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Carreira docente no Brasil é mais atrativa a jovens de desempenho mais baixo

Estudos mostram que professores têm salários menores do que outros profissionais de formação semelhante

POR:
Fabio Waltenberg
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Já escrevi neste espaço sobre o que leva alguém a escolher a carreira de professor da Educação Básica, de acordo com estudos feitos, principalmente, no Reino Unido e nos Estados Unidos. O salário é o principal motor de atração e de manutenção de pessoas na ocupação, mas outros fatores importam: segurança econômica (estabilidade funcional, pouco risco de variação salarial); vocação e experiências prévias; fácil acesso aos cursos de formação de professores (disponíveis em instituições públicas e privadas e nas modalidades presencial e a distância); possibilidade de conciliar carreira com vida familiar; aposentadoria relativamente precoce... E também as “condições de trabalho”, termo que abriga tudo o que pode haver de bom (ambiente de trabalho, férias longas, etc) e de ruim (violência escolar, falta de recursos mínimos, etc). A carreira pode ser mais convidativa em cidades pequenas do que em capitais, e para algumas disciplinas do que outras.

Agora, quero tratar com mais cuidado do caso brasileiro, abordando o que mostram as pesquisas nacionais sobre escolha ocupacional docente. Em comparação com a farta literatura econômica anglo-americana, as pesquisas são bem menos volumosas, mas não inexistentes ou irrelevantes. Por aqui, há: 1. trabalhos que comparam a remuneração de professores com a de profissionais de outras áreas – assunto importante, visto o papel central do salário na escolha ocupacional; 2. pesquisas que traçam perfis dos potenciais futuros docentes brasileiros, testando-se a hipótese de que quem é atraído para o magistério são pessoas de condição socioeconômica desfavorecida e de baixo desempenho acadêmico; 3. esforços de se compreender de forma mais direta por que alguns jovens optam pela carreira de professor ou por outros caminhos.

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Dentro do primeiro conjunto de trabalhos, há difíceis decisões metodológicas a tomar, por exemplo, quanto ao horizonte de remuneração: deve-se usar um salário de um mês específico, uma estimativa de renda anual, ou tentar trazer a valor presente a soma de rendimentos que a pessoa irá a receber ao longo de toda a vida ativa com a renda de todo o período de aposentadoria? Se for o salário mensal ou uma estimativa de remuneração anual, é mais fácil encontrar dados. Do ponto de vista econômico, é mais rigoroso trabalhar com a renda da vida toda, mas é mais difícil achar dados adequados. E restará ainda outro desafio, que é o de escolher bem os parâmetros para trazer a valor presente o fluxo das rendas futuras, exemplo taxa de desconto de valores no tempo, idade de aposentadoria, duração da vida etc.

Quanto aos grupos de comparação: devemos comparar salários de professores com os de quem? Com salários médios de todas as outras ocupações ou apenas com grupos de profissionais com qualificação similar? Os resultados das pesquisas são sensíveis aos parâmetros escolhidos e mudam bastante a depender da base de comparação.

Os trabalhos com renda da vida restringem-se a comparar professores entre si (homens versus mulheres, de escolas públicas versus privadas etc.), mas deixam uma lição: para um cálculo preciso do valor pecuniário de uma ocupação, é preciso incluir nas contas os rendimentos de aposentadoria. Reformas das regras previdenciárias de professores, que retirassem suas vantagens com relação a outras profissões, tornariam a ocupação menos atrativa para pessoas que atribuem grande valor a questões pecuniárias e cujo horizonte de tempo relevante é o longo prazo.

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Para analisar decisões dos mais imediatistas, é preciso comparar salários correntes ou estimativas de remuneração apenas de curto a médio prazo. E o que mostram os trabalhos deste tipo é que professores ganham menos que outros profissionais com ensino superior completo. Em uma pesquisa realizada com uma aluna de mestrado, aferimos salários de professores do Ensino Médio e três grupos de comparação, usando dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad) de 2006 e 2009, empregando uma metodologia que procura eliminar do procedimento de comparação qualquer tipo de fator irrelevante ou inadequado. Quando a comparação se restringiu aos profissionais com qualificação semelhante à dos professores, a situação revelou-se desfavorável aos docentes, em torno de 8% em 2006, e 12% em 2009. A desvantagem dos professores deve-se pouco a diferenças em características dos indivíduos comparados (como idade, raça/cor, gênero, anos de estudo, experiência, local de residência, etc) e muito mais a uma parcela residual, possivelmente ligada a uma baixa valorização social da profissão. Todo esse quadro indica potenciais empecilhos à atratividade da carreira.

O segundo conjunto de trabalhos procurou verificar se a relativa baixa remuneração tem impacto sobre o perfil dos futuros docentes. Como fonte de informação, foram usadas respostas a questionários aplicados no Enem, que incluíam uma pergunta sobre interesse por diferentes carreiras, inclusive a de professor. Também foram delineados perfis a partir do Enade, comparando concluintes de licenciaturas, incluindo pedagogia, com os das demais áreas. Em ambos os casos, foi possível cruzar informações socioeconômicas com o desempenho em provas.

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Por exemplo, em uma pesquisa conduzida por uma equipe formada por professores e alunos da UFF e FGV, trabalhamos com microdados de três provas do Enem (2003, 2005 e 2009) e de duas do Enade (2005 e 2008) e procuramos identificar, por meio de regressões, quais fatores estavam positiva ou negativamente associados à intenção de se tornar professor. Nossos resultados confirmaram os de trabalhos anteriores, mostrando que a carreira de professor interessa mais a mulheres que a homens, algo que se observa em todos os países – o que tem consequências importantes, mas que fogem ao objetivo deste texto. E que é uma carreira mais atrativa a jovens com desempenho acadêmico relativamente baixo (notas baixas no Enem e no Enade) e com perfil socioeconômico desfavorecido (obrigados a trabalhar desde muito cedo, de famílias pobres, cujos pais são pouco instruídos, não-brancos, com filhos etc.).

Ninguém duvida de que um aluno com notas baixas no Enem e/ou no ENADE e de origem socioeconômica desfavorecida possa, sim, se tornar um excelente professor. Assim como não há convicção de que todo aluno com notas altas e de condição socioeconômica mais privilegiada se tornaria um grande educador. Mas o cenário descrito pode ser considerado preocupante se um capital cultural limitado estiver, em média, associado a uma menor capacidade de transmitir conhecimento e competências específicas ao seu campo de atuação, e de proporcionar aos alunos habilidades de análise e interpretação crítica do ambiente social no qual estão inseridos.

 

*Fabio Waltenberg é doutor em economia pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica, e professor da Universidade Federal Fluminenese (UFF). Ele estuda economia da Educação e coordenou o projeto “Escolha ocupacional pelo magistério: por que muitos bons alunos não se tornam professores?”, 2013.

 

 

PARA SABER MAIS

Os estudos mencionados aqui estão relacionados na seção 4 do texto: Britto, A.M.; Sato, C. K.; Waltenberg, F.D. "Escolha ocupacional pela carreira de professor da Educação Básica: uma resenha com ênfase na situação atual no Brasil". In: Marta Rahona López; Jennifer Graves. (Org.). XXIV Jornadas de la Asociación de Economía de la Educación. Madri: Asociación Económica de la Educación, 2015, v. 10, p. 211-229.

O trabalho que compara salários de professores e de outros profissionais é este aqui: BRITTO, Ariana Martins de; WALTENBERG, Fábio D. É atrativo tornar-se professor do Ensino Médio no Brasil?: Evidências com base em decomposições paramétricas e não paramétricas. Estud. Econ., São Paulo,  v. 44, n.1, p. 5-44,  mar.  2014 .   

A pesquisa com dados do Enem e do Enade consta do relatório final da pesquisa “Escolha ocupacional pelo magistério: por que muitos bons alunos não se tornam professores?”, apoiada pela Fundação Lemann e pelo banco Itaú-BBA por meio do 1º Edital de Pesquisas em Educação.

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