aliás, eram feitas de madeira e ficavam a 15 km de uma região habitada. A chave do sistema educacional não estava no espaço ou no material. “Há uma onda de inovação educacional em que o pessoal presta muita atenção na sala de aula”, aponta Jarkko. “As escolas investem muito nisso, chamam de espaços inovadores. Mas e a mudança de paradigma para o conteúdo e a aprendizagem? Quem lidera mesmo esse processo é o professor. E nós sempre nos concentramos nisso”.

Apesar de ser um país pequeno – sua população é de 5,3 milhões de pessoas (a cidade do Rio de Janeiro tem aproximadamente 6,3 milhões) – a FinlIandia possui uma das menores densidades populacionais da Europa. “No Brasil, a densidade é de 17 habitantes por quilômetro quadrado. Na Finlândia, são 15. O fato da população ser bastante dividida entre o território não facilita a organização”, diz o educador. Dada a situação econômica e climática do país, muitas famílias não conseguiam manter todas as crianças na escola. “Às vezes, era preciso escolher uma pessoa da família para ser escolarizada porque só havia um único par de sapatos. É difícil andar 15 km descalço na neve”.

Ousadia 

Hoje, a Finlândia possui consciência dos fatores necessários para garantir os padrões de qualidade educacional. O processo de aprendizado incluiu alguns acertos inconscientes. “Foi mais barato para o governo legendar os programas na TV pública do que dublar”, exemplifica Jarkko. “A escolher a legendagem, esse recurso ajudou a melhorar a leitura dos alunos e a aprendizagem da Língua Inglesa”.

Outras medidas foram muito conscientes da necessidade do país, como é o caso da seleção de professores – que é muito diferente da realidade brasileira. “No Brasil, em geral, são as pessoas com piores notas que vão para os cursos de Pedagogia. Na Finlândia, são os melhores candidatos que se tornam professores”, aponta. Além disso, há seleção de professores e a qualificação mínima para estar em sala de aula da Educação Básica é o mestrado.

A crise financeira que atravessou o país nos anos 1990 implicou um corte de gastos na Educação. “Geralmente, não combina muito cortar verba e melhorar a qualidade”, comenta Jarkko. A Finlândia tomou uma decisão ousada e cortou os cargos de coordenadores pedagógicos. Mas para "compensar" o corte, o governo investiu em mais treinamento para os professores. “Assim, eles poderiam garantir a qualidade e a continuação da liderança desse processo”.

Convidado especial do Scandinavian Day, evento organizado pela consultoria Imagem Corporativa, Jarkko Wickstrom analisa os desafios educacionais e as políticas públicas brasileiras que podem apoiar transformações no cenário nacional.

A trajetória da Finlândia passa por guerras, disputas de território e crises econômicas. Qual foi a chave para reverter o cenário educacional? Foram mudanças estruturais focadas na Educação que garantiram o salto do país?
JARKKO WICKSTROM O que aparece sempre na mídia é uma história de salto. Isso é parcialmente mentira. Não houve salto de uma década para outra. A história começa em 1286, com a primeira escola catedral na Finlândia católica. A chave foi, ao longo do tempo, tomar decisões para investir não só dinheiro, mas toda nossa atenção, enquanto sociedade, na Educação com continuidade. Independentemente da conversa política, durante décadas sempre investimos na Educação. Os recursos melhoraram muito depois da Segunda Guerra Mundial, o que resultou também em mais e melhores recursos na Educação.

O salto apareceu nas avaliações e foi aí que começaram a procurar as razões por trás disso. São razões ridículas. Foi mais barato para o governo legendar programas na TV pública da Finlândia do que dublar. Ao escolher a legendagem, isso melhorou a leitura dos alunos e aprendizagem de Língua Inglesa. Então, não podemos falar que foi uma decisão consciente que resultou em algum salto. Pelo contrário, nossa mensagem é que não houve salto. Na Educação só existe processo – que você pode acertar e tentar construir uma continuidade ou não. A nossa escolha foi construir esse processo e as avaliações internacionais mostram que alguma parte disso deu certo.

Há uma grande diferença na formação e seleção de professores no Brasil e na Finlândia. Vejo que uma das dificuldades em selecionar os melhores candidatos para a docência no Brasil está atrelada à questão salarial. Hoje, a carreira do professor brasileiro não é atraente em termos financeiros ou de valorização social. Quais outros entraves você identifica para o Brasil selecionar os melhores candidatos para a sala de aula?
Esse é o ponto mais difícil de adaptar em uma outra cultura. A construção de importância da profissão de professores na sociedade foi feita ao longo do tempo. A independência da Finlândia tem 100 anos, mas o sistema educacional é mais antigo do que isso. A construção do papel social do professor envolve muitos fatores, não apenas o salário. Tem que ser um salário atrativo, mas na Finlândia, os professores ganham um salário “médio”. Não dá para viver uma vida de luxo, mas o básico é bem confortável. A questão é que para dar confiança aos professores, você precisa treiná-los bem. Se você os treinou bem, eles merecem um salário melhor e, com isso, a profissão torna-se mais atrativa. Ao mesmo tempo, o governo precisa regulamentar a formação de professores para não ter uma diferença tão grande entre formações.

Diferença de formação entre quem está entrando na carreira e quem já está em sala de aula?
Entre quem se forma na universidade X e Y. Nestes anos todos vivendo no Brasil, eu conheci centros de excelência na formação de professores, na pesquisa acadêmica, na sala de aula invertida, nos métodos inovadores… há ilhas de excelência em tudo no Brasil. Para você melhorar o papel e posição do professor na sociedade, você tem que fazer o mesmo que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) faz: algum teste que certifique que essas pessoas que se formaram são capazes de trabalhar em uma posição importante. Com o tempo, isso traz um privilégio.

A prova, sozinha, não resolve tudo. Em geral, não acreditamos que tem pessoas melhores e piores para serem treinadas. O que acontece é que na Finlândia, o processo seletivo procura os melhores candidatos para serem professores. A gente não quer que o melhor advogado seja professor. A responsabilidade depois do perfil, é na formação. A formação inicial, com mais prática e com mentoria. Aqui, a parte prática, os estágios de professores são muito aleatórios. O nosso modelo é acompanhar de perto e caminhar junto com a formação acadêmica e de identidade do professor.

O mesmo vale para a formação continuada: é para dar mais motivação e também mais responsabilidade ao corpo docente. Nas cooperações com o Brasil, percebemos que aqui isso envolve muito o treinamento de lideranças escolares. Os gestores escolares precisam estar ainda mais motivados para as coisas mudarem. É uma questão de mudança de paradigma. A resposta é a formação continuada em prática, não aquela formação continuada de “Ah, a escola inteira vai assistir três dias de palestra sobre métodos ativos”. Professor é uma profissão. Por isso, a formação precisa ser profissionalizante e tem que ser prática. No  nosso caso, isso deu resultado e é algo que poderia ser testado também no Brasil.

Na Finlândia, a Educação está muito atrelada também à pesquisa na área. Como você avalia a pesquisa em Educação no Brasil?
Tem bastante produção acadêmica, muito mais do que na Finlândia, se a gente falar em números. O que falta é o uso da pesquisa como ferramenta de ensino e aí, eu já respondo que não tem suficiente. O "professor padrão" fez graduação ou licenciatura e ainda não tem o pacote de ferramentas de um pesquisador. Por isso, ele não consegue usar a pesquisa como ferramenta na sala de aula, com seus alunos, com a sua turma. A chave na Finlândia foi a legislação de 1969, que levantou muito os requisitos mínimos de acesso à carreira e estabeleceu que professor precisa fazer mestrado. Assim, ele sabe pesquisar o próprio trabalho e se questionar: como as metodologias que estou testando estão dando resultado ali? Um pensamento analítico de pesquisador e como elemento de trabalho. Isso falta no Brasil. Os professores gostam muito desse modelo e enxergam o proveito dessa ferramenta no trabalho, no dia a dia deles. Não precisa nem mais uma publicação sobre a prática. É preciso usar isso no dia a dia em escala. Geralmente, no Brasil, é mais o coordenador pedagógico ou o Ministério da Educação que fala como tem que ser feito. E o professor vira o quê? O cara que executa. No melhor caso, uma pessoa com boas intenções, boa formação, com motivação. Na maioria dos casos, uma pessoa mais passiva do que seria bom para aquele processo de aprendizagem.

A escola na Finlândia se preocupa bastante com o desenvolvendo de habilidades que possam colaborar para o desenvolvimento da nação para o futuro. Que habilidades você identifica como essenciais que integram o currículo ou que ajudam nessa construção?
O mundo de valores nos países nórdicos é passado nas entrelinhas. Almejar melhor qualidade do ar, encontrar óleo e pensar que isso não nos pertence, mas pertence a duas gerações para frente… são coisas que não estão currículo, mas são passadas em suas entrelinhas. Claro, nossa primeira Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi feita na década de 1970 e, de tempos em tempos, é feita uma reforma. Agora estamos na sétima reforma. Conforme o mundo muda, a base curricular precisa mudar. E também vale dizer que a Base Curricular não é usada em lugar nenhum. Ela é apenas a base de planejamento municipal, que é usado como base para as escolas. Cada escola adapta o currículo, todo ano. A última reforma foi colocada em prática em 2016 e nela foi definida que a Base teria objetivos e algumas habilidades, não conteúdo. Entre as habilidades estão: aprendendo a aprender, que significa procurar, virar um ser ativo, ao invés de passivo, com responsabilidade; multiletramentos, que inclui a leitura de todas as mídias, atuais e futuras; formação de cidadãos e convívio com a tecnologia. Essas são as habilidades mais importantes. Aqui, muitas universidades estão tentando criar um ambiente inovador, tornar os estudantes abertos e responsáveis pelo próprio futuro. Para a gente isso é objetivo na Educação Básica.

Considerando os desafios brasileiros da Educação Básica, qual você considera ser o nosso maior acerto em termos de políticas públicas nesse momento e no quê deveríamos investir?
Com certeza, BNCC. Mesmo com todos os problemas e acertos, começar esse processo de ter uma Base e uma conversa de como usá-la como ferramenta é muito importante. E, com isso, o movimento de tirar da legislação as disciplinas obrigatórias [Base do Ensino Médio] e trazer na Base essa conversa multidisciplinar. Apesar de ser um acerto, é preciso entender que é um processo lento. Para isso, será preciso continuidade. Isso é algo que não vejo muito no Brasil. Para isso, precisamos deixar a Educação fora da discussão política.

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