Combate à defasagem

Secretarias municipal e estadual de Educação de São Paulo inovam ao propor a recuperação desde o início do ano letivo

POR:
Débora Menezes

Os professores das redes estadual e municipal de São Paulo, que voltam às aulas agora, em fevereiro, vão encontrar uma novidade preparada pelas secretarias de Educação: aulas de recuperação de Língua Portuguesa e Matemática (do 1º ano ao Ensino Médio) durante os primeiros meses letivos. "As competências leitora e escritora perpassam todas as disciplinas e são nosso foco. Se o aluno não consegue ler e interpretar uma informação, dificilmente será capaz de avançar nos outros conteúdos curriculares", afirma Maria Helena Guimarães de Castro, a secretária do estado. "Completar o processo de alfabetização tem sido nosso maior problema e resolver isso é a meta do programa", completa Alexandre Schneider, o secretário do município.

Juntas, as duas redes atendem a quase 20% dos alunos brasileiros e a iniciativa (surpreendente por se tratarem de duas administrações distintas) é bastante elogiável, na medida em que visa aperfeiçoar a qualidade do ensino oferecido num momento em que todas as avaliações mostram que nossos estudantes estão entre os piores do mundo. No estado e na cidade mais rica do Brasil, a situação não é diferente. Em Língua Portuguesa, 45% dos estudantes da 4ª série não escrevem nem lêem plenamente (como está no destaque abaixo). Em Matemática, mais de 70% dos estudantes da mesma série não conseguem fazer as quatro operações, segundo dados do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo, o Saresp, de 2005 (até o fechamento desta edição, os dados de 2007 ainda não haviam sido divulgados).


45% dos alunos do estado concluem o 4º ano sem ler e escrever plenamente
Fonte: Saresp 2005

"As competências leitora e escritora perpassam todas as disciplinas e são nosso foco. Se o aluno não sabe ler e interpretar um texto, dificilmente avança na aprendizagem de outros conteúdos curriculares"  Maria Helena Guimarães de Castro, secretária de Educação do estado

Professores de todas as disciplinas foram convocados para garantir que os alunos consolidem as habilidades básicas de leitura, escrita, raciocínio lógico e cálculo - que, na avaliação da secretaria, não estão sendo desenvolvidas corretamente nas etapas anteriores de escolarização. A força-tarefa vai atuar por 45 dias da seguinte maneira: os titulares de Língua Portuguesa, História, Arte, Língua Estrangeira e Educação Física vão ensinar suas turmas a interpretar e elaborar textos nas respectivas áreas, a identificar o tema principal de uma história em diferentes gêneros, a reconhecer recursos de linguagem e outros conteúdos imprescindíveis para prosseguir os estudos. Já os de Matemática, Ciências e Geografia terão de trabalhar resolução de problemas, leitura de gráficos e tabelas, orientação e localização espacial e outros temas afins. Não só os educadores receberão um material de apoio com sugestões de atividades e informações quanto às formas de avaliação. Também os jovens ganharão um caderno para fazer exercícios em grupo e individualmente.



Mas como ficam os conteúdos previstos para todas essas disciplinas? "Atrasados", responde Maria Inês Fini, assessora de currículo e avaliação da rede estadual paulista. Segundo ela, isso não vai afetar o desempenho no fim do ano porque os ganhos obtidos com essa recuperação vão permitir acelerar as atividades a partir de abril, sem prejuízo para o trabalho pedagógico. "Estamos confiantes de que essa medida só trará ganhos para alunos e professores", diz a secretária Maria Helena.

Sala exclusiva para os casos críticos

 

"O sucesso de qualquer medida depende, acima de tudo, do compromisso dos professores para acabar de vez com os entraves da alfabetização. Eles são os protagonistas e juntos vamos mudar a situação"  Alexandre Schneider, secretário de Educação do município

A partir de 2008, os alunos do 3º ano da rede municipal e da 3ª série da rede estadual que têm problemas de alfabetização serão deslocados para salas exclusivas nas mesmas escolas em que estudam. Até dezembro passado, isso só ocorria no 4º ano das escolas municipais - e nem estava previsto na estadual.
Cada turma dessa nova modalidade terá cerca de 20 crianças, que receberão aulas diferenciadas para desenvolver as habilidades básicas de leitura e escrita e também de Matemática (que deveriam ter sido aprendidas antes), com apoio de material didático próprio. A Secretaria de Educação do Estado estima que 6,3 mil estudantes de 2ª série e 9,5 mil de 4ª fiquem nessas classes. A iniciativa das salas exclusivas não é novidade, mas é polêmica por ser considerada discriminatória e ineficiente por alguns especialistas. "A separação pode fazer com que esses alunos percam sua referência de grupo e se sintam incapazes. Eles precisam de uma atenção especial, mas sem mudar de sala", afirma a pedagoga Maria Lúcia Castanheiras, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais e vice-diretora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita. Para Alexandre Schneider, secretário municipal de Educação de São Paulo, apesar de não ser uma medida ideal, o programa é eficiente porque é a melhor solução para diminuir a reprovação e garantir o direito ao ensino para todos. "Dessa maneira, as chances de recuperação são muito maiores. Trata-se apenas de uma iniciativa de emergência para pôr fim à evasão e ao péssimo desempenho escolar", defende.

 


Redes articuladas
Nas escolas municipais da capital, os alunos do 1º ao 4º ano (a rede ainda não se adaptou ao Ensino Fundamental de nove, mas já usa ano em lugar de série) farão a recuperação graças a um programa que existe há dois anos e está sendo ampliado: o Ler e Escrever. O esquema prevê reforço escolar de Língua Portuguesa e Matemática a partir de fevereiro e apoio pedagógico mais rigoroso até dezembro. Os estudantes com desempenho muito crítico no 3º e 4º anos (principalmente dificuldades de leitura e escrita) podem ser deslocados, conforme seu histórico, para uma classe exclusiva de acompanhamento. Já os que deveriam passar para o 5º ano, mas ainda apresentam problemas de alfabetização, ficarão em classes especiais, com professores especialistas nessa tarefa (leia mais no quadro acima).


"O sucesso de qualquer medida desse tipo depende, acima de tudo, do compromisso dos professores para acabar de vez com os entraves da alfabetização. Eles são os protagonistas do processo educacional e, juntos, vamos mudar a atual situação", aposta Schneider, o secretário municipal. Só em 2009, quando saírem os resultados das avaliações, será possível julgar a eficácia das iniciativas, mas há bons motivos para acreditar que elas terão sucesso.

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Contatos
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo
, Pça. da República, 53, 01045-903, São Paulo, SP,
tel. (11) 3218-2000
Secretaria de Educação do Município de São Paulo, R. Dr. Diogo de Faria, 1247, 04037-004, São Paulo, SP, tel. (11) 5549-7399

 
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