Conflitos no Alemão se intensificam; autoridades se calam

Seis mil alunos ficam sem aulas no Rio de Janeiro por causa da violência. Secretários de Educação e Segurança não falam sobre a situação das escolas

POR:
Juan Torres, NOVA ESCOLA

Uma das maiores ações policiais da história do Rio de Janeiro, iniciada nesta quarta-feira no Complexo do Alemão, zona norte da cidade, acabou afetando mais de seis mil crianças, que tiveram as aulas suspensas. Apesar da situação crítica, as autoridades de Educação e Segurança do estado e do município não se dispuseram a falar com NOVA ESCOLA ON-LINE para prestar esclarecimentos.

A operação, que envolveu cerca de 1350 homens, entre policiais civis, militares e da Força Nacional de Segurança (FNS), provocou tiroteios e deixou ontem um saldo de 19 mortos e 13 pessoas feridas, entre elas Karen Cristina Baptista Borges, de 20 anos. A jovem foi baleada de raspão, na perna, enquanto assistia à aula na Escola Estadual Heitor Lira, na Penha.

Apesar do incidente, as atividades na escola continuaram normalmente. Ninguém da direção quis se pronunciar sobre o assunto e, através da assessoria de imprensa, a Secretaria de Estado de Educação disse que a questão estava sendo tratada pela pasta da Segurança. Esta, por sua vez, alegou, por meio de sua assessoria, que estava com muitos pedidos de entrevista e que, por isso, o secretário estadual José Mariano Beltrame (ou qualquer outro representante da entidade) não poderia falar sobre o assunto no momento. A assessoria, no entanto, disse haver possibilidade de entrevista nos próximos dias.

Enquanto as autoridades não falam sobre a segurança e o direito à educação das crianças do Complexo do Alemão, a situação se agrava a cada dia: até o fechamento desta reportagem, seis mil alunos (de oito escolas) estavam sem aulas e 4,5 mil (de outras seis) têm sido atendidos em caráter emergencial no Ciep Gregório Bezerra.

Rede municipal é mais atingida 

A solução encontrada pela Secretaria Municipal de Educação para atender aos 4,5 mil alunos dessas seis escolas fechadas foi transferi-los provisoriamente para o Ciep Gregório Bezerra, fora do Complexo. Desde o dia 18 de junho, portanto, vem sendo prestado o que a secretaria chama de atendimento pedagógico emergencial : quatro turnos de duas horas de aula cada, em salas divididas com tapumes e com mais de um professor (leia reportagem de NOVA ESCOLA ON-LINE sobre o primeiro dia de aula nessas condições).

A secretária municipal foi procurada por nossa equipe de reportagem três vezes para falar sobre a situação. No dia em que os alunos voltaram às aulas amontoados no Ciep Gregório Bezerra, ela estava em viagem ao Maranhão. Já de volta, alegou estar com a agenda cheia. Pela insistência da reportagem, concedeu-nos entrevista a professora Márcia Simões Mattos, da 4ª Coordenadoria Regional de Educação, responsável pelas escolas da região. Confira:

Por que decidiu-se adotar a solução de atendimento no Ciep Gregório Bezerra?
Márcia: É uma situação momentânea por conta dos conflitos na Vila Cruzeiro. A PM não nos deu garantia de segurança se voltássemos àquelas seis escolas. Percebemos que as crianças estavam presas em casa e que a alimentação escolar estava fazendo falta. Além disso, um grupo de pais vinha nos perguntando quando as aulas iam recomeçar. Mas só podemos retomar as atividades quando as crianças estiverem seguras. Então, a ação foi conjunta entre a comunidade, os professores, a direção da escola e a 4ª Coordenadoria.

E a segurança dessas crianças?

Márcia:
Solução de segurança a polícia pode dar a eles.

O ambiente do Ciep é seguro?
Márcia:
O Ciep Gregório Bezerra é próximo à comunidade. Então, mesmo quando há conflito, pelo menos o ambiente é tranqüilo. São os pais que avaliam se naquele dia poderão ou não enviar o filho à escola.

Mesmo o Ciep estando fora da área de conflito, essas crianças vivem diariamente uma situação estressante. Há algum tipo de trabalho diferenciado por conta disso?
Márcia
: A rede municipal começou este ano com a Rede de Proteção ao Educando, que é um trabalho entre as secretarias municipais de Educação e de Assistência Social. Nele, temos um psicólogo e um assistente social para atender as famílias.

O que é possível fazer em duas horas de trabalho em sala?
Márcia:
Os pais vinham solicitando pelo menos trabalhos de casa para ocupar as crianças, mas a gente não podia passar tarefas sem ter um atendimento pedagógico. Então, verificamos se havia condições no Ciep e, sem alterar a rotina das crianças que já estudavam lá, reservamos esse espaço só para o atendimento. Não é uma aula. Não é um trabalho acadêmico dentro da rotina escolar. Mas a gente também não poderia passar tarefas para casa sem contextualização. Os professores fazem o material pedagógico, atendem as crianças, dão o material, constróem com eles conceitos e, aí sim, eles levam para casa algumas atividades. O maior objetivo é ocupar as crianças para que elas não percam o vínculo com o espaço escolar e nem com os professores, já que elas já têm muitas perdas sociais. Não é a situação que gostaríamos, mas é o que está sendo possível mediante a situação de conflito que estamos vivendo na região.

Como fica a carga horária para as crianças que não podem ir à aula?
Márcia:
A questão da carga horária está sendo analisada pela Secretaria Municipal de Educação. Neste momento, estamos dando continuidade às questões pedagógicas porque a legislação nos solicita 200 dias letivos por ano. No entanto, nossa lei maior, a Constituição, fala sobre o direito de ir e vir. É uma coisa conflitante. Estamos fazendo a reposição pedagógica e pedindo aos pais que avaliem se podem enviar seus filhos à escola. É claro que temos um olhar diferenciado sobre a criança faltosa por estar em lugar de risco. Se não fizéssemos isso seria exclusão, e a escola tem que ser inclusiva.

E essas crianças terão as aulas repostas?
Márcia:
Estamos constantemente avaliando e, com certeza, vamos procurar uma complementação mais à frente, caso seja necessário. Trabalhamos dentro da legalidade, mas é importante dizer que é uma situação atípica. Ainda temos um semestre para avaliar o assunto e como vamos nos comportar, porque é a primeira vez que vivemos isso na rede e não temos a fórmula pronta.

Existe trabalho conjunto com a secretaria de Segurança para chegar a uma solução?
Márcia:
Existe um grupo de trabalho que envolve as secretarias municipais de Educação e de Assistência Social, a Polícia Militar, líderes comunitários e a subprefeitura da região. O grupo se reúne semanalmente para avaliar a possibilidade de retornar às escolas. Fomos informados no final de maio pela PM de que não teríamos data prevista para isso. Então, fizemos esse projeto, que está acontecendo há duas semanas. Esperamos que as novas operações da PM definam a situação.

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