As oportunidades da escola em tempo integral para o professor

O tempo extra com os estudantes permite exercer funções do trabalho de professor que seriam muito difíceis de acontecer sem o tempo adicional

POR:
Carolina Briso

O número de escolas de Ensino Médio públicas em tempo integral tem crescido nos últimos dois anos. Uma das metas do PNE (Plano Nacional de Educação) prevê que 50% das escolas públicas da Educação Básica sejam em tempo integral em 2024. Entre as ações realizadas para alcançar essa meta e atender aos objetivos do PNE, o Governo Federal lançou, no âmbito das ações da reforma do Ensino Médio, em setembro de 2016, o Programa de Fomento às Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral. Esta proposta está fundamentada no desenvolvimento integral dos alunos, englobando as dimensões intelectual, física, emocional, social e cultural e visa à formação de sujeitos críticos, autônomos e responsáveis consigo mesmos e com o mundo. Dessa maneira, o modelo assegura, além das tradicionais aulas, como Língua Portuguesa e Matemática, um currículo integrado com projetos interdisciplinares que colocam o aluno no centro de todo o processo de aprendizagem. A chave de seu sucesso está no fato de construir um projeto educativo que faça sentido para cada estudante.

Professores que trabalham em escolas que adotam o tempo integral experimentam uma transformação na relação com suas carreiras e mais especialmente com seus alunos.

Pesquisa feita pelo Instituto Natura em 2017 com 72 professores e 867 estudantes de 12 escolas distribuídas pelos estados de Pernambuco, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Ceará identificou importantes pontos positivos da escola em tempo integral do ponto de vista desses profissionais e alunos: planejamento individual e coletivo dos docentes, fortalecimento dos vínculos afetivos entre os próprios alunos e entre os alunos e docentes, melhoria do clima escolar como um todo e formações para melhora da qualidade das aulas ministradas.

O tempo extra com os estudantes permite exercer funções do trabalho de professor que seriam muito difíceis de acontecer sem o tempo adicional, como orientar os alunos e acompanhar melhor seus aprendizados. Além disso, ajuda a criar vínculos mais fortes, já que os profissionais passam a ter condições que possibilitam compreender melhor o que o aluno vive e quais são suas expectativas, entendendo melhor sua realidade. Além de ensinar os conteúdos de sua disciplina, passam a preparar os estudantes para o mundo e não apenas para a próxima prova.

As escolas em tempo integral oferecem disciplinas eletivas e mais oportunidades para o desenvolvimento de projetos pedagógicos interdisciplinares. Isso permite que os professores tornem suas aulas mais dinâmicas e significativas para os alunos. O tempo extra também possibilita a melhoria na qualidade dos momentos de planejamento individual e coletivo dos professores, o que colabora para a qualidade das aulas ministradas e para o entrosamento da equipe pedagógica, incentivando ações interdisciplinares.

Dessa forma, a experiência de lecionar na escola em tempo integral pode proporcionar ao professor um cenário dinâmico e enriquecedor ao seu desenvolvimento profissional, na medida em que o relacionamento com os alunos se fortalece e seu campo de atuação se amplia. Iniciativas como a oferta de eletivas que permitem novas abordagens interdisciplinares, como empreendedorismo, no caso da rede de Pernambuco, ou o NTPPS (Núcleo Trabalho, Pesquisa e Práticas Sociais), oferecido na do Ceará, incentivam experiências de flexibilidade dos componentes curriculares e o engajamento dos docentes.

As escolas que acompanhamos em nosso trabalho no Instituto Natura mostram tudo isso na prática. Na CEEP Lourdinha Guerra, em Nova Parnamirim, no Rio Grande do Norte, que adota o tempo integral desde 2017, tivemos uma conversa com o Leonardo Souza, professor de Química. Ele nos contou que, como o tempo de vivência com o aluno é maior, é possível trabalhar com ele mais a fundo. Para ele, a melhor parte do tempo estendido é a tutoria, momento onde o educador procura conhecer a situação de cada estudante e tenta ajudá-lo pessoalmente. Essa ajuda envolve orientação no planejamento e na execução de tarefas e na escolha dos estudos e profissões segundo suas capacidades e interesses.

O Colégio Estadual Djenal Tavares de Queiroz, em Aracajú, Sergipe, é outra escola onde o ensino em tempo integral vai de vento em popa desde 2018. Da última vez que visitamos, o professor Vitor dos Santos, que ensina Português, dividiu conosco como trabalhar em uma escola em tempo integral melhora a qualidade de vida do professor, já que ele passa o dia inteiro na mesma escola, sem precisar se deslocar ao longo do dia. Para ele, isso faz toda a diferença na hora de se entrosar com os outros docentes e trabalhar em equipe, além de sentir que o novo jeito de trabalhar incentiva a sua criatividade.

No mundo das políticas públicas, dados, gráficos e números são importantes para verificar o sucesso da proposta, mas é conversando com professores que estão dentro das salas de aula é que vemos o potencial desse modelo e a importância da sua universalização.  

Carolina Briso é gerente de projetos educacionais do Instituto Natura

 

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