Nova marca do Governo Jair Bolsonaro pode virar tema de aula

Saiba o que diz a nova marca do Governo Federal e como discutí-la em sala de aula

POR:
Nairim Bernardo
Retrato oficial do presidente Jair Bolsonaro   Foto: Alan Santos?PR

Assim que um presidente assume seu cargo, uma marca é lançada com o objetivo de refletir de forma sintetizada os ideais do novo governo. O que você, professor, precisa levar em conta é que esse material pode resultar em um ótimo conteúdo a ser trabalhado em sala de aula. Afinal, a análise de representações iconográficas é um meio interessante, mas ainda pouco utilizado, para estudar política e as construções da identidade nacional.

Dessa vez, ao contrário do que é de praxe, a apresentação inicial da marca do governo de Jair Bolsonaro não foi feita pelos canais de comunicação oficiais do Planalto ou por canais de TV aberta, e sim pela conta do presidente na rede social Twitter em seu quarto dia de mandato. O logotipo criado pela Secretaria de Comunicação (Secom) conta com uma representação estilizada da bandeira nacional, sem as estrelas e sem a inscrição “Ordem e Progresso”, e as palavras em destaque acima da assinatura “Governo Federal” são “Pátria Amada Brasil”, verso retirado da letra do Hino Nacional, composta por Joaquim Osório Duque Estrada em 1909.

 

A palavra “pátria”, que carrega uma visão nacionalista tradicional ligada às concepções de Estado Moderno que herdamos desde séculos passados, já foi utilizada no slogan do segundo mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff e agora aparece novamente. Entretanto, além de significar “país em que se nasce e ao qual se pertence como cidadão”, a palavra também carrega interpretações polêmicas. “Além dessa visão nacionalista, ela reforça um sentido militarista, pois a ‘defesa da pátria’ levou e ainda leva a uma construção ideológica de superioridade do seu país em relação a outras ‘pátrias’ e nações. Isso é capaz de mobilizar pessoas e grupos para conflitos e divergências comunicacionais, e até mesmo guerras”, comenta Andrea Paula Kamensky, professora do Departamento de Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC (Ufabc).

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Apesar de usar a mesma palavra que o governo Dilma usou (“Brasil, Pátria Educadora”), há comentários de que o significado que o novo governo quer impor é diferente e acrescenta elementos que lembram slogans famosos na ditadura civil militar brasileira. “Ao meu ver, indiretamente menciona um dos slogans do período mais duro da Ditadura Civil-Militar. Lembra ‘Brasil. Ame-o ou deixe-o’, utilizado pelo presidente Emilio Garrastazu Médici (1969-1974) nos tempos mais rigorosos da ditadura, em que a repressão se fez mais forte, direitos fundamentais dos cidadãos foram suspensos e meios de comunicação e atividades culturais foram vigiados pela polícia”, diz a professora de História Sherol dos Santos.

No que diz respeito às imagens, o governo atual dá bastante destaque à bandeira nacional e suas cores, principalmente o verde. A ausência das estrelas, que representam as unidades federativas do Brasil e o Distrito Federal traz a mensagem de unificação da nação. Para a professora de História Bianca Carolina da Silva, “a nova marca pode ser lida como representante de um discurso ufanista e homogeneizante que busca diminuir as diferenças (regionais, sociais, culturais, ideológicas) e reforçar a ideia de um só povo”.

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Outro elemento que chama a atenção é a faixa branca que atravessa a imagem. Houve quem comentasse na internet que ela dá a impressão de uma nação dividida, mas acredita-se que o real intuito é o de traçar uma linha ascendente para representar o crescimento do país. Tal interpretação iria ao encontro do que o presidente Jair Bolsonaro propôs em sua campanha eleitoral, que enfatizou muito os problemas econômicos enfrentados pelo Brasil. Além disso, o círculo azul da bandeira e o gradiente aplicado às cores constroem uma representação do nascer do Sol, simbolizando o início de uma nova fase – a “nova era”, como têm tratado alguns apoiadores do presidente e membros do governo.

A nova marca foi lançada em um vídeo que também contém o seguinte texto: “Em 2018, não fomos às urnas apenas para escolher um novo presidente. Fomos às urnas para escolher um novo Brasil, sem corrupção, sem impunidade, sem doutrinação nas escolas e sem a erotização de nossas crianças. Fomos às urnas para resgatar o Brasil”.

 

Chama a atenção a presença da citação referente à suposta erotização das crianças promovida pelos governos anteriores (algumas das notícias ligadas a isso já foram, inclusive, desmentidas por veículos de checagem de informação (confira aqui as checagens sobre o "kit gay" e sobre "ideologia de gênero" feitas dentro de Mentira na Educação, não!). “O intuito é fazer parecer com que governos anteriores defendessem práticas e ideologias comprometidas em corromper crianças. Como é apontado por historiadores, essa é uma estratégia de propaganda antiga e popular, sobretudo na época da Guerra Fria, produzida pelas agências de propaganda governamentais e não governamentais contra os grupos considerados de esquerda e também democráticos liberais”, comenta a professora Andrea.

Em sala de aula, o professor pode trabalhar não apenas a nova marca do governo, mas também os logos de governos passados. Nesse plano de aula há uma breve análise das imagens já utilizadas, dos ex-presidentes Fernando Collor a Michel Temer. Através da observação, pesquisas e discussões em sala, a turma poderá analisar e comparar como as representações iconográficas refletem diferentes momentos da história brasileira. Cabe ao professor abordar com os alunos que há significados atribuídos pelo governo e seus partidários, mas sempre poderão haver outras visões atribuídas por outros grupos, desde que tenham algum fundamento. 

 

* Colaborou na reportagem Paula Peres

 

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