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“Sem a dimensão histórica, somos presas de demagogos, de maus candidatos e da ignorância”

O historiador Boris Fausto reflete sobre as notícias falsas, polarização e a tentação do autoritarismo

POR:
Flavia Nogueira
O historiador Boris Fausto     Foto: Carlos Fausto

O brasileiro, em geral, não tem um bom conhecimento histórico. Esta é a opinião do historiador e cientista político Boris Fausto.

“O brasileiro médio, o estudante tem um conhecimento histórico muito rudimentar ou muito equivocado. E a base de tudo isso – e eu estou repetindo uma coisa que você sabe perfeitamente – é realmente a formação dos professores. Há muitas outras razões, mas com o nível de formação que os professores têm, fica muito difícil transmitir conhecimentos um pouco mais sofisticados. O que não quer dizer necessariamente complicados”, afirmou o historiador em entrevista à NOVA ESCOLA.

“E isso se reflete na Educação, que é muito baixa. Vemos isso em motoristas de praça até gente supostamente ilustrada”.

Apesar da avaliação negativa dos conhecimentos históricos dos brasileiros, Boris Fausto enxerga uma solução possível para o problema.

“Qual o melhor remédio para isso? É realmente o trabalho de formação, cursos de formação, às vezes até paralelos à escola, para melhorar a escola. Isso é um trabalho possível, por que não?”, diz ele com convicção, para emendar. “Mas estamos longe”.

Ex-professor de Ciência Política na Universidade de São Paulo (USP), autor de estudos considerados clássicos sobre a História do Brasil, Boris Fausto refletiu sobre o impacto das notícias falsas (fake news, do original em inglês), a tentação do autoritarismo e encara com otimismo o futuro do estudo da História no Brasil. Veja abaixo trechos da entrevista concedida em sua casa, em São Paulo, na qual o historiador reflete sobre a crise da democracia e as perspectivas de mudança para os próximos anos.

NOVA ESCOLA – Até que ponto, na sua opinião, o fato de brasileiros possuírem um conhecimento histórico rudimentar nos transforma em presas fáceis das notícias falsas, as fake news?
BORIS FAUSTO – Sempre houve notícias falsas, mas não havia esta enxurrada. No quadro de hoje, e mesmo antes, o conhecimento do passado é fundamental, senão as pessoas vão incidir em erros e imaginar que estão acontecendo soluções mágicas. Vão pensar que fatos imaginários realmente ocorreram, não vão compreender uma sequência histórica que não era inevitável, mas que aconteceu. Enfim, sem a dimensão histórica, a pessoa é presa fácil não só de fake news, como de demagogos, de maus candidatos, da ignorância. Por tudo isso, o conhecimento da História – e não é uma história monolítica, há várias versões da História – esse conhecimento é fundamental.

É possível detectar um começo desta ignorância em relação à História do Brasil? Ou esta ignorância sempre existiu?
É difícil dizer com certeza, mas conhecendo o problema da Educação e pensando nas escolas públicas, houve sim algumas escolas públicas de elite, em que o conhecimento de História era melhor. Mas quando a Educação se converteu em uma educação em massa – e eu não estou contra isso, estou a favor de boa educação de massa –, a massificação também fez perder um melhor nível de História.

Pensando nos meus professores e no meu curso de História, eu tenho bem a sensação de que fui atraído pela História por outras vias e não pela via escolar. Não creio que o panorama fosse róseo, há poucas razões para saudosismo, a não ser nestas escolas públicas de ponta que praticamente desapareceram.

É possível conciliar um bom estudo da História com a massificação do ensino?
É, sim! Vou dar um exemplo do que fizeram os argentinos. Nas últimas décadas do século 19, a massa de estudantes não era tão grande assim na Argentina, mas proporcionalmente à época e ao país, era um bom número. O conhecimento geral dos argentinos, não apenas da História, sempre foi muito superior ao dos brasileiros. Hoje é menos, devido à contínua crise do Estado argentino. O que não quer dizer que os argentinos não tenham também, em média, visões disparatadas a respeito da política e da sociedade. Em termos de Educação, esse trabalho de massa no final do século 19 foi realizado a contento na Argentina.

Isso poderia ser ou ter sido aplicado no Brasil?
Ponto por ponto, é impossível. Porque são condições de época e de país muito diferentes, mas é possível pensar em uma boa Educação de massa. Mas não por milagre e não com pressões de toda ordem em cima do professor, como parece que vai começar a acontecer ou já está acontecendo.

E aí o senhor se refere a projetos como o Escola Sem Partido?
É. Não são bobagens porque são coisas graves, mas se discute imensamente estas coisas quando nós temos falhas enormes do ensino que não são resolvidas. E o que se busca não é uma escola sem partido – que é (um projeto de) uma escola profundamente ideologizada – mas é um ensino democrático.

Em uma entrevista, o senhor falou em uma “tentação autoritária” presente no Brasil. Na sua visão, seria resultado deste desconhecimento de nossa história?
Um pouco pelo desconhecimento da História, um pouco pelo impasse a que a democracia chegou por culpa dos agentes políticos, sobretudo, principalmente por culpa dos agentes políticos. E existem formas de melhorar a representação, a reforma eleitoral, que aproximasse mais o eleitor do seu representante. Tudo isso não opera milagres, mas ajuda. Então a descrença vem mais disso. Você vê que o Brasil, na América Latina, é um dos países em que a democracia tem um percentual de aprovação menor. E, nos últimos anos, a ideia de democracia, por mais que a gente tente demonstrar que é a democracia que possibilita as investigações contra a corrupção de uma maneira aberta, por mais que a gente insista nisso, tudo isso acaba sendo associado ao regime democrático. 

Estamos vivendo um momento de polarização na sociedade brasileira. Essa polarização é perigosa ou é algo que pode ser considerado normal?
Não acho que seja um movimento normal. Alguém muito à direita ou muito à esquerda vai dizer que é normal. E vai dizer: nós vamos ganhar, nós temos a verdade. Mas para quem pensa a sociedade como um confronto de ideias, conflitos ideológicos, com a crença básica em valores democráticos, não é bom. Porque é uma luta onde um tenta suprimir o outro. E isso vale tanto para a direita que está no poder, como vale para o PT.

Nota-se uma descrença muito grande em relação ao sistema democrático. Ouve-se muito “Odeio políticos, vamos acabar com os políticos”. Na sua opinião, esta descrença vem também de uma deficiência no conhecimento e no ensino da História?
Aí vem em parte. Não estou querendo dar esta responsabilidade ao conhecimento de História. Vem da vida real, da vida como está se processando em sociedade. Nos últimos tempos, a democracia tem falhado em aspectos básicos de representação das pessoas – as pessoas não se sentem representadas. A democracia tem falhado no atendimento de populações marginalizadas ou que se tornaram marginalizadas pelo efeito de mudanças tecnológicas. Tudo isso são fatores que levaram a uma crise muito grande da democracia, isso é inegável. Da democracia e de seus instrumentos, o que inclui partidos e políticos. E nós estamos realmente em uma situação em que muita coisa vai mudar nesse sentido. As pessoas estão buscando renovar formas de representação política, de qualidade política, inclusive no Brasil. Esses movimentos, que eu não sei onde vão dar – o Renova, o Partido Novo etc. –, não acontecem só aqui. É no mundo inteiro. Nós estamos assistindo a uma virada histórica. Talvez você veja até o fim, eu não vou ver.

Existe esta questão de a democracia não ser perfeita, mas ser o melhor que temos. Na sua opinião as pessoas estão se esquecendo disso?
Essa tentação autoritária permanece. E não é só no Brasil. Existem heróis de vários tipos... A França tinha um herói que foi o (estadista e presidente francês Charles) de Gaulle. Depois da Segunda Guerra Mundial, ele estabilizou muita coisa e virou um herói. Mas é a ideia do homem providencial, que ainda persiste.

Não só na América Latina existe a fixação pelos caudilhos, então?
A fixação na América Latina é muito maior porque as instituições são muito mais vulneráveis, então sempre aparece a ideia de um salvador. O que não quer dizer que a gente não tenha necessidade de lideranças e que as lideranças estão faltando brutalmente no Brasil.

O sr. tem algum conselho para os jovens professores e historiadores?
Não dou conselho para ninguém porque é de graça e aí as pessoas acreditam que é bobagem (risos)! Mas vamos falar sério: não vou dar conselho para professor porque eu fui professor por exceção. Então, os professores sabem melhor do que eu. E os professores têm uma tarefa muito mais dura. Como pesquisador, o conselho que eu daria é: sejam ambiciosos, sejam ousados, tentem entrar em um fluxo positivo que existe hoje – o do historiador que tem uma bibliografia atualizada e, se possível, que consigam bolsas para ir ao exterior em determinadas fases da sua formação. E, sobretudo, que gostem do que estão fazendo porque acho que não há coisa mais divertida... Não, tem muita coisa mais divertida, mas uma das mais divertidas é pesquisar e escrever História.

O Brasil precisa de mais historiadores?
Sempre precisa. Mas eu sou um otimista e acho que a História melhorou muito. Veja a História da escravidão. Tínhamos duas ou três pessoas doutas nessa área, mas agora tem uma quantidade grande, volta e meia explodem teses de mestrado sobre escravidão em uma localidade tal. Tem muita coisa que no nível local é bem interessante.

Que é local, mas precisa ser conhecido...
Há uma vantagem em estudar a história local porque te permite enfocar um pouco mais um certo assunto, como alforria, por exemplo. Por que houve tanta alforria no Brasil? Tem resposta para isso. Ao focar naquilo, você pode estudar como se deram estas alforrias. E, às vezes, isso permite que você dê um salto para universalizar esse conhecimento.

 

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