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Como despertar o prazer da leitura e escrita através da fanfic

Explore o gênero digital previsto pela BNCC e inspire-se com um projeto que usou séries para engajar os alunos na produção de um fanzine

POR:
Débora Garofalo, Raquel Zandonadi
Capa do Fanzine produzido pelos alunos ao final do projeto sobre fanfic. O tema escolhido pelos alunos foi a série espanhola "La Casa de Papel". Crédito: Reprodução

Em um mundo que a internet está cada vez mais presente, despertar a leitura e a escrita na escola ganhou novos desafios! Não queremos apenas que nossos alunos sejam passivos de informações. Queremos formar leitores críticos, que desconfiem de informações que circulem sem fontes confiáveis, que desejam participar e também produzir.

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Um exemplo desta nova relação com a leitura e a escrita são os gêneros digitais, como o trailer honesto, e-zine, detonado, pastiche, ciberpoema e as fanfictions. Nossa conversa de hoje é sobre histórias ficcionais publicadas em plataformas digitais por fãs dos mais diversos interesses: obras literárias, séries televisivas, games, histórias em quadrinhos e/ou personalidades. Esses fãs leem e escrevem histórias criadas nessa plataforma, a partir do universo dos seus ídolos.

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Criar uma história ficcional de um assunto de interesse da turma ou estudante tem um potencial enorme de desenvolver habilidades de leitura e escrita, além de uma poderosa ferramenta para ser trabalhada em sala de aula. No gênero, as narrativas são recriadas a partir do enredo oficial e, com isso, os alunos têm a oportunidade de desenvolver uma nova trama ou prolongar a narrativa com a qual mantêm uma relação de fã.

Palavras de quem já fez

Raquel Zandonadi é professora de Língua Portuguesa da rede municipal de ensino da Praia Grande (SP) e vencedora nacional do Prêmio Professores do Brasil, na categoria Ensino Fundamental II. Ela fez um trabalho motivador com os seus alunos dentro do gênero digital a partir da série espanhola “La Casa de Papel”, disponível na Netflix. “Como os jovens se tornam cada vez mais virtuais e cada vez mais leem e escrevem nesse ambiente, a proposta visou colaborar para que as práticas de ensino não fiquem alheias à diversidade de linguagens e culturas do mundo tecnológico”, conta Raquel. Por isso, a professora faz um trabalho que direciona os adolescentes a pensarem os gêneros textuais como práticas sociais dentro desse universo jovem e digital. “Isso colabora para que os alunos desenvolvam habilidades linguísticas e discursivas e que desenvolvam, como consequência, uma postura crítica e analítica diante dessa diversidade de textos que a internet oferece”, relata.

Crédito: Acervo pessoal/Raquel Zandonadi

A seguir, a professora Raquel compartilha o passo a passo da atividade realizada por ela: 

Como fazer uma fanfic com a sua turma

1) Eleja o objeto cultural que será fonte para a produção das fanfictions. No caso, a escolha foi feita pelos alunos: a série “La Casa de Papel”. Possibilitar que a turma possa trabalhar com seus temas de interesse ajuda no engajamento com a atividade.

2) Explore as narrativas em gêneros diversos. Antes do início do trabalho com a série escolhida, decidi abordar questões gerais sobre narrativas com o intuito de apurar o olhar dos alunos quanto aos elementos que compõem essa tipologia. Para isso, elenquei narrativas de gêneros diversos: canção, conto, crônica e longas-metragens e fomos desenvolvendo, em cotejo, a análise.

Dicas para o gênero “canção”

Geni e o Zeppelin, de Chico Buarque de Holanda;

Eduardo e Mônica, da banda Legião Urbana;

Dezesseis, também da Legião Urbana;

Domingo no parque, de Gilberto Gil; e

Vital e sua moto, da banda Paralamas do Sucesso.

3) Analise com a turma o objeto escolhido como tema para a produção. Depois de assistir os três primeiros episódios da série espanhola escolhida pela turma, fiz uma atividade em grupo sobre as características dos personagens. Previamente montei um painel com as fotos dos principais personagens. Abaixo delas, deixei uma fita dupla-face colada e distribuí para os grupos três adjetivos impressos. Eles deveriam debater em grupo e escolher para qual dos personagens atribuiriam cada um dos adjetivos, justificando a escolha.  Foram à frente da sala, colaram a característica na fita dupla face e fizeram a explanação. 

Crédito: Acervo pessoal/Raquel Zandonadi

Depois, perguntei ao restante da sala se concordavam com tais atributos, possibilitando um momento de debates sobre a construção das personagens e retomada das ações da trama para as justificativas. As justificativas deveriam refletir sobre a maneira de ser que cada personagem demostrou nos episódios – tanto em suas atitudes quanto na maneira de se relacionar com outros personagens. Por fim, aqueles que desejassem acrescentar algo poderiam trocar alguma das características coladas no painel pelos colegas e justificar a mudança. 

4) Trabalhe com as referências do objeto escolhido. Todas as referências do seriado foram transformadas em trabalhos. Usamos, por exemplo, o tema resistência, a cor vermelha predominante na paleta de cores da trama, a máscara de Salvador Dali usada pelos assaltantes, os apelidos dos personagens, a música “Bella ciao”... O intuito foi aprofundar a análise do enunciado para que os alunos pudessem fazer uma compreensão profunda da construção do enredo e, a partir disso, perceber as brechas narrativas para compor suas histórias.

5) Explore a plataforma de publicação e a experiência dos próprios alunos com o gênero. Depois de expor questões sobre o gênero fanfiction (como características e origem), pedi aos que já conheciam as plataformas que falassem de suas experiências.  Em seguida, apresentei aos alunos a plataforma que seria usada: a spirit fanfiction. Para isso, fiz prints das páginas e montei uma apresentação em power point, já que não havia o acesso pela internet da escola. Nesse momento, pedi que os alunos criassem, em casa, um perfil na plataforma.

Fica a dica

Para ler as produções dos alunos da professora Raquel na Spirit Fanfics, procure por nicknames (apelidos ou nomes de usuários) começados com Nonoa ou Nonod, em referências às salas em que desenvolveu o projeto, acrescido de um número. Uma sugestão: Nonoa03 e Nonoa5.

6) Planeje a produção textual. Converse sobre possibilidades de fanfics a partir do objeto-tema. Anotamos as sugestões dos alunos na lousa para termos um panorama das possibilidades. Na sequência, elaborei uma espécie de roteiro para que pudessem planejar suas narrativas. Essa atividade funcionaria como um “projeto de dizer”, no qual poderiam particularizar as ações que os tornariam criadores dos seus discursos, mas também poderiam ajudá-los na construção de uma autoria. Nesse “projeto de dizer” deveria conter: Título, sinopse da história, personagens da série que apareceriam, personagens novos (nesse  caso, deveriam descrever esse personagem com características físicas e psicológicas, sua relação com os personagens  já existentes, alguma habilidade que teriam, qual ocupação tinham antes de entrar para a trama e que papel desempenhariam na narrativa), lugares onde se passariam a história (sugeri  que usassem imagens no planejamento, para que visualizassem o lugar antes de escrever sobre ele) e ideias para os cinco primeiros capítulos. Pedi que fizessem esse roteiro no caderno para que pudessem consultá-lo sempre que necessário.

Crédito: Acervo pessoal/Raquel Zandonadi

Superando as dificuldades de infraestrutura (já que não tínhamos acesso à internet nos notebooks da escola):

  • Os alunos que tinham computadores e internet fariam os textos em casa e publicariam na plataforma. Durante a aula, leriam uma obra literária (sem relação com o objeto escolhido para a fanfic), com a qual faríamos uma análise e que disponibilizamos em todos os netbooks da escola em arquivo PDF.
  • Os alunos que não tinham computadores digitariam durante a aula e uma colega voluntária salvaria seus textos em um pen drive, mandaria esses textos aos respectivos autores pelo whatsapp e cada um publicaria na plataforma pelo celular. Como usariam a aula para digitar, teriam que fazer a leitura da obra literária em casa, esta também enviada em PDF pelo whatsapp.

7) Reúna os materiais produzidos pela turma. Para finalizar o projeto e com o intuito de mostrar à comunidade escolar o trabalho findado, montamos um fanzine com todo o material produzido (você pode conferir a capa do fanzine no abre deste texto). Os alunos trabalharam de acordo com suas habilidades: um grupo ficou incumbido de fazer a edição dos conteúdos, das fanfics selecionadas e da capa; outros grupos organizaram os conteúdos mais relevantes para a revista; outros fizeram memes, charges, quiz e caça-palavras. Queríamos colocar no papel o que tinha sido feito, em diálogo, na sala de aula, e o que estava na web.

Saiba mais

Os fanzines são revistas criadas por e para fãs e surgiram na década de 60. Seus primeiros exemplares referiam-se ao seriado norte-americano Jornada nas estrelas, de 1966.

O trabalho da professora Raquel ampliou o repertório dos alunos quanto às referências culturais e histórias, além de enriquecer a compreensão deles sobre o gênero. Isso deu suporte para que a leitura e escrita fluísse para a construção da fanfic. Elaborando e testando hipóteses, eles puderam apurar o olhar crítico.

E você, querido professor, como atua para despertar a leitura e a escrita com seus alunos? Conte aqui nos comentários e ajude a fomentar práticas docentes.

Um grande abraço,
Débora e Raquel

Débora Garofalo. Professora da rede Municipal de Ensino de São Paulo, formada em Letras e Pedagogia, mestranda em Educação pela PUC-SP e colunista de Tecnologia para o site da NOVA ESCOLA. 

 Raquel Zandonadi. Formada em Letras pela UNESP e pós graduação lato sensu em Educação pela USP. Atualmente é professora de Língua Portuguesa do município de Praia Grande e mestranda da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", no programa PROFLETRAS, desenvolvendo a pesquisa "Fanfictions: contribuições das novas relações de leitura e escrita da era digital para o letramento em Língua Portuguesa". Vencedora nacional do 11º Prêmio Professores do Brasil, na categoria de 6º a 9º ano do Ensino Fundamental, com o projeto "Minhas memórias: o embate de vozes na construção da identidade de alunos-sujeitos".

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