Como responder às perguntas indiscretas que os alunos fazem

Na hora de encarar perguntas que provocam uma saia justa, a melhor saída é apresentar caminhos para cada um descobrir as próprias explicações

POR:
Beatriz Vichessi
Ilustração: Victor Guerra
Ilustrações: Victor Guerra

Questionar e duvidar são ações que deveriam ser valorizadas por todo professor. Afinal, o ato de indagar está na raiz da produção de novos conhecimentos, mas algumas interrogações - sobretudo aquelas que passam longe do conteúdo curricular - podem tirar a fala. Quem nunca suou frio quando questionado por uma criança de 6 anos sobre a existência do Papai Noel? Ou de Deus? E quem consegue opinar (sem gaguejar!)sobre a legalização das drogas diante de um grupo de adolescentes?

Essas são as temidas perguntas do tipo saia justa. Não é fácil lidar com elas, mas o ideal é encará-las com naturalidade. Quando surgem, em vez de fornecer respostas definitivas e superdetalhadas, é mais recomendável ajudar os alunos a construir explicações e definir seus próprios pontos de vista. Outra medida importante, segundo Ana Aragão, psicóloga e docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é levar o estudante a sério, respeitando sua vontade de saber e oferecendo a possibilidade de buscar conhecimentos adequados à faixa etária.

Também é preciso considerar que, debaixo do guarda-chuva das tais dúvidas impertinentes, abrigam-se três tipos distintos de indagação. Existem as que possuem respostas, mas que as crianças ainda não conhecem ("Papai Noel existe?", "De onde eu vim?"), as que dependem de uma tomada de posição pessoal ("Você é contra ou a favor da descriminalização das drogas?", "Em quem você vai votar?") e as que seguem sendo um mistério ("Deus existe?", "Há vida após a morte?"). A condução da conversa varia um pouco dependendo do tipo de inquietação. Confira a seguir como lidar com seis perguntas cabeludas que você já deve ter ouvido em sala.

 

Perguntas com respostas 

1. Papai Noel existe?
Esse é um questionamento típico de crianças pequenas que passam a contestar o universo simbólico. A preocupação, aqui, é não queimar etapas na tentativa de dar alguma explicação. "Quando se é pequeno, não há nada de mal em acreditar em figuras como Papai Noel e o Coelho da Páscoa", afirma Helô Reuter, pedagoga do Externato Aldeia, na capital paulista. O melhor é devolver a pergunta para conhecer o que a criança sabe - e do que desconfia: o que você acha? De onde surgiu sua dúvida? O que seus pais falam em casa? "Essa é uma boa estratégia para não colocar a família em xeque", afirma Zélia Cavalcanti, coordenadora do Centro de Formação da Escola da Vila, na capital paulista. Para as um pouco maiores, já na faixa dos 6 ou 7 anos, você pode até dizer o que pensa, mas com o cuidado de não invalidar outras opiniões: "Eu acho que Papai Noel não existe, mas tem gente que acha que sim e tudo bem", deixando para a criança a tarefa de cruzar as informações. Muitas vezes, os pequenos acabam resolvendo esse tipo de angústia com os próprios amigos. "Se um disser 'Meu irmão maior falou que é tudo mentira', a criança passa a se questionar. O professor não precisa utilizar a autoridade que o saber lhe confere para sanar esse tipo de dúvida", diz Helô.

2. Como eu nasci?
Para orientar a resposta a essa pergunta, Ana Aragão gosta de se lembrar da história de uma menina de 5 anos que perguntou à mãe o que era virgem. Constrangidíssima, mas compelida a dizer a verdade, a mulher toma fôlego e começa a desfiar dados sobre a concepção, o ato sexual, a relação como manifestação do amor de um homem e uma mulher, a existência do hímen e assim por diante. Missão cumprida, ela fita a menina nos olhos. Com uma lata de azeite nas mãos, a pequena rebate: "O que é extravirgem, então?" A anedota mostra que fornecer mais informações do que se está preparado para entender é tão desaconselhável quanto mentir e evocar a velha história da cegonha - provavelmente, vai semear ainda mais dúvidas. Quanto mais nova a criança, menos repertório ela tem para compreender as diferentes facetas de uma relação sexual. Por isso, é prudente questionar: "De onde surgiu sua dúvida?" Na maioria das vezes, dizer que somos frutos da união dos pais basta. Se ela for mais velha, o conteúdo já costuma aparecer nas primeiras séries do Ensino Fundamental. Aí, usar o próprio material da escola como baliza é uma boa alternativa.

Perguntas com respostas pessoais

Ilustração: Victor Guerra

3. Em quem você vai votar?
Expor opiniões de cunho pessoal é sempre uma decisão do educador. "É preciso tato para lidar com essas dúvidas, pois o limite entre opinar e panfletar é muito tênue", ressalta Ana. Muitas vezes, mais que saber o candidato do professor, quem indaga está em busca de dados para compor a própria opinião. Para não influenciar decisões, converse com o aluno a respeito da dúvida, ajudando-o a avaliar quem são os candidatos e o que eles defendem e propõem fazer se eleitos. Embora a maioria dos especialistas afirme que revelar o voto é uma questão de foro íntimo, defensores de uma pedagogia mais engajada afirmam que essa é uma atitude que demonstra bastante envolvimento com o Magistério. No livro Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire (1921-1997) diz: "Não posso ser professor sem me pôr diante dos alunos, sem revelar com facilidade ou com relutância minha maneira de ser, de pensar politicamente".

4. Você é a favor da legalização das drogas?
Mesmo sendo uma resposta pessoal, a decisão de emitir uma opinião taxativa sobre o assunto pode influenciar muito os estudantes e, em alguns casos, até fazê-los se sentir autorizados a consumi-las. Como regra geral, o melhor caminho é expor as questões legais que envolvem o tema. Essa é uma boa hora para deixar claro que as leis, embora possam ser contestadas, precisam ser obedecidas. Vale recorrer à Constituição, ao código penal e à lei 11.343, de 23 de agosto de 2006, que institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas. Pode-se informar que a legislação considera como crimes a posse e o tráfico, com penas que chegam a 15 anos de prisão. Além disso, a lei não estabelece um critério para essa distinção - ela varia de acordo com a interpretação do juiz, que examina a quantidade apreendida, o tipo de substância, as circunstâncias da ocorrência e os antecedentes das pessoas envolvidas. Nas séries finais do Ensino Fundamental, é possível ampliar o debate para outros campos do saber, uma vez que o assunto passa a ser abordado nas aulas de Ciências (fisiologia e efeitos do consumo de drogas lícitas e ilícitas) e, eventualmente, nas de Geografia (economia do tráfico, questões sociais associadas à criminalidade e possíveis implicações das políticas de descriminalização).

Perguntas que não têm resposta

Ilustração: Victor Guerra

5. Deus existe?
Por mais que você tenha uma convicção sobre o assunto, fuja da armadilha da doutrinação. O melhor a fazer para ajudar seus alunos é abastecê-los de informações. No que diz respeito à criação do mundo, a explicação escolar para a questão obedece às evidências científicas. Um ponto fundamental é a Teoria da Evolução, de Charles Darwin (1809-1882), para quem todos os organismos vivos (incluindo o homem) se originaram de um único ancestral comum e se transformaram ao longo do tempo - a seleção natural é o mecanismo central para explicar a diversidade de espécies. Para as religiões, por outro lado, o criador é Deus. Explique a diferença entre ateus (que não acreditam na existência de Deus) e agnósticos (defensores de que a razão humana não pode provar a existência - ou não - de Deus). Mostrar que o debate é complexo (muita gente muda de opinião), permeado de contradições (o próprio Darwin, creditado como "o homem que matou Deus", acreditava nele) e que uma resposta perfeitamente válida é: "Não sei".

6. Existe vida depois da morte?
Essa questão pede os mesmos cuidados da anterior, pois pode desencadear opiniões prematuras a respeito de outros assuntos, como a doação de órgãos. Mais uma vez, sugira que a pergunta seja feita a colegas e familiares (o que favorece a criação de um panorama com diferentes pontos de vista) e apresente informações para ajudar a compor o repertório. Novamente, é essencial apresentar o argumento científico segundo o qual a vida acaba quando cessam as atividades dos órgaos vitais. No que diz respeito às religiões, é possível mencionar os conceitos de reencarnação e de vida eterna, relacionando-os a crenças e não a evidências irrefutáveis. Colocar sua posição é uma possibilidade, mas, se não se sentir à vontade, diga que essa é uma das respostas que fazem parte da intimidade e que ela deve ser respeitada.

Quer saber mais?

CONTATOS
Ana Aragão
 
Helô Reuter
Zélia Cavalcanti

BIBLIOGRAFIA
Crianças e Adolescentes - Ensaios Interpretativos de Jean Piaget, David Elkind, 187 págs., Ed. Zahar, tel. (21) 2239-5294 (edição esgotada)
Limites: Três Dimensões Educacionais, Yves de La Taille, 152 págs., Ed. Ática, tel. 0800-115-152, 39,90 reais
O Bem e o Mal, o Que São?, Oscar Brenifier, 98 págs., Ed. Caramelo, tel. (11) 3649-4600, 28 reais
Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire, 148 págs., Ed. Paz e Terra, tel. (11) 3337-8399, 10 reais

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