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Inove | Educação de Jovens e Adultos


Por: Paula Salas

O que faz do Cieja Campo Limpo uma referência em inclusão com respeito e acolhimento?

Na periferia de São Paulo, o Cieja Campo Limpo é referência em inclusão ao criar um modelo baseado no respeito e no acolhimento

DUPLA DOCÊNCIA: Os professores Samara e Gabriel compartilham a turma no Cieja Campo Limpo.
Crédito: Amanda Perobelli/Nova Escola

Numa rua pouco movimentada da periferia de São Paulo, um portão grande permanece corajosamente escancarado das 7 às 23 horas. O medo da violência deu lugar ao burburinho de jovens que entram e saem livremente, de mochila nas costas. Ao entrar no amplo espaço, vê-se a rampa de acesso ao prédio tomada por pessoas sentadas, conversando. O espaço, com murais coloridos e plantas, inspira tranquilidade. A placa de identificação é pequena e apagada na paisagem, e só revela o nome do lugar aos olhos mais atentos: ali está o Cieja Campo Limpo.

Criada em 1998, a escola surgiu com proposta nova para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) na cidade. Na época, o distrito do Capão Redondo tinha os maiores índices de violência do município, e foi nesse cenário que a primeira diretora, Eda Luiz, abriu as portas da instituição. “Me diziam: ‘Você não vai conseguir colocar esses meninos para dentro’”, relembra a gestora, que deixou o cargo em julho do ano passado, quando se aposentou. Eda escutou o que os jovens queriam: uma escola sem carteiras, professores tradicionais ou disciplinas. Queriam construir o conteúdo, dividido em áreas do conhecimento, juntamente com o corpo docente. E, aos poucos, a escola constituiu-se como uma referência em inovação e diversidade. “Se eu não tivesse confiado naqueles alunos, nada disso teria acontecido”, diz Eda.

A escola recebe pessoas com deficiência que frequentam as classes regulares. Porém, há duas turmas exclusivas para surdos. Viviane Marques, professora ouvinte fluente na Língua Brasileira de Sinais (Libras), e Maria Elisabete da Silva, professora surda, são as responsáveis pelas turmas. “Sou o modelo linguístico para os alunos surdos, porque muitos não têm contato com outras pessoas nessa condição. Eles chegam na escola sem conhecer Libras”, conta Elisabete. A dupla docência é uma proposta presente na maior parte das salas. O sucesso da aula conjunta é atribuído ao trabalho de planejamento feito às sextas-feiras.

“Aqui a porta é aberta e não tem cara de escola. Então assusta quem vem da caixinha”, resume Billy de Assis, psicopedagogo e educador comunitário da escola. É ele quem comanda o Café Terapêutico, um grupo de pais, alunos e amigos que se reúne semanalmente há 10 anos para discutir as necessidades dos alunos com deficiência. “O que eu faço é simples. Tem de ter a sensibilidade para ouvir e acolher.”

CINCO PILARES DA ESCOLA INCLUSIVA

1. Espaço: Precisa ser acessível, em constante mudança, aberto à comunidade e refletir a identidade dos alunos.

2. Gestão: Deve ser democrática e participativa. A partir de uma escuta atenta, debate em assembleias os problemas e desafios da escola.

3. Currículo: Contempla conteúdos significativos para a realidade dos alunos.

4. Metodologia: Inspirada em Paulo Freire, parte de temas geradores relacionados aos questionamentos diários dos estudantes.

5. Relações: Têm como princípio o respeito e o diálogo. Valorizam o poder da escuta para acolher e conviver dentro da escola.

Fontes: Eda Luiz, ex-diretora do Cieja Campo Limpo, Diego Elias, atual diretor, e Helena Singer, colunista de Nova Escola


3 PERGUNTAS PARA Mônica Rocha

Ex-aluna do Cieja Campo Limpo, voltou à escola para aprender o esporte que mudou seu futuro

Como você chegou ao Cieja Campo Limpo?
Estudava em uma escola particular em Embu das Artes (SP), onde fiquei até o 4º ano. Fiquei um tempo sem ir para a escola, mas a filha de uma vizinha estudava no Cieja e disse para ir lá.

O que mais gostava?
Os professores me ajudavam quando tinha dificuldades, fiz muitas amizades. Gostava das aulas de Português e Ciências. Quando me formei foi muito bom. Depois fui para uma escola no Ensino Médio, mas não deu certo. Fui excluída, não consegui acompanhar e os professores não davam apoio. Voltei para o Cieja como ouvinte. Foi quando comecei a fazer aulas de artes e tae kwon do.

Como começou essa paixão pelo esporte?
Quando comecei a treinar, meu pai dizia que era coisa de homem, mas depois me incentivou. Agora estou sendo preparada para ser professora de tae kwon do. Estou muito animada. Meu sonho é chegar na faixa preta, trabalhar e, um dia, namorar.

Mônica Rocha, 23 anos