"Cresci dentro da cultura popular"

Autorretrato

POR:
Elisângela Fernandes
Lopes, os cordéis e uma das montagens teatrais feitas com seus alunos em Fortaleza. Foto: Arquivo pessoal/Luciano Lopes e Helene Santos
Lopes, os cordéis e uma das montagens teatrais feitas com seus alunos em Fortaleza

"Passei minha infância em um bairro rural na cidade do Crato, a 567 quilômetros de Fortaleza. Naquela época, meu pai estava presente em todas as festas populares. Brincava de reisado e bumba meu boi, organizava a malhação de Judas e colecionava cordéis. Eu não podia sair para brincar sem antes ler um deles. Meu pai não sabia ler nem escrever, mas conhecia todas as histórias de cor. Se eu pulasse uma estrofe ou não rimasse, ele percebia e eu tinha de recomeçar. Para mim, aquela leitura era muito chata.

Um dia, assisti ao ensaio da peça que minha irmã ia encenar na escola e fiquei encantado com a produção. Tinha só 8 anos, mas decidi meu futuro. Eu queria teatro, palco e luz! Tudo muito diferente das apresentações que meu pai fazia na rua. Eu detestava a cultura popular.

Desde então, passei a ensaiar sozinho, com os contos infantis que conhecia. Aos 13, comecei a trabalhar na produção de peças no Sesc Crato e entrei para a Sociedade de Cultura Artística do Crato (Scac). Lá, dei os primeiros passos como ator, me tornei professor e fundei o grupo Teatro Infantil de Amadores Cratenses (Tiac).

Só aos 25 anos, ao ingressar no curso técnico de Direção Teatral do Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, tomei cons-ciência da sabedoria do meu pai. Nas aulas de Cultura Popular, me dei conta do conhecimento empírico dele e das referências artísticas que tinha. Lembrei do figurino que usava e da mala cheia de cordéis que guardava. Depois, em uma das vezes que voltei ao Crato, relembramos histórias e ele me deu alguns dos seus tesouros. Me graduei em Jornalismo, tenho 39 anos e faço pós-graduação em Metodologia do Ensino da Arte e em Gestão de Talentos por Competências e nunca mais deixei de estudar o tema.

Passei a atuar como professor de Arte e Teatro da Escola Educar Sesc Fortaleza em 2001. A escola tem o maior banco de textos de peças infantis do estado e o resgate da cultura popular é um aspecto muito importante no projeto político- pedagógico (PPP). Nas aulas, procuro valorizar as crianças e o saber delas e ao mesmo tempo apresentar novas referências. Recentemente, fizemos o musical Os Guerreiros do Sol e mostramos figuras importantes do Nordeste, como Lampião (1898-1938), Rachel de Queiroz (1910-2003) e Patativa do Assaré (1909-2002).

Meu pai nunca desistiu de mim. Era o primeiro a chegar às minhas apresentações no Crato e sempre se orgulhou do meu trabalho. Quando monto um espetáculo, procuro incorporar aspectos da cultura popular que ele tanto valorizava. É a maneira que encontrei para me desculpar."

Luciano Lopes é supervisor de cultura da Escola Educar Sesc Fortaleza

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