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Discurso de Ricardo Vélez Rodríguez: que mudanças esperar no MEC

O novo ministro afirmou que o MEC vai focar na Educação Básica e na alfabetização, mas não disse como a aprendizagem vai avançar no país

POR:
Soraia Yoshida
O ministro Ricardo Vélez Rodríguez conversa com jornalistas após sua posse no Ministério da Educação (MEC)   Foto: Luis Fortes/MEC

Família, igreja, escola, estado e pátria. Em seu discurso de posse, o novo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, ficou dentro do que já era esperado por quem seguia seus posts no blog Rocinante: a defesa de ideias conservadoras e uma crítica feroz ao que define como “marxismo cultural”. Para ele, a ideologização alinhada à esquerda está presente em “instituições de Educação Básica e Superior”. “Trata-se de uma ideologia materialista, alheia aos nossos mais caros valores de patriotismo e de visão religiosa do mundo”, discursou.

O ministro afirmou que o Ministério da Educação (MEC) se posicionou contra a possível intromissão de agendas das agências internacionais. “Não permitiremos que pautas nocivas aos nossos costumes sejam impostas ao país com a alegação de que se trata de temas adotados por agências internacionais, cujos representantes são burocratas não eleitos pelos povos de suas respectivas nações", disse, sem citar exemplos dessas agendas.

Aos 75 anos, o professor-emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) – instituição que forma oficiais de alta patente militar –, basicamente reforçou a defesa de valores tradicionais. Sem citar um educador, ele preferiu demonstrar orgulho por sua equipe estar alinhada às ideias do escritor Olavo de Carvalho e do historiador Antonio Paim, de quem extrai seu pensamento sobre o patrimonialismo brasileiro.

“Estamos dando os primeiros passos em uma jornada cujos objetivos são atender os anseios da nação brasileira. Trabalharemos intensamente para que, com apoio da família e sociedade, a educação possa promover a afirmação das nossas crianças, jovens e adultos, seja para exercer seus direitos como cidadãos, seja para atuarem em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo”, afirmou.

Veja a seguir o que o novo ministro da Educação falou sobre:

 

Analfabetismo e Educação Básica

Nossa prioridade será a educação básica e, a fim de que possamos atingir os objetivos almejados, estaremos trabalhando na formulação de políticas públicas cujos programas e ações sejam eficazes para: o combate ao analfabetismo nas suas variadas manifestações; a ampliação e melhoria da educação em creches e pré-escolas; a educação de jovens e adultos; o pleno atendimento a pessoas com deficiência; as modalidades especializadas de educação; a gestão e funcionamento adequado das escolas; o ingresso, permanência e conclusão dos estudos na idade certa; a inovação com o apoio de diferentes mídias e tecnologias; o uso de avaliações que orientem os processos de ensino e aprendizagem; e as pesquisas educacionais que, efetivamente, subsidiem a formulação dessas políticas".

O ministro refere-se aqui a dois pontos pelos quais o governo Bolsonaro vinha sendo muito criticado: que ao focar em temas como “ideologia de gênero” e “doutrinação”, perdia-se o foco para as verdadeiras questões da Educação, como analfabetismo, evasão escolar e distorção idade-série. O Brasil possui 11,5 milhões de analfabetos. A desigualdade regional no acesso à educação é um dos principais problemas. Enquanto o Sudeste e o Sul têm a menor taxa de analfabetismo, de 3,5%; o indicador no Nordeste é de 14,5%. A média nacional é de 7%. O recado dado é que o MEC estará de olho no que importa, sim, mas faltou dizer como pretende alcançar essas mudanças. Para tanto foi criada a Secretaria de Alfabetização, subpasta comandada por Carlos Francisco Nadalim.

 

Ideologia de gênero

“À agressiva promoção da ideologia de gênero somou-se a tentativa de derrubar as nossas mais caras tradições pátrias. Essa tresloucada onda globalista, tomando carona no pensamento gramsciano, que num irresponsável pragmatismo sofístico, passou a destruir um a um os valores culturais em que se segmentam nossas instituições mais caras, família, igreja, escola, o estado e a pátria, numa clara tentativa de sufocar os valores fundantes da nossa vida social”.

Vélez emprega um termo muito usado por Bolsonaro antes mesmo de sua campanha presidencial e que não é aceito por educadores. A expressão "ideologia de gênero", que carrega um sentido pejorativo, é usada normalmente por setores mais conservadores da sociedade para protestar contra o debate sobre a questão de gênero e a sexualidade nas escolas. A ideia defendida por esses grupos é que abordar tais temas vai contra os princípios da família e pode influenciar as crianças – uma noção que não encontra fundamento em pesquisas ou evidências.

 

Ensino Superior

"Na educação superior, nossas ações terão como elemento central a melhoria da tríade ensino, pesquisa e extensão. Nas universidades públicas, merecerão destaque políticas que fomentem modelos de gestão mais eficazes, diminuição das taxas de evasão e alinhamento entre os cursos oferecidos e as demandas sociais e econômicas existentes".

Bolsonaro havia defendido com veemência que a Educação precisa ter um viés mais profissionalizante e chegou a pensar em repassar o gerenciamento das universidades federais para o Ministério de Ciência e Tecnologia (o que acabou não acontecendo). A ideia de investir em pesquisa científica e tecnológica está muito ligada ao pensamento de que o importante é “mais Matemática, Ciência e Português”.

Faculdades particulares

"No setor privado, merecerá atenção especial a qualidade dos cursos oferecidos. A educação não pode ser caracterizada como um simples serviço, pois se trata de algo que alicerça e garante o futuro de nosso país".

O ministro manda um recado para as universidades privadas e muda o discurso sobre Educação como serviço, que havia feito anteriormente. Ele não chega a citar Educação como direito, assim como no texto da Constituição de 1988. 

 

Valorização do professor

“É preciso não apenas empregar os recursos adequadamente, mas também valorizar nossos professores e todos os demais profissionais da educação. Trata-se de um aspecto que, apesar de parecer utópico, ocorre naturalmente a partir do momento em que as pessoas percebem o inestimável valor da educação para o desenvolvimento de nosso país”.

Ao citar a questão da valorização docente, o ministro acena para os milhões de professores e educadores que apontavam as deficiências na formação inicial e na continuada, apontadas como fatores para um avanço lento na melhoria da aprendizagem.

 

O ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez durante a cerimônia de posse em Brasília  Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Leia a seguir a íntegra do discurso de posse de Ricardo Vélez Rodríguez:

 

“Excelentíssimo Senhor Rossieli Soares da Silva, Ministro da Educação.

Demais autoridades aqui presentes.

Prezados Secretários, Diretores, Coordenadores, Servidores e demais colaboradores do Ministério da Educação.

Caros familiares e amigos.

É para mim uma honra e uma grande alegria encontrar todos vocês nesta cerimônia de posse.

Gostaria de iniciar minha fala destacando o espírito republicano do senhor Ministro Rossieli e dos seus assessores que, desde o início do governo de transição, têm despendido valorosos esforços para que a realização de nosso trabalho à frente do MEC se tornasse possível. Sim, Ministro Rossieli, o senhor e sua equipe tornaram possível este momento ao atuarem com eficiência e cordialidade. Trata-se de um verdadeiro testemunho sobre o espírito republicano que, ao se sobrepor às expectativas pessoais, evidencia o total apreço e consideração, prioritariamente, pelo bem comum.

Gostaria ainda de destacar o ineditismo dos tempos que ora começam na nossa vida republicana. Esses tempos foram abertos com a corajosa jornada do então Deputado Federal Jair Messias Bolsonaro que começou, há aproximadamente dois anos, a percorrer o Brasil de norte a sul, auscultando o pensamento e as expectativas das pessoas em cidades, povoados, vilas e campos do interior deste imenso país, a fim de dar voz àqueles que não eram escutados pela mídia tradicional nem pela classe política, comodamente afeita às negociações entre siglas partidárias. Jair Bolsonaro saiu da zona de conforto garantida aos congressistas, a fim de conhecer de perto os desafios que permeiam o cotidiano dos cidadãos de nosso país.

Escutou de milhares de cidadãos queixas que ratificaram as percepções e índices alarmantes de criminalidade que assolam nossos bairros, ruas e campos, tornando-nos, infortunadamente, recordistas mundiais em assassinatos que ceifam a vida de mais de 60 mil pessoas por ano, incluindo-se crianças e jovens.

Por sua vez, o então candidato Bolsonaro ouviu dos empobrecidos contribuintes as queixas que tinham como origem o ostensivo processo de corrupção que, no ciclo lulopetista, dilapidou a riqueza nacional em balcões escusos de negócios. Ao leiloar, na bacia das almas da corrupção indiscriminada, os recursos da nação, tornou-se evidente o risco à sobrevivência das novas gerações, pois esse negativo fenômeno submergiu o país na maré do desemprego massivo, castigando duramente as famílias de mais de 14 milhões de brasileiros.

Jair Messias Bolsonaro também prestou atenção à voz entrecortada de pais e mães reprimidos pela retórica marxista que tomou conta do espaço educacional. À agressiva promoção da ideologia de gênero somou-se a tentativa de derrubar as nossas mais caras tradições pátrias. Essa tresloucada onda globalista, tomando carona no pensamento gramsciano e num irresponsável pragmatismo sofístico, passou a destruir, um a um, os valores culturais em que se sedimentam as nossas instituições mais caras: a família, a igreja, a escola, o estado e a pátria, numa clara tentativa de sufocar os valores fundantes da nossa vida social.

Não foi fácil para o candidato Jair Bolsonaro fazer frente à degradação reinante. Incomodados com a sua popularidade crescente, em que pese o escasso tempo de televisão garantido a ele, os mais ameaçados pela pregação moralizante em andamento urdiram obscuro plano para tirá-lo de vez da cena eleitoral, atentando contra a sua vida. As maquinações tenebrosas da rua Halfeld, em Juiz de Fora, como frisou o adágio que se tornou popular, ratificaram a certeza de que “derrubaram um homem, mas levantaram uma Nação”. O nosso bravo capitão Jair Messias Bolsonaro sobreviveu ao cruel atentado e, nos braços do povo que o apoiou desde o início, ganhou, honrosamente e com grande margem de votos, as eleições presidenciais, fazendo com que a data de 28 de outubro de 2018 seja lembrada pelo povo brasileiro como o dia da redenção de nosso país.

Estamos aqui, senhoras e senhores, dando, efetivamente, os primeiros passos em uma jornada cujo objetivo é atender aos anseios da nação brasileira. Trabalharemos intensamente para que, com apoio da família e da sociedade, a educação possa, efetivamente, promover a formação de nossas crianças, jovens e adultos, seja para exercerem seus direitos e deveres de cidadãos seja para atuarem em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo. São novos tempos cujos objetivos permanecem indissociáveis dos princípios republicanos de respeito aos cidadãos.

Não permitiremos que este Ministério seja encarado como bazar para enriquecimento de alguns em detrimento do povo brasileiro e do dever constitucional de garantir aos cidadãos e às futuras gerações o acesso a uma educação que contribua para o desenvolvimento das enormes potencialidades deste país continental.

Para que isso seja possível, estaremos atentos às orientações de nosso presidente. Mas é preciso também considerar que, sem o apoio das famílias, da sociedade, dos estados e dos municípios, nossas chances de sucesso diminuem significativamente. É preciso não apenas empregar os recursos adequadamente, mas também valorizar nossos professores e todos os demais profissionais da educação. Trata-se de um aspecto que, apesar de parecer utópico, ocorre naturalmente a partir do momento em que as pessoas percebem o inestimável valor da educação para o desenvolvimento de nosso país.

Nossa prioridade será a educação básica e, a fim de que possamos atingir os objetivos almejados, estaremos trabalhando na formulação de políticas públicas cujos programas e ações sejam eficazes para: o combate ao analfabetismo nas suas variadas manifestações; a ampliação e melhoria da educação em creches e pré-escolas; a educação de jovens e adultos; o pleno atendimento a pessoas com deficiência; as modalidades especializadas de educação; a gestão e funcionamento adequado das escolas; o ingresso, permanência e conclusão dos estudos na idade certa; a inovação com o apoio de diferentes mídias e tecnologias; o uso de avaliações que orientem os processos de ensino e aprendizagem; e as pesquisas educacionais que, efetivamente, subsidiem a formulação dessas políticas.

Na educação profissional e tecnológica, serão fomentadas políticas que integrem ensino, ciência e tecnologia para que, efetivamente, nossos estudantes possam desenvolver suas respectivas capacidades empreendedoras, incorporar e utilizar inovações científico-tecnológicas e atuar de modo eficaz no mercado de trabalho.

Na educação superior, nossas ações terão como elemento central a melhoria da tríade ensino, pesquisa e extensão. Nas universidades públicas, merecerão destaque políticas que fomentem modelos de gestão mais eficazes, diminuição das taxas de evasão e alinhamento entre os cursos oferecidos e as demandas sociais e econômicas existentes. Por meio do apoio e fomento à pesquisa e à qualificação, incentivaremos nossos docentes e pesquisadores a aprimorarem suas linhas de pesquisa, podendo assim contribuírem ainda mais com a sociedade brasileira. No setor privado, merecerá atenção especial a qualidade dos cursos oferecidos. A educação não pode ser caracterizada como um simples serviço, pois se trata de algo que alicerça e garante o futuro de nosso país.

Daremos especial atenção e trataremos com cuidado as ações empreendidas por fundos internacionais de investimento em educação. As formas de atuação desses investimentos devem se adequar tanto aos dispositivos legais quanto aos objetivos da educação brasileira. Não permitiremos que pautas nocivas aos nossos costumes sejam impostas ao país com a alegação de que se trata de temas adotados alhures por agências internacionais, cujos representantes são burocratas não eleitos pelos povos de suas respectivas nações.

Combateremos com denodo o marxismo cultural hoje presente em instituições de educação básica e superior. Trata-se de uma ideologia materialista, alheia aos nossos mais caros valores de patriotismo e de visão religiosa do mundo.

Ao redor dos objetivos acima mencionados, aglutinam-se, na equipe de governo de nosso Ministério, profissionais altamente qualificados. Começo fazendo referência aos jovens que integram nossas Secretarias e que receberam a benfazeja formação humanística de dois grandes educadores: Antônio Paim e Olavo de Carvalho. Deles emerge a inspiração liberal-conservadora das nossas propostas educacionais. Destaco, em segundo lugar, a participação de profissionais oriundos de instituições de educação básica, profissional, tecnológica e superior, civis e militares; e, finalmente, aqueles originários de renomados centros de formação de administradores públicos.

Que Deus nos ajude nesta empreitada e que possamos honrar o compromisso que, neste momento, assumimos com o nosso país! Muito obrigado!

Ricardo Vélez Rodríguez”

 

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