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01 de Novembro de 2014 Imprimir
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Conheça escolas em bairros pobres com Ideb acima de 6

Foco na aprendizagem dos alunos garantiu bons resultados

Por: NOVA ESCOLA, Anna Rachel Ferreira
Conheça escolas em bairros pobres com Ideb acima de 6. Foto: André Menezes
Maria Janete, diretora

No sertão cearense, no alto de uma serra, banhada pelo sol escaldante, se encontra a EM Maria Alves de Mesquita. A cidade é Pedra Branca, a 262 quilômetros de Fortaleza. A 1,5 mil quilômetros dali, na periferia de Palmas, em meio ao clima seco e nuvens de poeira, está a EM Beatriz Rodrigues da Silva. Descendo em direção ao centro do país, em Acreúna, a 154 quilômetros de Goiânia, fica a EM João Batista Filho. Embora distantes umas das outras, as três escolas têm muito em comum, de acordo com o estudo Excelência com Equidade, da Fundação Lemann: estão em bairros pobres, atendem alunos de baixa renda e tiveram resultados acima do esperado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

NOVA ESCOLA visitou as três instituições e conversou com gestores, professores, pais e alunos para entender quais práticas levaram a esse desempenho. Entre os pontos comuns estão o envolvimento das famílias, o foco na formação docente, o compromisso de todos os educadores com a aprendizagem, o trabalho em equipe e o uso da avaliação como instrumento de análise e melhoria das práticas de sala de aula.

Maria Janete Braga de Souza chegou à direção da EM Maria Alves de Mesquita em 2010, depois de trabalhar como coordenadora pedagógica e professora na mesma instituição. Logo que assumiu, decidiu acompanhar de perto o desenvolvimento e as dificuldades das turmas e dos professores, sem negligenciar as demais áreas da escola. Para isso, conversou individualmente e em grupos com todos os funcionários.

As questões mais apontadas pelo corpo docente eram indisciplina, desatenção e constantes faltas dos alunos. Na maioria dos casos, "frutos de problemas familiares", conforme definiam os professores. Janete, então, propôs um atendimento próximo às famílias. "O aluno faltava três dias, a gente já buscava em casa", explica Edijanira Maria Gomes de Oliveira, secretária da escola. Quem ia a essa visita era o vigia, Venílson Barbosa Pereira, levando um comunicado que solicitava a presença dos responsáveis para uma conversa. Na reunião, a escola sugeria que voltassem a estudar. Foi assim que Raimundo Alves Fernandes e Maria Rozeli Rodrigues Gonçalves se tornaram alunos na mesma instituição em que a filha, Marli Gonçalves Fernandes, cursa o 1º ano. "Depois que eu voltei para a escola, meus filhos acharam legal porque sei mais coisas", comemora a mãe.

Prática semelhante foi adotada na EM Beatriz Rodrigues da Silva. Quando a escola, criada em 2006, recebeu os primeiros resultados do Ideb, viu que havia muito o que melhorar. Leila Roque, que dirigia a instituição na época e hoje trabalha na Secretaria Municipal de Educação, decidiu investigar o que as escolas de Palmas com bons resultados faziam de diferente. "Minha intenção era buscar exemplos que pudessem ser adaptados à nossa realidade." As conversas lhe trouxeram, entre outras, uma informação importante: essas instituições contavam com um regimento interno bastante completo e acordado com as famílias.

De volta à escola, Leila reuniu os educadores e propôs a construção do documento. Maria de Fátima Pereira Sena, que hoje dirige a escola, era professora de Língua Portuguesa na época e participou ativamente do processo. "Ficou claro que o envolvimento dos responsáveis era essencial, mas tínhamos de saber como orientá-los e o que cobrar ou não deles", comenta. Com a versão inicial do regimento em mãos, pais e alunos foram chamados. As famílias entenderam que não tinham a obrigação de ensinar os conteúdos escolares, mas precisavam acompanhar as crianças, saber os horários delas, garantir que frequentassem as aulas, entregassem as tarefas etc. "As reuniões passaram a ficar lotadas. Hoje, parecem assembleias. Temos mil alunos e 600 pais comparecem", comemora Maria de Fátima.

O documento passou a ser reelaborado periodicamente, com a participação de todos. A escola é rígida com horários, e a diretora não abre mão dos combinados feitos com os estudantes. "Eles têm direito por lei a uma aula completa. Temos de garantir isso", diz. Em todas as salas, há o número máximo de alunos permitido. "Essa é a melhor escola da região e temos fila de espera. Não posso me dar ao luxo de deixar carteiras vazias."


Trabalho em equipe e foco no aluno

Conheça escolas em bairros pobres com Ideb acima de 6. Foto: Bruno Mazzoco
Maria de Fátima, diretora

Apenas o envolvimento dos pais e as regras de convivência, no entanto, não são garantia de aprendizagem. Outra descoberta dos gestores de Palmas ao conversar com escolas da cidade foi entender a importância de um olhar mais atento às potencialidades e dificuldades de cada aluno. "Reunimos os professores de cada disciplina, fizemos uma avaliação detalhada dos estudantes e começamos a desenvolver um material didático próprio, voltado às necessidades das crianças e dos jovens daqui", diz Francisco Alves Nascimento, que lecionou Matemática ali até 2012. A equipe entendeu também que alguns alunos precisavam de um apoio extra e preparou grupos de reforço.

Em Pedra Branca, houve um movimento semelhante. Janete desafiou os educadores a pensar em maneiras de intensificar a aprendizagem, sem transferir a responsabilidade aos pais. Uma das soluções foi levar esse problema aos encontros mensais de formação do Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic) e do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic). "A gente viu que havia outras formas de ensinar e que cada criança tem seu tempo de aprendizagem", comenta Ana Celma Oliveira Silva, professora do 1º ano.

Com a troca de ideias e os cursos ministrados nesses encontros, os docentes conheceram teóricos e propostas pedagógicas que lhes deram um novo olhar sobre os alunos. Agora, investem em atividades diversificadas e propõe desafios correspondentes ao momento de aprendizagem de cada um. Janete hoje é gerente municipal do Paic, e a escola está sob o comando de José Roberto Soares de Oliveira, que encontra nela uma parceira.

Ainda na gestão dela, foi aprovada a Lei nº 11.738/2008, que garante a reserva de ¹/³ da carga horária docente para o planejamento das aulas. Para que fosse possível retirar os professores de sala, foram solicitados dois docentes volantes, que assumiam as turmas no período. No caso das salas de 1º ano, o pedido incluiu educadores de apoio, pois já havia uma queixa anterior sobre a dificuldade de dar a devida atenção para cada aluno por causa das turmas numerosas.

O acompanhamento individual dos estudantes é o ponto forte da EM João Batista Filho, em Acreúna. Adriana dos Santos Almeida, que dirigiu a escola até 2013 e hoje é secretária municipal de Educação, colocou o planejamento como um dos pontos-chave de sua gestão e conscientizou a equipe sobre a importância de os educadores de todas as séries se responsabilizarem pela aprendizagem como um todo. "Mostrei que o problema de uma turma é um problema da escola."

Para que essa continuidade fosse garantida, a instituição preparou fichas individuais para as crianças, em que os professores anotam bimestralmente avanços e dificuldades delas. No fim do ano letivo, o educador de uma série se reúne com o da seguinte para apresentar os alunos e ajudá-lo no planejamento anual. As reuniões têm o apoio da coordenadora pedagógica Neusa da Silva Filho, que se encontra a cada 15 dias individualmente com um professor. "Vemos juntos as atividades que serão feitas por dia, avaliamos a quinzena anterior, conversamos sobre cada criança. Se alguém precisa de reforço, já encaminhamos."

Bom uso da avaliação

Conheça escolas em bairros pobres com Ideb acima de 6. Foto: Bruno Mazzoco
Margareth, diretora

Outro aspecto interessante é a preocupação em entender as avaliações nacionais. Margareth Martins Arantes, que foi docente da EM João Batista Filho e hoje está na direção, conta que, quando saíram os primeiros resultados do Ideb, ninguém entendia o que era exigido na Prova Brasil. "Nos reunimos para ler os descritores de Língua Portuguesa e Matemática e entender o que era cobrado dos alunos. Em seguida, analisamos nosso planejamento para ver se aquelas habilidades estavam presentes e o que precisava ser melhorado."

Em Palmas, a preocupação é semelhante. A professora de Língua Portuguesa Michele Morais Domingos está na escola desde 2010, passou por todas as séries e hoje leciona para 8º e 9º anos. Ela conhece os descritores da sua disciplina e trabalha pela aprendizagem de todos. "Em Língua Portuguesa, as sequências didáticas são pensadas com o objetivo de formar leitores, com foco nos diferentes gêneros textuais", explica. "Em sala, ensinamos a questão semântica nos textos, a construção de sentido e a polissemia. O aluno tem de ter contato com textos do cotidiano e de fora dele."

Cada uma com suas particularidades, as três escolas fazem cair por terra o discurso de que instituições em locais mais pobres não oferecem uma Educação de qualidade. Como mostra o estudo da Fundação Lemann: "Alunos pobres, se garantidas as condições para o aprendizado, têm, sim, todo o potencial e a capacidade para superar essas desvantagens e apresentar resultados que indicam um aprendizado de alta qualidade. Quando isso acontece, a Educação cumpre plenamente seu papel transformador, interferindo no futuro dessas crianças e criando condições para que adquiram competências importantes".

Se, ao terminar a leitura desta reportagem, você acha que sua escola já realiza todas as iniciativas aqui mencionadas, e, no entanto, não alcança resultados tão expressivos, vale a pena analisar os próprios processos com olhar crítico, trocar experiências com outros gestores e buscar informação, como fez a gestora Leila, de Palmas.

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