Crônica de La Plata

Evento na Argentina reúne os principais pesquisadores da Europa e América Latina para debater como as crianças aprendem a ler e escrever

POR:
NOVA ESCOLA, Gabriel Pillar Grossi
Foto: Agustina Marmoni
"O aluno sabe que aquela palavra tem várias letras, mas a ordem delas só vem depois. Nessa fase, a sílaba é o 'dentro', não o 'antes e depois'. " EMILIA FERREIRO, pesquisadora do Centro de Investigação e Estudos Avançados (Cinvestav) do Instituto Politécnico Nacional do México Foto: Agustina Marmoni

Entender como as crianças constroem os conhecimentos de leitura e escrita nas séries iniciais e, com isso, ajudar os professores a desempenhar com mais eficácia suas tarefas. De 13 a 15 de março, pesquisadores da Espanha e de vários países da América Latina (com destaque para a Argentina, o Brasil, o México e o Chile) mostraram na cidade argentina de La Plata as mais recentes pesquisas sobre o assunto e debateram com cerca de 500 educadores de todo o continente como melhorar a qualidade do ensino partindo justamente dos resultados desses trabalhos. "Foi uma oportunidade única para tomar contato com o que há de mais novo nas investigações didáticas e psicogenéticas sobre como as crianças se alfabetizam e avançam na leitura e escrita", diz Regina Scarpa, coordenadora pedagógica de NOVA ESCOLA, que acompanhou os três dias de apresentações na Universidade Nacional de La Plata - hoje um dos principais centros de estudos sobre o tema no mundo.

Batizado de Jornadas 30 Anos de Leitura e Escrita na América Latina, o evento teve mais de 40 palestras e simpósios com temas como linguística, literatura, práticas de ensino de leitura e escrita, formação docente, educação especial, avaliação, diversidade e pontuação. Na parte de novas tecnologias, um grupo de professoras da Universidade de Buenos Aires mostrou como os alunos fazem buscas na internet em contextos de estudo, revelou algumas das vantagens desse tipo de trabalho e debateu mitos que os jovens criam em torno da rede mundial de computadores (leia o quadro abaixo).

Nas conferências principais, a argentina María Elena Rodríguez apresentou o histórico de diferentes correntes da linguística, a espanhola Anna Camps discorreu sobre o "complexo encaixe" entre as diferentes línguas que existem na escola (principalmente a que é falada pelas crianças e a que é falada pelos professores), a brasileira Telma Weisz e a argentina Ana María Kaufman mostraram como montar sistemas de avaliação para grandes redes de ensino, a brasileira Vera Masagão Ribeiro falou sobre o Indicador de Alfabetismo Funcional e explicou o conceito de alfabetismo adulto (que envolve as habilidades de letramento e numeramento) e o brasileiro Antônio Augusto Gomes Batista discutiu suas pesquisas sobre texto e leitura na escola.

Como potencializar buscas na web

O que os alunos fazem quando solicitados a fazer pesquisas na internet? Para responder a essa pergunta, as pesquisadoras Flora Perelman, María Rosa Bivort, Vanina Estevez e Mariana Ornique, da Universidade de Buenos Aires, vêm trabalhando com uma turma do equivalente ao nosso 7º ano na capital argentina.

"São três os propósitos de leitura que os jovens têm quando acessam a internet e eles revelam que essa é uma tarefa complexa nessa faixa etária", explicou Flora. Segundo ela, quando querem entretenimento, os estudantes vão a um site de busca e clicam no primeiro resultado obtido. Se querem adquirir conhecimento geral, porém, já se tornam um pouco mais seletivos e leem as páginas para ver se elas fazem sentido (em vários casos, repetem a operação para cruzar dados). Finalmente, no momento em que precisam localizar alguma informação específica (que é o caso mais comum das demandas feitas por professores), eles primeiro entram no site de busca e leem as páginas dos sites que aparecem no topo da lista - mas avaliam melhor o que encontram e, muitas vezes, partem para outros sites de busca para checar os dados. "Diferentemente do que muitos acreditam, esses jovens sabem da importância de cruzar informações, ainda que não saibam muito bem como fazê-lo. Daí a necessidade de o professor orientar as tarefas para ajudá-los a entender a diferença entre obter informação e construir conhecimento", diz Flora.

Crianças usam a pontuação como recurso sintático e gráfico 

Entre as mesas de debate, destaque para os trabalhos sobre a pontuação. Celia Zamudio Mesa, da Escola Nacional de Antropologia e História do México, Celia Diaz Argüero, pesquisadora da Universidade Autônoma do México, e Mirta Castedo, da Universidade Nacional de La Plata, revelaram os resultados de seus estudos sobre como as crianças utilizam a pontuação para organizar seus textos, abrindo novas perspectivas didáticas para fazê-las avançar nesse conteúdo. "No início da escolaridade, os pequenos não sabem que as vírgulas, os pontos e outros sinais gráficos são usados para separar unidades sintáticas", explicou Celia Argüero. "Por isso, fazem uso da página como um todo para expressar essa estrutura textual: constroem listas com uma palavra embaixo da outra e compõem o texto de forma a transformar as áreas brancas em unidades informativas."

Para ela, as pesquisas já permitem concluir que as crianças não veem a pontuação apenas como um recurso sintático mas também gráfico. Portanto, deve-se analisar toda a organização gráfica da produção na hora de avaliar.

A palestra de encerramento ficou a cargo de Emilia Ferreiro, argentina radicada no México, que expôs sua pesquisa sobre como as crianças evoluem da hipótese silábica para a alfabética, no processo de alfabetização inicial. "Nesse percurso de avançar da fase em que acha que as palavras devem ser escritas com uma letra por sílaba para aquela em que já compreendem que cada sílaba tem duas ou mais letras, os alunos entram numa crise intelectual e desorganizam suas concepções sobre esse novo conhecimento", resumiu ela. "Mas essa desestabilização é o que eu chamo de desordem com pertinência."

Para exemplificar isso, ela mostrou inúmeros exemplos de escritas infantis em que as letras estão ali (portanto, são pertinentes à palavra), ainda que fora de ordem. Um dos casos é de um menino que, com diferença de poucos minutos, durante a entrevista realizada pelos pesquisadores, primeiro escreveu SAM e logo ALE quando alguém lhe ditava "salame". Note que, em ambos os casos, ele usou uma letra para cada sílaba - e letras que, de fato, existem naquela sílaba, ainda que as duas escritas sejam 100% diferentes e, no caso, 100% complementares. "O que o estudo revela é que as crianças enfrentam essa dificuldade, que é enorme para elas, com muita valentia." Conhecer análises como essas é o primeiro passo para entender como levar os alunos a resultados cada vez melhores.

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