O cinema como um aliado

Os filmes são um grande recurso do professor para apresentar ou aprofundar temas ou mesmo para trabalhar o valor e as características da linguagem cinematográfica. Confira, a seguir, o que especialistas sugerem para ajudar você a usá-lo em sala da melhor forma

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Maíra Kubík Mano

Aventura. Ação. Romance. Comédia. Drama. Suspense. Terror. Desde o século 19, o cinema encanta multidões de espectadores com suas histórias - fictícias ou reais. Centenas de personagens, enredos, músicas e cenários povoam nosso imaginário e já se tornaram referências mundiais. O desenvolvimento tecnológico e da indústria cinematográfica favoreceu o nosso contato com a sétima arte. "Estamos absolutamente imersos num mundo audiovisual", constata Silvia Meirelles, pedagoga e coordenadora do projeto Cine Educação, da Cinemateca de São Paulo, na capital paulista. Justamente por isso, explica ela, a escola deveria cada vez mais se apropriar desse meio. "O cinema como ilustração didática está inserido na escola há muito tempo, mas essa é uma geração que está exposta o tempo inteiro à linguagem visual - via televisão, celular, internet. Temos de aprimorar o uso desse recurso e encará-lo de forma crítica", afirma.

Usar o filme todo ou partes dele

De acordo com Claudia Mogadouro, pesquisadora do Núcleo de Educação e Comunicação da Universidade de São Paulo (USP), a escola ainda tem muita dificuldade em lidar com esse universo.

Uma das primeiras dúvidas que surgem na hora de usar filmes como um material didático é a forma de apresentá-lo: inteiro ou em trechos? Inês Teixeira, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coautora do livro A Escola Vai ao Cinema, defende que a questão é relativa. "As duas maneiras são válidas, dependendo do contexto, dos propósitos das atividades e, sobretudo, da forma como são utilizadas." Para Claudia, o filme completo tem muito mais força como obra de arte. "Dessa forma, ele certamente pode ser abordado de vários ângulos." O uso de fragmentos como apoio, para ilustrar o conteúdo de um texto ou a explicação de determinada disciplina, é uma tendência. Já Silvia acredita que, ao optar por cenas, o professor deve garantir aos alunos uma visão geral sobre o filme: do que ele trata, quem é o diretor e quando foi produzido, entre outras informações. "Caso contrário, eles não entram na linguagem do cinema." Uma opção pode ser sugerir que vejam o filme completo em casa ou exibi-lo no contraturno. A exibição de fragmentos de filmes se presta também à análise de forma mais profunda de aspectos mais técnicos - enquadramentos, planos, movimentos de câmara, zoom, luz, som etc. -, que são conteúdos importantes para as aulas de Arte.

Planejamento garante o sucesso da aula

Os filmes jamais podem ser encarados como uma distração ou uma forma de preencher o tempo e, assim como qualquer atividade proposta em sala, as que envolvem o cinema só dão certo se forem bem preparadas (Leia o quadro Como Escolher o Filme). "É preciso assistir ao filme antes de apresentá-lo para conhecer a obra e estabelecer critérios para o plano de aula", diz José Miguel Lopes, professor da Universidade Estadual de Minas Gerais e coautor de A Escola Vai ao Cinema. Na proposta devem constar o conceito a ser discutido, os objetivos, a metodologia e os critérios de avaliação, como a participação dos alunos no debate sobre o filme visto e a relação que eles fazem entre ele e o conteúdo trabalhado. Inicie o trabalho apresentando o planejamento aos alunos, assim como a sinopse da obra e um roteiro para a discussão. Um breve comentário sobre o que será visto também é sempre bem-vindo (leia o quadro Como Planejar a Exibição). Isso é importante para que a garotada entenda o contexto de produção. "Até um documentário é feito de escolhas de quem o produz. O audiovisual é uma linguagem muito forte e pode ser interpretada como uma verdade absoluta. Nem mesmo os livros podem ser olhados como uma fonte inquestionável e cabe ao professor explicar isso", alerta Lopes. É necessário ter cautela, por exemplo, para usar produções históricas como uma forma de mostrar como era a vida em determinada época. "Elas trazem um olhar sobre aquele momento e muitas vezes a criança fica com a ideia de que tudo ocorreu exatamente daquele jeito", aponta Claudia. Para fazer esse trabalho de forma mais consistente, é importante o estudo sobre o cinema. "O educador precisa ter um conhecimento básico da linguagem cinematográfica, um domínio mínimo da sua gramática. Isso vai ajudá-lo a fazer uma análise do filme e orientar a garotada", afirma Lopes. Não é necessário fazer nenhum curso. "Além de livros sobre a área, é possível consultar sites de introdução ao cinema" (leia o quadro Quer Saber Mais?). Ter um bom repertório de filmes também contribui para propor uma boa aula. Além de uma base sobre a linguagem, conhecer o trabalho dos diretores cinematográficos e do contexto das obras é essencial para selecionar bons filmes.

"O professor não precisa se tornar um especialista em cinema nem deve deixar o recurso apenas para quem leciona Arte, por exemplo. O cinema é uma linguagem que contempla conteúdos e áreas disciplinares", ressalta Inês.

Documentário ou ficção são boas opções

Os filmes escolhidos podem ser até mesmo aqueles líderes de bilheteria e vindos de Hollywood, desde que sejam adequados aos propósitos da aula (Leia o quadro O Uso em Cada Disciplina). "Não é preciso ter nenhum tipo de preconceito em relação aos blockbusters. Como os alunos estão muito expostos à sedução audiovisual, filmes atraentes como esses funcionam bem", afirma Silvia Meirelles. É recomendável, no entanto, ampliar os horizontes da turma. "Além da ficção, documentários e filmes educativos podem e devem estar presentes na escola para que a garotada os conheça e discuta sempre que possível", comenta Inês. Ela recomenda ainda trabalhar com o cinema de criação, que é marcadamente autoral e muitas vezes decorre de um trabalho coletivo. "A maioria dos estudantes desconhece obras desse tipo, pois são poucas as que estão no circuito comercial e na mídia, dominados por grandes produtoras e distribuidoras dos filmes mais comerciais." Outro cuidado sempre presente é verificar a faixa etária a que cada filme é indicado. Por fim, é preciso destacar que o ideal não é apenas levar o cinema à escola mas também os alunos às salas de exibição, às mostras e aos festivais sempre que isso for possível. "Conhecer o cinema projetado nas grandes telas, no ambiente para qual foi pensado, é uma experiência rica. Ali, a imagem se torna mais bela e mágica do que quando assistimos filmes na TV", conclui Inês.

QUER SABER MAIS?

Contatos
Claudia Mogadouro, claudia.mogadouro@gmail.com
José Miguel Lopes, miguel-lopes@uol.com.br
Bibliografia
A Escola Vai ao Cinema, Inês A. de Castro Teixeira e José de Sousa Miguel Lopes, 224 págs., Ed. Autêntica, tel. (31) 3222-6819, 47 reais
Cinema Brasileiro Moderno, Ismail Xavier, 146 págs., Ed. Paz e Terra, tel. (11) 3337-8399, 10 reais
Como Usar o Cinema na Sala de Aula, Marcos Napolitano, 250 págs., Ed. Contexto, tel. (11) 3832-5838, 35,90 reais
Internet
Em revistacinetica.com.br, você encontra críticas aprofundadas sobre filmes recentes.
Em filmecultura.org.br, leia na internet a íntegra da revista trimestral Filme Cultura.

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