Como aproveitar o Natal para promover a aprendizagem e o respeito entre todos

NOVA ESCOLA elenca quatro dimensões que podem nortear a abordagem na escola e traz curiosidades pouco conhecidas que podem servir de gancho para uma ótima conversa

POR:
Pedro Annunciato

Luzes, presentes, festas… Em dezembro, o assunto é sempre o Natal. Num país onde quase 90% da população é cristã, segundo o último censo realizado em 2010, a maioria das famílias e das crianças aguarda ansiosamente a festa do nascimento de Jesus Cristo  e esse tema não só pode, como deve estar presente na escola.

É verdade que a escola brasileira, respeitados os princípios da Constituição Brasileira de 1988, deve ser pública e laica. Mas também é verdade que a mesma Constituição garante a liberdade de crença e sua livre expressão. Como, então, garantir espaço para essa dimensão da vida dos alunos, respeitando as diferenças?

Para Adecir Pozzer, graduado em ciência da religião pela Universidade Regional de Blumenau e doutorando em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a celebração é uma rica oportunidade para conhecer melhor a cultura, a história e os costumes que cercam o Natal não apenas no fim do ano. “Vale lembrar que a própria BNCC [Base Nacional Comum Curricular] prevê o estudo a respeito de festas religiosas”, lembra o especialista.

Por isso, Adecir sugere quatro dimensões que podem nortear a abordagem na escola. Abaixo, NOVA ESCOLA elenca essas dimensões e traz curiosidades pouco conhecidas que podem servir de gancho para uma ótima conversa sobre o assunto:


1. O Natal é faz parte da cultura cristã
A religião é uma dimensão legítima da cultura de um povo e, portanto, não pode ser ignorada pela escola. Vale a pena discutir com os estudantes os significados e as origens que essa festa possui para além dos enfeites natalinos.

Embora quase todo mundo comemore o Natal, essa é uma celebração cristã - mais precisamente, de origem católica. Foi o Papa Júlio I, que governou a Igreja entre os anos 337 e 352 da era cristã que introduziu a solenidade no calendário religioso. Conforme o cristianismo se expandia, também cresceu a festa do Natal, que passou a ser celebrada em grande parte do planeta.

Outra coisa interessante: embora haja quem cante “Parabéns pra Jesus” Xuxa Meneghel que o diga! o Natal é bem mais do que isso para os cristãos, especialmente, os católicos. A celebração do nascimento torna Jesus presente na humanidade. Um artigo publicado por Dom Henrique Soares, bispo da Diocese de Palmares (PE), explica: “Celebrando o Natal, o acontecimento do passado (a Manifestação do Filho de Deus) torna-se presente no hoje da nossa vida! Na liturgia do Natal a Igreja não diz: “Há dois mil anos nasceu Jesus”! O que ela diz é: ‘Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz!’”. Por isso a comemoração é tão importante para os cristãos.

2. O Natal não é de todos
Por ser uma festa cristã, é possível que alunos não-cristãos não a celebrem. Por isso, é importante lembrar de ter alguns cuidados no que se refere à linguagem. Expressões como “nós, cristãos” podem ser substituídas por “para os cristãos” na hora do professor se referir a esse assunto. Também é válido pensar em formas de valorizar outras expressões culturais. Uma festa pode abrir espaço, por exemplo, para os cristãos apresentarem cantos natalinos religiosos e para pessoas de outras religiões falarem sobre os significados que o fim do ano carrega em suas culturas. No Brasil, algumas religiões não-cristãs, como o candomblé, se apropriam dessa data e dão a ela novos significados. Dá para fazer isso sem perder de vista o sentido original, que é celebrar o nascimento de Jesus Cristo que, para os cristãos, é o próprio Deus encarnado na humanidade.

3. O Natal conta uma parte da história da humanidade
A partir do estudo dessa festa, também é possível aprender questões históricas e geográficas que estão nas raízes da cultura cristã. Uma discussão sobre a própria data de celebração do Natal pode ser muito rica nesse sentido.

Na época de Maria e José, não havia coisas como cartório, certidão de nascimento… Então, na verdade, ninguém sabe com exatidão o dia e o horário que Jesus nasceu, e a data do 25 de dezembro acabou se consolidando por razões simbólicas. Mas não existe um consenso sobre as razões que levaram o Papa Julio I a instituir a festa neste dia.

A explicação mais famosa diz que a escolha tem a ver com uma antiga festa da religião romana, chamada Solis Invicti (ou Sol Invicto, em tradução livre). Ela coincide com o equinócio de inverno no hemisfério norte, dia em que o sol fica por mais tempo no céu. Assim, os primeiros cristãos associaram o “sol invicto” ao Cristo, que, na Bíblia, é chamado de “sol de justiça" (Ml 4, 2) e “luz do mundo" (Jo 1, 4.).

Mas há uma outra razão possível. Na tradição cristã, sempre se considerou que Jesus foi concebido no ventre de Maria no mesmo dia em que morreu crucificado  isto é, por volta do dia 6 de abril. Fazendo as contas ou seja, somando os 9 meses de gestação chega-se à data aproximada do nascimento em... 6 de janeiro!

Aí você pergunta: “Mas espere lá. Dia 6 de janeiro não é o dia de reis?”. Sim, é! Por isso, nos primeiros tempos, o nascimento de Jesus e a visita dos Reis Magos eram uma única festa. Só depois houve a separação, dando origem a um ciclo de festividades que começa em dezembro e termina nos primeiros dias de janeiro, com várias festas religiosas no meio. Também é por essa conta que os cristãos orientais  como os ortodoxos celebram o natal só no dia 6 de janeiro.

O próprio Papa Emérito Bento XIV, quando ainda era conhecido apenas como o cardeal Joseph Ratzinger, defendeu essa tese no livro Introdução ao Espírito da Liturgia: “O mais decisivo [na escolha da data] foi a relação existente entre a criação e a cruz, entre a criação e a concepção de Cristo". Então, é possível que esses dois fatores expliquem a questão.

Outras figuras históricas que podem despertar a curiosidade são os reis magos  que, na verdade, não eram reis. Sim! Nada de coroas, exércitos ou coisas do tipo. Eles eram, na verdade, figuras mais parecidas com cientistas e filósofos do nosso tempo do que com chefes de estado. Essas três figuras, às quais a tradição religiosa atribui os nomes de Baltazar, Gaspar e Melchior, teriam saído da região da antiga Pérsia (atual Irã) e eram observadores do céu que estudavam os fenômenos astronômicos. Naquela época, não havia a separação que se faz atualmente entre fé e ciência, de modo que eles tentavam interpretar o sentido pleno dos acontecimentos do cosmos. Juntando seus conhecimentos astronômicos com escritos religiosos, os três teriam notado uma relação entre a passagem de uma estrela e um grande acontecimento  que, depois de viajarem por meses no deserto, descobriram ser o nascimento de Cristo.

4. O Natal carrega ricos simbolismos
Os diversos povos celebram o Natal de maneiras diferentes. Nesse aspecto, os reis magos também servem de exemplo: os cristãos orientais, entre os quais se incluem algumas comunidades ligadas à Igreja Católica e à Igreja Ortodoxa, valorizam muito esses sábios do oriente. Enquanto no ocidente a figura do Papai Noel (inspirada num santo chamado São Nicolau) é quem dá os presentes, no oriente são os reis magos que presenteiam as crianças. E não é muito difícil entender o porquê: segundo a tradição, eles levaram ao Menino Jesus presentes, logo, eles é que presenteiam as crianças.



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