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Matéria de capa | Inclusão


Por: Pedro Annunciato e Anna Rachel Ferreira

Conheça os principais obstáculos que alunos com deficiência encontram e ajude-os

a superá-los

Veja como eliminar os entraves que aparecem no dia a dia e saiba onde buscar apoio

AUDITIVA 

A barreira da língua

Imagine entrar numa sala de aula em que todo mundo só fala alemão. Se não houver algum tipo de tradução, você ficará perdido. É assim que a comunidade surda se sente - e ela não é pequena. Estima-se que 9,7 milhões de brasileiros possuem algum grau de surdez. É o segundo tipo de deficiência mais comum, atrás da deficiência visual. Nas escolas, são quase 50 mil alunos matriculados com esse perfil. Nem todos são completamente surdos, e também não é verdade que todo surdo seja mudo - eles apenas não aprenderam a falar como os ouvintes. Por isso, dê espaço para a criança surda mostrar como quer se comunicar e promova uma educação bilíngue: em português e em língua brasileira de sinais (Libras).

COMO ELIMINAR OS ENTRAVES

  • Busque apoio: A legislação brasileira prevê o direito a intérprete de Libras nas escolas, que sejam capazes de traduzir as falas e intermediar a relação. Não é fácil, mas vale pedir ajuda à gestão e buscar maneiras de viabilizar esse recurso.
  • Aprenda Libras: Existem cursos online gratuitos, como o da USP (ver referência no quadro abaixo), que ensinam as noções básicas da língua. Vale também transmitir esse conhecimento para os alunos da classe e até para a equipe da escola.
  • Escolha bem os materiais: Na hora de separar materiais para as aulas, como filmes e vídeos, prefira versões com legenda. Plataformas como o YouTube oferecem, inclusive, essa função.
CASO

Em Santo Antônio do Monte (MG), o professor Pedro Paulo Ribeiro Gonçalves atua como intérprete de Libras acompanhando dois irmãos gêmeos do 5º ano, da EE Padre Paulo. Pedro frequenta as aulas da professora Maria do Rosário Mascarenhas, titular da classe, e traduz tanto as orientações da docente para os irmãos quanto as dúvidas deles para a professora. “Minha função é tornar o diálogo possível para que os alunos desenvolvam as suas potencialidades”, conta o intérprete.

Foto: Isis Medeiros/NOVA ESCOLA

NA LEGISLAÇÃO
A Política Nacional de Educação Especial prevê que os estudantes surdos tenham acesso à educação bilíngue, ou seja, aprendam Língua Portuguesa na modalidade escrita e Libras, que é reconhecida como uma língua oficial. Também está prevista a oferta de serviços de intérprete de Libras. O texto dá, ainda, outra orientação prática: reunir os alunos surdos numa mesma turma da escola regular.

PARA SABER MAIS 
A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) possui a Derdic, instituição sem fins lucrativos que produz materiais de formação e pesquisa na área de educação para surdos. No site, é possível encontrar artigos e boas referências para começar o trabalho: pucsp.br/derdic

MOTORA

A barreira das coisas

Um pequeno desnível, uma porta estreita, uma carteira baixa demais. Para alunos com deficiências motoras, que podem afetar o movimento dos braços e das pernas, esses são grandes entraves para a autonomia. É preciso mesa e cadeira apropriada, espaço de locomoção, encaixe de mesas e cadeiras para trabalhar em grupo, possibilidade de acesso à lousa. Pense também em como incluir esses estudantes em momentos como o recreio e as aulas de Educação Física.

ELIMINE OS ENTRAVES

  • Mãos à obra: As mudanças devem ser planejadas e acompanhadas por um profissional. Não basta fazer uma rampa, por exemplo. É preciso que ela seja antiderrapante e que tenha um nível de inclinação que não demande força excessiva do aluno para girar as rodas da cadeira com as mãos. Também é importante pensar em materiais de escrita, como lápis mais grossos, que tornem mais fácil a vida de quem tem problemas nas mãos.
  • Favoreça a autonomia: A preocupação com a integridade física de quem possui deficiência é essencial, mas isso não pode significar um isolamento. Deixe que o aluno circule e brinque no pátio, na medida do possível, sempre evitando os riscos de queda - especialmente entre os menores.
  • Pense em atividades para todos: A Educação Física é, segundo especialistas, uma das disciplinas que mais incluem. Há uma vasta gama de jogos e brincadeiras que podem ser praticados por qualquer pessoa. Opte sempre por eles.

NA LEGISLAÇÃO 
Além da obrigatoriedade de garantir espaços acessíveis prevista em diversas regulamentações nacionais e locais, a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada em 2006 pela ONU, garante a participação igualitária em atividades recreativas, esportivas e de lazer.

PARA SABER MAIS
O Instituto Rodrigo Mendes oferece, gratuitamente, um curso online sobre Educação Física Inclusiva. Com um breve cadastro, é possível acessar a série de vídeos e aprender como elaborar atividades que favoreçam a participação de todos, em todos os momentos da aula: bit.ly/curso-rodrigo-mendes.

VISUAL 

A barreira do medo

O medo de não saber agir com quem não enxerga é o que mais complica as coisas. Antes de tudo, é preciso saber que o laudo do especialista não é tudo. Observe o aluno, ande com ele pela escola, perceba que estímulos ele usa para se orientar (o som, o toque, a claridade, a sombra, por exemplo). Só então faça um plano de adaptação e escolha a melhor maneira de ajudá-lo. Clinicamente, pessoa com deficiência visual é aquela que enxerga 30% ou menos no melhor olho, após as correções ópticas (que incluem lentes e cirurgias). Se a visão fica entre 30% e 5%, o aluno é classificado como de baixa visão. Quem enxerga menos de 5% é considerado cego.

ELIMINE OS ENTRAVES

  • Examine a situação: Observe o que o aluno faz sozinho e teste diferentes tipos de materiais. Em alguns casos, um ajuste no tamanho da fonte dos materiais impressos é suficiente para que ele consiga ler. Eliana Cunha, da Fundação Dorina Nowill, sugere começar tentando pelas letras tamanho 24.
  • Cuide dos materiais: O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) prevê a aquisição de materiais transcritos em Braille ou produzidos com letras maiores. Fuja do mimeógrafo. Quem tem baixa visão precisa ter o máximo de contraste possível para conseguir enxergar. 
  • Aprenda o Braille (por que não?): Parece um bicho de sete cabeças, mas não é. A Fundação Dorina Nowill indica o curso gratuito e online da USP (www.braillevirtual.fe.usp.br/pt/) e garante que, com cerca de 20 horas de estudo, dá para ter um domínio básico do código.
CASO
Em Criciúma (SC), na EEF São Cristóvão, Sarah Rachel Antler Zilli e Andreza Canella trabalham juntas para que uma estudante do 9º ano tenha materiais didáticos em Braille. Assim que planeja as aulas, com uma semana de antecedência, Sarah leva a Andreza os impressos que distribuirá. Andreza, então, faz a transcrição das páginas na máquina de Braille da escola. Durante as aulas, a aluna utiliza uma punção e um reglete, que funcionam como um lápis e uma régua que orienta a escrita à mão.

Foto: Eduardo Marques/NOVA ESCOLA

NA LEGISLAÇÃO
A Lei nº 10.753/2003, que institui a Política Nacional do Livro, garante a compra de materiais em Braille para atender aos direitos de aprendizagem dos alunos cegos. Para dar conta dessa demanda, o Ministério da Educação
(MEC) mantém o Projeto Livro Acessível (bit.ly/ mec-acessivel), que articula as ações do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) com as secretarias estaduais e municipais.

PARA SABER MAIS
A Faculdade de Educação da USP disponibiliza gratuitamente na internet o curso Braille Virtual. A página oferece ao usuário animações e ferramentas. É um recurso para quem precisa aprender, em curto prazo, as noções básicas sobre esse sistema de escrita. Acesse www.braillevirtual.fe.usp.br

INTELECTUAL

A barreira da descrença

Ainda é comum encontrar quem pense que os alunos com algum tipo de deficiência cognitiva não possam aprender a fazer cálculos mais
complexos ou ler e interpretar textos considerados “difíceis demais”, por exemplo. Na verdade, quando desafiados e estimulados, eles podem continuar aprendendo. Por isso, na opinião da diretora-superintendente do Centro de Atendimento e Inclusão Social (CAIS) de Contagem (MG) e uma das maiores estudiosas do tema no Brasil, Cristina Abranches, a maior barreira ainda reside na visão de alguns profissionais da Educação que, descrentes da capacidade desses alunos, acaba oferecendo poucos estímulos.

ELIMINE OS ENTRAVES

  • Relativize o diagnóstico: Toda informação é valiosa na hora de construir o planejamento, mas saber a origem da deficiência não vai te ajudar muito. Como qualquer outro aluno, o que será decisivo é a sua avaliação pedagógica.
  • Desafie o estudante: A lógica para ensinar deve ser a mesma utilizada para qualquer aluno: calibre as atividades de maneira que elas sejam possíveis para o estudante, mas que tragam algum tipo de desafio novo.
  • Não superproteja: A preocupação com a integridade e a intimidade precisa ser velada sempre, mas uma proteção excessiva pode atrapalhar o desenvolvimento da autonomia. O jogo social na escola é extremamente estimulante para o aluno.

NA LEGISLAÇÃO
Um dos desafios é garantir o fluxo escolar desses estudantes, cujo ritmo de desenvolvimento pode ser diferente. A Nota Técnica nº 13 do MEC, de 2009 (disponível em bit.ly/nota13-mec), lembra que o Conselho Nacional de Educação (CNE) emitiu uma resolução que orienta o sistema educacional sobre a progressão desses alunos de série para série.

PARA SABER MAIS
Rita Vieira de Figueiredo, especialista da Universidade Federal do Ceará (UFC), publicou, em 2012, o livro Deficiência Intelectual: Cognição e Leitura, pela Edições UFC. Trata-se de uma série de estudos que investigam como esses alunos evoluem em suas concepções sobre a linguagem.

AUTISMO

A barreira do isolamento

Basta perguntar em qualquer escola: todo mundo está falando em autismo, e os professores dizem que nunca receberam tantos alunos com esse laudo. A razão é explicada pelo avanço no diagnóstico e na reclassificação de quadros como a síndrome de Asperger, que agora fazem parte de uma espécie de grande guarda-chuva chamado d transtornos do espectro autista (TEA). O traço mais comum do autismo é a dificuldade de comunicação e interação social, o que pode fazer com que esses estudantes fiquem sozinhos no ambiente escolar. O desafio é encontrar maneiras de se comunicar com eles, trazendo-os para o convívio da turma e ajudando-os a ampliar seu universo de interesses

ELIMINE OS ENTRAVES

  • Use os interesses deles: Os autistas podem demonstrar interesse em coisas específicas, como um desenho animado, um objeto. A partir desse interesse, é possível buscar ganchos para ampliar conhecimentos do estudante e fazer interações sociais.
  • Não confie nas fórmulas prontas: Certas técnicas não passam de um mito. Por exemplo, olhar de frente, olho no olho, pode ser intimidador e desconfortável. Por isso, é preciso construir a relação individualmente, levando em conta a personalidade do sujeito.
  • Eles nem sempre são “gênios”: Esse é outro estereótipo que segue os autistas. É possível que um estudante tenha habilidades acima da média em certas áreas, mas não é regra e pode dar uma pista falsa ao seu planejamento.
CASO


Em Niterói, no Rio de Janeiro, Laís Sathler atua como apoio especializado no 3º ano do Fundamental da EM Helena Antipófio. No grupo, há um aluno autista não oralizado de 15 anos, que frequenta a instituição há três. Ao lado dele desde 2017, Laís compartilha feliz a evolução dele. Antes, ninguém sabia as preferências do adolescente, pois ele aparentava aceitar tudo o que era sugerido. Com aproximação e escuta, Laís o ajudou a desenvolver a autonomia e a entender que ele podia concordar ou discordar.

Foto: Joelington Rios/NOVA ESCOLA

NA LEGISLAÇÃO
Os quadros de autismo são enquadrados, do ponto de vista legal, como “alunos com transtornos globais do desenvolvimento” que também têm direito ao Atendimento Educacional Especializado (AEE). A Nota Técnica nº 11, publicada pelo MEC em 2010, traz as especificações sobre como o serviço deve ser prestado nesses e em outros casos.

PARA SABER MAIS
O livro Práticas Inclusivas em Escolas Transformadoras, escrito por Maria Cristina Machado Kupfer, Maria Helena Souza Patto, Rinaldo Voltolini e outros autores renomados na área, publicado pela Editora Escuta, traz diversos exemplos e referenciais teóricos para trabalhar com alunos autistas e também com outras deficiências.