Descompasso de objetivos

Professores formados em Letras, Matemática e Ciências Biológicas têm pouco contato com disciplinas voltadas para como ensinar

POR:
Liliana Lavoratti

Como deveria ser o currículo de uma boa licenciatura? Composto de disciplinas que ensinam as didáticas específicas (que incluem os diversos conhecimentos sobre o objeto de ensino, como os alunos aprendem esses conteúdos e como ensiná-los para diversas modalidades) e das que ampliam o saber que os professores precisam dominar (relativas a ciências de referência, como Matemática pura, Lingüística, Biologia etc.).

Porém uma pesquisa feita pela Fundação Carlos Chagas (FCC) para a revista NOVA ESCOLA constatou que essa diversidade, quando existe, é desequilibrada. "O tempo dedicado à aprendizagem de conhecimentos da área é maior do que o reservado ao ensino de didáticas", afirma a coordenadora da pesquisa, Marina Muniz Rossa Nunes, da FCC. O estudo é baseado na análise de currículos de 94 licenciaturas de todo o país (32 em Letras, 31 em Matemática e 31 em Ciências Biológicas - as áreas que respondem pela maior parte da carga horária do Ensino Fundamental), respeitando a proporção entre entidades públicas e privadas, distribuição regional e dependência administrativa (federais, estaduais e municipais).

As discrepâncias chamam mais a atenção em Ciências Biológicas e Letras. Ambos os cursos têm perfil de bacharelado (que preparam especialistas e pesquisadores) e se distanciam do ideal de um programa de licenciatura (que forma profissionais para ensinar desde o 6º ano até o fim da Educação Básica). "A preparação para a atuação docente é pouco valorizada em todos os cursos superiores", afirma Sanny Silva da Rosa, pró-reitora de graduação da Universidade São Marcos, em São Paulo. Com ela, concordam o universitário e os recém-formados que dão depoimento nas páginas seguintes.

"Um graduado em Letras pode atuar como professor ou tradutor. O que diferencia uma profissão da outra é a capacidade de ensinar e de fazer com que o aluno aprenda com base em conhecimentos didáticos", ilustra Marina. Mesmo quando o ensino dos saberes pedagógicos aparece na grade curricular, raramente ele está articulado com os conteúdos: os futuros professores aprendem sobre o que ensinar, não como fazer isso. "A maioria das instituições não trabalha na perspectiva de que os estudantes desses cursos, quando estiverem atuando na escola, precisarão fazer uma transposição didática dos saberes das ciências de referência para que os alunos aprendam", assinala Nilson José Machado, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

Para a pesquisadora da FCC, Gisela Lobo Tartuce, a formação de professores, no modelo vigente nas universidades brasileiras, é considerada uma atividade menor: "As ações voltadas à pesquisa e à pósgraduação aparecem com extrema importância e a elas são destinados os maiores recursos e atenção, enquanto as que têm como objetivo formar docentes são, na prática, muito desprestigiadas".

A pesquisa chegou a outras constatações desanimadoras: em 95% dos cursos analisados, os estágios não são integrados à prática de sala de aula e não há acompanhamento adequado por parte dos orientadores; os saberes relacionados a tecnologias no ensino estão praticamente ausentes; as ementas não especificam como são usadas as muitas horas dedicadas a atividades complementares, culturais ou seminários nem como elas são avaliadas; e é irrisória a participação de disciplinas referentes à gestão, Educação Inclusiva e Educação de Jovens e Adultos (EJA), situação muito próxima à constatada pela análise dos cursos de Pedagogia, também realizada pela FCC.Os concursos de professores para o ensino Fundamental e o Médio seguem a lógica das licenciaturas, avaliando os fundamentos da Educação, legislação e estrutura e funcionamento do ensino e exigindo pouco ou quase nada sobre conhecimentos didáticos dos que vão atuar nas redes. As principais características de cada curso, você conhece a seguir. 


Letras

Conhecimento didático é pouco valorizado

Didáticas de menos

"Só tive disciplinas que envolviam didáticas no 1º ano da faculdade."

Licenciada em Letras em 2007, Sandra Regina Balestrin Gorris percebeu somente este ano, quando começou a lecionar em Francisco Beltrão, a 490 quilômetros de Curitiba, que sua formação estava aquém das necessidades das turmas de ensino Fundamental e Médio que encontrou: "Só tive disciplinas que envolviam didáticas no primeiro ano da faculdade. Isso foi quase nada perto do desafio que é enfrentar alunos que aprendem de forma diferente e cada um a seu tempo". Segundo Sandra, as universidades deveriam pensar em preparar o professor de uma forma mais conectada com o que ele vai encontrar na escola.

 

Em consonância com a tendência verificada também em Ciências Biológicas e Matemática, a licenciatura em Letras - que forma professores de Língua Portuguesa - apresenta distorções. Dentre elas, a principal é o descompasso entre os conhecimentos específicos e os conteúdos para a docência - 51,6% contra 10,5% da carga total das disciplinas obrigatórias.

Muitos cursos enfatizam os estudos lingüísticos (embasados nas ciências da linguagem) e deixam em segundo plano os conteúdos ministrados na Educação Básica e a aprendizagem da norma culta da Língua Portuguesa. "De pouco adianta um professor dominar conhecimentos lingüísticos complexos se não souber ensinar o básico para suas turmas", afirma Marina, da FCC.

As ciências da linguagem devem estar presentes na primeira etapa da formação do docente, mas em menor proporção. É importante que um professor domine conteúdos que levem à ref lexão sobre o idioma, mas desde que isso não ultrapasse o peso dado aos conhecimentos previstos para serem trabalhados na Educação Básica, como a sistematização da gramática, a compreensão de textos, a literatura e as didáticas da leitura e escrita - o que hoje está por volta de 5% do currículo.

Essa situação leva o professor a ter sua atuação comprometida justamente na fase em que o aluno deveria se aprofundar na produção textual, escrevendo dentro das regras gramaticais, e mergulhar na leitura de obras literárias. Essa desproporção deveria servir de alerta para os profissionais envolvidos na formação inicial.

"Na formação inicial, é preciso valorizar mais as disciplinas pedagógicas, que geralmente ficam a cargo dos cursos de Pedagogia (ou Educação), no caso das universidades - enquanto os conteúdos são de responsabilidade das faculdades de cada uma das áreas específicas", ressalta a coordenadora da pesquisa pela FCC.

A análise em detalhes da estrutura de vários componentes curriculares (aulas presenciais, projetos pedagógicos, estágios) revelou que, mesmo nas instituições onde a carga horária e o número de disciplinas são equivalentes (17% do total de cursos pesquisados), a disparidade entre fundamentos, conhecimentos das ciências de referência e didáticas se revela. "Muitos itens constam das ementas de maneira vaga e não permitem compreender o que acontece na prática", conclui Marina.

"Os concursos que selecionam professores para atuar nas redes públicas formulam questões com base nos currículos que existem nos cursos de licenciatura. Por isso, quase não se encontram nas provas perguntas que exijam a ref lexão sobre a prática pedagógica", observa Gisela Tartuce, da FCC. As provas avaliam o conhecimento sobre gramática, técnicas de leitura e interpretação de texto. O domínio de conhecimentos literários é o ponto mais frágil. Fica a dúvida - e isso serve para todas as áreas: se os concursos exigissem mais conhecimento didático, os cursos de licenciatura se sentiriam pressionados a mudar os currículos?

Letras

Número de cursos* 971
Número de alunos* 173 mil
Concluintes* 28,5 mil* 


Matemática

Faltam disciplinas sobre os diferentes segmentos 

Sem prática para inclusão

"Não aprendi como ensinar a disciplina a alunos com deficiência."

Victor Vaz Pavani fez licenciatura em Matemática em uma instituição pública considerada umas das melhores do país. "Embora forte em Matemática pura, o curso falhou em didática", afirma o professor, formado em 2006. O excesso de conteúdos voltados à especialização não era proporcional aos poucos momentos em que o graduando aprende a dar aula. "Não aprendi como ensinar a disciplina a alunos com deficiência", lembra. Mas isso ele só percebeu quando recebeu em suas turmas de 5ª série oito crianças com vários tipos de deficiência física e mental. Victor conclui que sua formação foi boa apenas para quem pretendia seguir a carreira acadêmica.

 


A pesquisa identificou três tipos de licenciatura em Matemática: as que priorizam o ensino da ciência pura, contemplando uma grade semelhante à do bacharelado; as que investem em formação básica e pedagógica, mas reservam pouco espaço para os conteúdos necessários para que os professores possam ensinar a disciplina no ensino Fundamental e no Médio; e as que equilibram a formação específica com didáticas, além de dar boa atenção a Filosofia e História da Educação relacionadas à área. Fica claro que esses cursos formam profissionais com diferentes perfis e ainda são poucos os que propiciam experiências contextualizadas e significativas para a construção da prática pedagógica.

Apesar da diversidade, dos três cursos pesquisados, a licenciatura em Matemática é a que apresenta um maior equilíbrio entre os conhecimentos específicos (32,1% das disciplinas e 34,1% da carga horária) e os conteúdos direcionados à docência (30% das disciplinas e 30,7% da carga horária). Isso pode ser explicado pelo fato de esse curso ter sido planejado objetivamente para formar professores, não resultando de uma adaptação do bacharelado, como é comum se encontrar em outras áreas. Para Nilson José Machado, da USP, a proporção favorável não significa necessariamente uma vantagem a ser comemorada: "O diferencial aconteceria se os conteúdos matemáticos estivessem bem articulados às respectivas didáticas, atividades e projetos. E a pesquisa conclui que não é isso o que ocorre".

Diferentemente do que acontece em Letras e Ciências, os cursos de Matemática, de forma geral, dedicam uma quantidade razoável de disciplinas que tratam de conteúdos básicos (18,1%) para o exercício da docência (seqüência numérica, álgebra, geometria, análise combinatória etc., além de práticas de ensino). Para ter uma idéia, em Letras, esse porcentual é de apenas 5%.

Entretanto, na opinião do especialista da USP, reduzir ao mínimo o conteúdo da graduação também não traz ganhos para a formação de professores. Os cursos assim estruturados não ampliam o universo de conhecimento do professor: "O fato de o cálculo diferencial integral não ser objeto de estudo das turmas do Ensino Fundamental não significa que as licenciaturas devam excluí-lo dos programas de formação. Não é preciso formar especialistas em uma ou outra área, mas os professores devem dominar mais saberes do que precisam para ensinar".

Vale destacar que as disciplinas voltadas à Educação Inclusiva aparecem em sete dos 31 cursos analisados, e a que prepara para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), em apenas um. Esse detalhe contrasta com a realidade do mercado, já que há uma alta demanda por profissionais para saber atuar com essas especificidades. "Os professores que entram em sala de aula não aprendem na formação inicial a ensinar para alunos com diferentes necessidades com as quais vão se deparar depois de graduados", diz Gisela Tartuce.

A disciplina Tecnologia está presente em todos os currículos (apenas um dos analisados não apresentou disciplina específica para trabalhar com conceitos ligados à informática). Mas os cursos demonstraram, por meio das ementas, que se dedicam com maior intensidade à discussão sobre as ferramentas mais avançadas de ensino do que a suas aplicações.

Matemática

Número de cursos* 631
Número de alunos* 73,5 mil
Concluintes* 9,3 mil*


Ciências Biológicas
Não há contato com a realidade da escola

Estágio fundamental

"Só conheci as reais necessidades dos alunos ao começar o estágio."

Embora ainda na universidade, o estudante Bruno Lanhelas, do último ano de Ciências Biológicas do Rio de Janeiro, já tem consciência do quanto faz diferença um professor sair do Ensino Superior preparado para ensinar. Essa noção, contudo, ele não adquiriu na faculdade, mas no estágio que começou a fazer este ano no CE Visconde de Cairu, na periferia da cidade: "O mundo da formação é completamente diferente do que encontrei ao entrar em uma sala de aula de verdade". Ele passou a valorizar disciplinas relacionadas à prática pedagógica e a perceber como é insuficiente a carga horária dedicada a esses conteúdos.

 


As licenciaturas em Ciências Biológicas apresentaram a maior discrepância entre os pesos dados à formação específica e ao preparo do professor, em comparação com os demais cursos. A análise dos dados das grades curriculares de 31 licenciaturas mostrou que os conhecimentos da área somam 64,3% das disciplinas obrigatórias, sendo apenas 10,4% reservadas à preparação para a docência. "Enquanto a maioria dos cursos de Matemática segue a estrutura da licenciatura, os de Ciências Biológicas - assim como os de Letras - têm o perfil de bacharelado", comenta Marina Muniz Rossa Nunes, da FCC. Para piorar, somente alguns poucos cursos analisados explicitam a exigência de o aluno fazer estágio, conforme o previsto pelas diretrizes curriculares da área. E, quando ele é previsto, não segue um plano detalhado nem são devidamente supervisionados.

Entretanto, dentro do pouco tempo reservado aos conteúdos docentes, há ênfase em didáticas, metodologias e práticas de ensino. Esse detalhe ameniza o descompasso apresentado na grade curricular entre as disciplinas que tratam das ciências de referência e as que se dedicam ao conhecimento pedagógico, mas está muito aquém do necessário para tornar a graduação na área mais equilibrada.

Uma inovação encontrada foi a presença, em 25% dos cursos, da disciplina de Bioética, vinculada às descobertas científicas atuais - o que mostra uma atualização mais dinâmica dos conteúdos curriculares. No entanto, as ementas revelam que o foco dessa disciplina está nas discussões éticas, e não há menção de como o tema deveria ser tratado em sala de aula com os alunos da Educação Básica.

A análise mais detalhada do currículo permite concluir também que boa parte dos cursos (42%) contempla a temática evolutiva, conforme pregam as Diretrizes Curriculares de Ciências Biológicas. Os princípios da evolução estão presentes também nos conteúdos de Botânica, Zoologia, Biologia Celular e Molecular, Fisiologia Humana e outras disciplinas. Algumas delas articulam conceitos ecológicos e aspectos relativos à presença humana, o que facilita o trabalho dos futuros professores com temas como vida e ambiente, sustentabilidade, biodiversidade e Educação Ambiental, previstos nos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Em apenas um currículo analisado, constava uma disciplina que propicia a produção de conhecimentos por meio de pesquisa e projetos acadêmicos ligados à escola. A cada semestre, são propostas questões como as dificuldades do ensino dos conteúdos das áreas de Ciências na escola, a integração dos alunos com deficiência e investigações nas temáticas Educação Ambiental e Orientação Sexual.

Nos concursos que selecionam professores da área de Biologia, assim como nos de Matemática, os livros didáticos são as principais referências bibliográficas. Isso empobrece o critério de seleção, já que esse material aborda o conteúdo em nível de profundidade exigido no ensino Fundamental e do Médio, mais restrito e simplificado face ao que se espera que um professor da área domine. 

Ciências Biológicas

Número de cursos* 842
Número de alunos* 127 mil
Concluintes* 11,3 mil

Fonte: INEP * em 2006

 

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